Batalhas de rima em São Paulo buscam fortalecer cultura e identidade periféricas

MC DuRap

Batalhas reúnem diversos MC’s, desde os novatos até os mais conhecidos da cena, como o DuRap | Foto: Divulgação/Usada com permissão

Este texto é de autoria de Gabriela Santos e Tatiane Araújo, publicado originalmente em março de 2022, pela Agência Mural. O artigo é reproduzido aqui em acordo de parceria com o Global Voices.

“Se tu ama essa cultura como eu amo essa cultura, grita: hip-hop!”. A frase é repetida como um mantra, em alto e bom som, pelos competidores e pelo público que assiste mais uma batalha de rima numa noite quente de sexta-feira, na zona leste de São Paulo.

A Praça Brasil, em Itaquera, é o lugar que abriga semanalmente a Batalha da Zil, voltando agora ao formato presencial.

Conhecida como uma das maiores da região, ela foi criada em 2017 e chama a atenção pelo rápido crescimento desde o retorno, em julho de 2021 – período em que a vacinação contra a Covid-19 ganhou força no Brasil.

A batalha já chegou a reunir de 100 a 300 jovens na famosa praça do bairro. Ali eles acompanham as disputas entre diversos MC’s, como são chamados os artistas que rimam e disputam os torneios. Participam desde os novatos até os mais conhecidos da cena, como o MC DuRap.  

Esse tipo de batalha se espalhou pelas periferias de São Paulo, a maior cidade brasileira, sendo realizada em praças ou na porta de estações por jovens inspirados no rap. No entanto, com a pandemia de Covid-19, os eventos presenciais foram cancelados e, agora, tem retomado a força. 

Igor Franulovic, 22, principal organizador e apresentador, conta que os registros de participação da Batalha da Zil aconteciam sem que a organização planejasse uma expansão – o que resultou em um período de hiato indeterminado.

Igão, como é conhecido, aponta que é muito mais do que um encontro musical, e sim “um projeto social na periferia para revelar artistas”.

O estudante Felipe de Souza, 18, que também atua como organizador ao lado de Igão, vai além e diz que a batalha “é um espaço de desabafo, de conhecermos outras realidades, além de ser um ambiente que acolhe”.

Outra batalha que aposta na transformação da quebrada é a BDA (Batalha da Aldeia), uma das principais do Brasil, segundo os próprios organizadores e membros de outras batalhas espalhadas pelo estado de São Paulo. Acontece toda segunda-feira na Praça dos Estudantes, em Barueri, na Grande São Paulo.

Sempre lotada, a BDA surgiu da dedicação de Bruno Angelo de Souza, 32, mais conhecido como Bob 13. O fundador morava em Tupã, interior de São Paulo, e se mudou para Barueri em 2016.

Foi nesse período que ele percebeu a ausência de ações de rua voltadas para os jovens e uniu o sonho de viver da rima com a necessidade de inserir o movimento do rap no município.

Na época, a média de público que frequentava a BDA era de mais de 2.000 pessoas por noite. Mas em 2020 começou a pandemia e os planos mudaram com a proibição de eventos com grande concentração de pessoas.

A organização da batalha se viu obrigada a explorar novas estratégias e decidiu apostar mais no espaço digital. Bob 13 conta que, no início da pandemia, ficou inseguro.

“Que momento desesperador, todas as batalhas do país chegaram a nível zero, sem poder de ação e sem trabalho” Bob 13, da Batalha da Aldeia

Um dos principais questionamentos dele era “como fazer uma batalha de rima sem público e sem MC's frente a frente?”.

Surgiu então a ideia de fazer uma disputa de rimas a distância, por meio do aplicativo Discord, que usa somente a voz dos participantes.

Mas faltava a energia singular do presencial, diz o organizador. “As batalhas que tinham mais de 100 mil acessos no YouTube passaram a ter menos de 10 mil”, conta.

Com o avanço da vacinação e queda dos números da pandemia, eles passaram a colocar MC’s em estúdio para registrar imagens e, assim, garantir que o público assistisse às performances.

Aniversário da BDA em 2017| Foto: Divulgação/Usada com permissão

Em 5 de maio de 2021, dia em que a BDA comemorou cinco anos, teve até confraternização em uma casa de shows na região central de São Paulo, incluindo premiação de R$ 60 mil para os vencedores.

