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O que os cubanos querem? Certamente mais do que o fim do bloqueio norte-americano

Categorias: América Latina, Cuba, Alimentação, Censorship, Esforços Humanitários, Mídia Cidadã, Política, The Bridge

Foto de Havana, de Pedro Szekely [1]/Flickr [2] (CC BY-SA 2.0 [3])

Este artigo foi escrito anonimamente por um@ autor@ em Cuba, utilizando o pseudônimo de “Luis Rodriguez”.

Durante a manhã do domingo 11 de julho, enquanto muitos descansavam em suas casas, a cidade de San Antonio de los Baños foi cenário de um grande protesto [4] em reinvindicação ao acesso a vacinas, alimentos, remédios e liberdade, que atualmente são os principais motivos de preocupação dos cubanos comuns.

Até o próprio presidente Miguel Díaz Canel [5] foi até a pequena cidade para tentar pacificar a situação, pois os protestos se estenderam a outras partes da capital e do restante do país, ocasionando uma verdadeira explosão social que surpreendeu não apenas ao regime, como também à comunidade internacional.

Após 62 anos da Revolução, esse foi um episódio sem precedentes na história de Cuba, que para muitos analistas e a imprensa internacional, superou significativamente os acontecimentos do Maleconazo [6] de 1994. O governo cubano insiste em legitimar a narrativa [7] de que os protestos foram incitados pelos Estados Unidos com o objetivo de minimizar o descontentamento popular e sua espontaneidade.

Ainda que as sanções [8] dos Estados Unidos agravem a nossa crise humanitária, o povo cubano está cansado da retórica de que todos os problemas são consequência do bloqueio imposto pelos Estados Unidos à ilha. Mesmo assim, o povo pede o fim do bloqueio para que tenhamos melhores condições de vida. É evidente que os protestos de 11 de julho não são fruto apenas da ineficiência do governo para solucionar os inúmeros problemas que o país enfrenta. Assim, minimizar o impacto do bloqueio e das medidas adotadas pela administração de Donald Trump seria um erro terrível. Sempre me opus ao bloqueio dos Estados Unidos à ilha, pois isso trouxe muito sofrimento ao povo cubano. Além do mais, historicamente, o governo sempre atribuiu a ele a culpa de todos os problemas de Cuba.

As coisas mudaram bastantes desde o início dos anos 2000, quando Cuba começou a manifestar uma maior estabilidade política e econômica em virtude de uma questão geopolítica estratégica: a chegada ao poder, na Venezuela, do falecido mandatário Hugo Chávez [9], estratégico aliado político de Fidel Castro. A partir desse dia e até a chegada de Nicolás Maduro à presidência, a Venezuela passou a abastecer Cuba com petróleo.

No dia 17 de dezembro de 2014, aconteceu um fato inédito na história: os governos de Cuba e Estados Unidos anunciaram à comunidade internacional a decisão de reestabelecer suas relações diplomáticas [10] interrompidas desde 1961. Desde então, mesmo que as sanções tenham continuado, Cuba experimentou um período de auge no turismo como nunca tinha vivido antes, que beneficiou a sua economia de forma extraordinária, favorecendo não apenas o Estado como também o emergente setor privado, principalmente os pequenos restaurantes, conhecidos em Cuba como paladares [11], e casas de aluguel. Nesse período, o povo cubano vivenciou uma inédita melhora do seu padrão de vida. De maneira geral, hoje os cubanos recordam daquela época com muita nostalgia e se apegam a esta lembrança como um símbolo de esperança em um futuro melhor.

A grande maioria dos cubanos que estão na ilha e os que foram viver nos Estados Unidos não suspeitavam de que o pior ainda estava por vir. Refiro-me à chegada do ex-presidente Donald Trump à Casa Branca, em 2017, que se encarregou de reverter praticamente todas as ações políticas aplicadas pelo seu antecessor em relação à ilha. A administração de Trump adotou medidas inéditas em relação a Cuba que chegaram a níveis extremos, entre elas estava a suspensão do envio de remessas [12] por meio da Western Unión, o cancelamento do programa de reunificação familiar, o encerramento dos serviços consulares [13] da Embaixada dos Estados Unidos em Havana, depois de sérias acusações de supostos ataques sônicos à sua equipe diplomática, além do aumento das sanções dos Estados Unidos, entre outras.

De acordo com a acadêmica cubano-americana María Isabel Alfonso [14], estudiosa do impacto causados pelas sanções dos Estados Unidos às famílias cubanas e, em especial, às mulheres, as consequências são também emocionais e psicológicas e, de acordo com os números oficiais do governo cubano [15], divulgados na renomada plataforma de comunicação norte-americana com sede em Cuba Oncubanews [16], “o embargo financeiro e comercial imposto pelos Estados Unidos a Cuba há quase seis décadas causou à ilha prejuízos de US$ 9,157 bilhões entre abril de 2019 e dezembro de 2020.”

Quando comparamos esses dados com a vida cotidiana da ilha, ficam evidentes os danos e o impacto das políticas de sanções adotadas pelos Estados Unidos em relação à Cuba nos últimos anos. No entanto, não há dúvidas de que o principal culpado pelos males que assolam o povo cubano não é o bloqueio — ainda que as sanções os tenham acentuado —, e sim a incapacidade do modelo político cubano, que impede o desenvolvimento das forças produtivas, pré-requisito indispensável para que os cubanos possam ter uma vida mais digna em uma democracia.

O surgimento da pandemia da COVID-19, no início de março de 2020, tornou a vida na ilha ainda mais difícil. Atualmente, Cuba enfrenta a crise sanitária mais aguda desde o início da pandemia, com média diária de 5.000 casos  [17]contra os 1.000, no mês de junho. Em cidades como Matanzas foi necessário reforçar a equipe médica  [18]trazendo profissionais de outras províncias, pois o sistema de saúde colapsou devido à superlotação dos hospitais, provocada pelo grande aumento do número de contaminados pela COVID-19 naquele território.

Hoje, eu me atrevo a afirmar que Cuba atravessa a pior crise da sua história, similar à crise humanitária que a Venezuela vem atravessando nos últimos anos, com filas intermináveis para comprar os produtos mais básicos, desde pão, produtos de higiene pessoal e leite em pó, que não se encontra nem mesmo nas lojas estatais que vendem alimentos e itens de primeira necessidade em moeda estrangeira. Ainda pior e mais devastador é a alarmante falta de medicamentos, o que coloca a população cubana em uma situação de enorme vulnerabilidade durante a pandemia.

Portanto, se o atual presidente Joe Biden não fizer nada para reverter as políticas de Trump adotadas contra Cuba o mais rápido possível, as consequências podem ser trágicas e desastrosas. Também exijo que o governo cubano seja transparente no que diz respeito ao tratamento midiático dos protestos e que elimine a retórica de enfrentamento, que provoca ainda mais violência entre os cubanos. A maioria de nós, cubanos da ilha, desesperados diante da pobreza e penúrias do dia a dia, depositamos nossa esperança de ver uma luz no final deste interminável túnel.