
Foto aproximada de um dicionário focando na palavra censura. Foto por Mick Haupt via Unsplash. Usada sob a Licensa Unsplash.
Artigo de Omar Zahirovíc originalmente publicado pelo Balkan Diskurs, um projeto do Centro de Pesquisa Pós Conflito (PCRC). Uma versão editada foi republicada pela Global Voices sob um acordo de compartilhamento de conteúdo.
Foi o poeta e funcionário público inglês John Milton que disse sobre a liberdade de expressão: “Pois essa é a liberdade que mais do que todas nos dá felicidade ou infelicidade, sucesso ou decepção, honra ou vergonha.” Essa afirmação permanece como uma das mais importantes sobre o assunto, ela reconhece uma verdade fundamental sobre a natureza humana: nós, enquanto espécie, naturalmente procuramos a liberdade. Humanos são seres que impõem limites e estruturas. Nós somos ensinados modelos de comportamentos e seguimos a vida toda com eles. Liberdade de expressão é inerente a todas as liberdades. No mundo moderno, onde o discurso fluente é propagado, formas escondidas de censura surgem com frequência.
Durante a história antiga, leis sobre liberdades começaram a tomar forma, enquanto aqueles no poder tinham controle sobre a liberdade de expressão, uma situação que persistiu em grande parte sem mudanças até a Idade Média. Imediatamente após, o discurso público era predominantemente influenciado pela igreja. As primeiras discussões sobre as liberdades surgiram durante o período do humanismo e a Renascença. A literatura desta época ilustra o aparecimento de um diálogo mais claro e aberto. Da Renascença até os tempos modernos, a censura foi moldada por senhores feudais, pessoas no poder e indivíduos ricos. O que é mais alarmante é que pouco mudou. Hoje em dia, o discurso público ainda é em grande parte moldado por indivíduos poderosos e o sistema dentro do qual o orador opera.
Para entender o fenômeno da censura moderna, conversamos com a pesquisadora de comunicação e socióloga sobre o assunto urgente.
Censura no mundo contemporâneo
Amina Vatreš é uma educadora assistente e pesquisadora publicada no Departamento de Estudos da Comunicação na Universidade de Sarajevo. Entender formas contemporâneas de censura, de acordo com Vatreš, requer analisar as características complexas e multidimensionais do espaço da informação. Isso inclui examinar o papel da tecnologia, redes sociais, pressões políticas e econômicas, bem como a (não) existência da responsabilidade individual e social entre profissionais e outros criadores de conteúdo.
“Ela (censura) frequentemente age de maneira inteiramente latente e implícita, proporcionando novos e mais complexos desafios para a preservação da liberdade de expressão, independência da operação de mídias e a manutenção do papel das mídias como cão de guarda”, disse Vatreš.
Substituindo métodos convencionais de censura que envolvem o bloqueio explicito de certos conteúdos de um ou mais centros, Vatreš explica que os teóricos da comunicação recentes se referem à nova forma de censura como “censura através do ruído”. Este fenômeno está fortemente relacionado à sobrecarga de informação, como fator chave no recente ecossistema de informação e comunicação.

Amina Vatreš educadora assistente e pesquisadora publicada no Departamento de Estudos da Comunicação da Universidade de Sarajevo. Arquivo privado via Balkan Diskurs, usada sob permissão.
Vatreš afirma que a censura através do ruído dificulta a distinção entre reportagem baseada em fatos e informação completamente fabricada. Isso leva a um tipo de sufocamento da verdade em um mar de mentiras e o surgimento de inúmeros fragmentos fora de contexto e verdades subjetivas. Desse jeito, ela continua, a multitude das mídias cria a ilusão da pluralidade de opiniões, o que é particularmente aparente no universo das redes sociais.
Vladimir Vasić, um sociólogo, enfatiza o papel que diretorias editoriais fazem na censura moderna.
“É perigoso que certos meios de comunicação, agindo como uma ‘janela para o mundo’ sufoquem a liberdade de expressão devido a suas políticas editoriais em vez de basear seus trabalho em princípios éticos e científicos fundamentais para a sua existência”, Vasić acrescentou.
“Liberdade de expressão acaba no momento em que uma narrativa que tenta se encaixar no modelo de liberdade de expressão compromete a integridade de outra pessoa ou outros valores”, disse.
Censura hoje em dia é mais desonesta, sutilmente diferente da tradicional, com seus próprios modos escondidos.
No entanto, Vasić acrescenta o papel da mentalidade de rebanho: “Indivíduos tentam impor tal forma de atividade pública dentro do modelo de censura, qualquer um que pense diferente de mim está contra mim, o que na ciência é claramente conhecido por seu nome. No caso deles, censura se refere à transparência do trabalho e como os fundos públicos são administrados.”
Autocensura em uma cultura do medo
Hoje em dia, a verdade e a liberdade de expressão frequentemente vem à custa de sanções sociais. Em anos recentes, temos visto como a maioria das pessoas escolheu um método de defesa mais silencioso. Muitos jovens ignoram ou aceitam tabus geracionais contemporâneos ao nosso tempo. Influenciados pelas redes sociais, eles escolhem a autocensura.
De acordo com Vatreš, a autocensura é um meio de evitar repercussões negativas que podem resultar da expressão de ideias, pontos de vista e reflexões críticas sobre a sociedade. Dentro da esfera on-line, o problema da censura toma novas dimensões.
Vatreš argumenta que isso é uma manifestação de uma forma moderna de censura que essencialmente atinge os mesmos objetivos da censura tradicional.
“Isso é ainda mais complicado pelo fato de que por conta da abundância de informações, informações parciais e noticias falsas, é difícil fazer uma distinção clara entre fato e ficção, enquanto ao mesmo tempo, nós não estamos conscientes da mudança fundamental em como a informação está sendo controlada”, disse Vatreš.
Referindo a atitudes sociais para com desentendimentos e conflito, o sociologo Vasić diz, “Está tudo bem contanto que ninguém esteja atirando! Essa frase mascara sua passividade e sua incompetência. Por ‘sua’, digo todos aqueles que nós levaram a crer que o ponto alto do conforto é ‘está tudo bem contanto que ninguém esteja atirando’, e não só isso, eles criaram tais condições de vida para nós. Contanto que permanecemos em silêncio, as coisas iram piorar para nós porque, permanecendo em silêncio, provamos que não merecemos nada melhor.”
“Contanto que niguém esteja atirando”
Se as pessoas quiserem se tornar consumidoras ativas de informação, elas precisam se perguntar se devem filtrar o que veem. Vasić responde afirmando.
“Eu acredito que filtrar conteúdo disponível publicamente é benéfico, mas é essencial que tenhamos filtros mentais em nossas cabeças que operem no princípio de ‘Eu quero, eu não quero!’ É importante que aprendamos a ler as notícias e receber informações criticamente, porque nem tudo escrito nos jornais ou dito na televisão é verdade”, disse Vasić.
De acordo com Vasić, censura que prejudica a liberdade e a liberdade que ataca a integridade de outros são irmãs dos mesmos pais, irmãs ruins.
Através de nossa conversa com Amina Vatreš e Vladimir Vasić, temos aprendido sobre os princípios fundamentais da censura moderna e seu impacto nas massas e indivíduos. Está na hora de aprendermos como transformar o mundo da comunicação e informação em uma comunidade segura que funciona de maneira estimulante e segura.