Agora em 2022, a batalha retorna ao presencial gradativamente, com eventos na Praça dos Estudantes. “O público está voltando 100% com a gente, as visualizações estão voltando também e vamos continuar trabalhando”, afirma.

Bob 13 também vem preparando um interestadual das batalhas de rima e planeja um evento a nível nacional para celebrar os seis anos da BDA. A ideia é levar a disputa de Barueri para o país todo.

Diversidade


Ainda que as batalhas de rima tenham se tornado um importante movimento cultural nas periferias, a cena segue majoritariamente tomada por participantes homens.

Monique Fortes, 21, conhecida como Nisque MC, é artista independente e participa diariamente de diversas batalhas espalhadas pela capital, entre elas a da Zil.

Nisque MC fala da importância da pluralidade nas batalhas | Foto: Divulgação/Usada com permissão

Quando iniciou neste universo, há oito meses, a participação masculina era muito mais intensa e até agressiva, diz ela. Felizmente, está mudando com o tempo.

“Vi, e ainda vejo, muitas minas com receio de batalhar com homens, por isso é importante fortalecer a comunidade feminina e LGBTQIA+” Nisque MC

A própria Batalha da Zil, por exemplo, passou a promover a Batalha da Diversidade, com o objetivo de inserir mais mulheres e mais pessoas da comunidade LGBTQIA+ no cenário.

“Iniciativas como essas fazem a diferença, porque quebram barreiras e colocam mais pluralidade”, afirma Nisque.

Millena Magalhães, 22, que atende por MC Mi Maya, se identifica como pessoa não-binária e também já foi uma das participantes da edição voltada à pluralidade.

Mi Maya atua como MC permanente da Batalha da 16, no Morro Doce, zona noroeste de São Paulo, mas participa de outras, como é o caso da Zil.

Segundo Millena, a Batalha da Diversidade pode ser um porta-voz da comunidade LGBTQIA+ nos eventos. Também pode ser um lugar de aprendizado para todos os envolvidos, dos rimadores ao público. Entender os detalhes pode fazer toda a diferença, como respeitar pronomes. “É um ambiente onde nos sentimos à vontade.”

A edição da diversidade está em processo de reformulação. Igão explica que a ideia é promissora, mas é necessário organizá-la da melhor maneira para que todos os participantes se sintam representados.

A Batalha da Aldeia, além de acumular números expressivos, também promove edições que fortalecem o envolvimento feminino. É o caso da Batalha das Venenosas, que já acumula mais de 14 milhões de visualizações no YouTube.

Suporte aos MC's

“A batalha nos transforma. É sinônimo de liberdade de expressão. Te ajuda a construir pensamentos diferentes, aborda assuntos que as pessoas têm medo de falar e te mostra vivências diversas”, opina Igão.

Para amadurecer esse trabalho, ele conta que na Batalha da Zil o suporte aos MC’s é considerado um dos principais pilares.

O esforço do trabalho volta para a comunidade, para a cultura do bairro. A Zil arca com despesas de viagem de MCs, de São Paulo ou outras cidades e estados, em alguns casos, oferece hospedagem e apoio, para que eles tenham condições de seguir no cenário da rima.

O valor gasto provém da monetização dos vídeos do YouTube e da ajuda dos próprios organizadores. Igão e Felipe explicam que, hoje, se dedicam a criar uma forte identidade nas redes sociais para atrair público e patrocinadores que possam possibilitar o pagamento de prêmios aos MC's e remuneração da equipe.

Uma das metas da Zil é atingir 20 mil inscritos no YouTube ainda em 2022. Até a publicação desta reportagem, o canal da batalha contava com 11,4 mil inscritos e o Instagram com 8.426 seguidores.

Uma das referências é a própria BDA que, na pandemia, fortaleceu o trabalho nas mídias — hoje, o movimento soma 3,67 milhões de inscritos no YouTube e 1,2 milhão de seguidores no Instagram. 

Nisque, que é moradora da zona leste, enxerga neste crescente movimento um caminho de novas perspectivas para os moradores das periferias.

“Na quebrada, a opção parece ser futebol ou crime, sempre. Com a batalha, levamos coisas diferentes para as comunidades e alguma transformação através do rap. Passamos a visão para os moleques”, conclui.

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