Artista das Primeiras Nações explora “futurismo indígena” em obras no estilo Woodland

No Canadá, artista Anishnaabe Onyota’aka mescla tecnológico e tradicional.

Eduardo Avila
Júlia Tocantins Correa

América do Norte

Arte de Tsista Kennedy, reproduzida sob permissão.

O estilo artístico Woodland pode ser caracterizado por suas figuras coloridas, contorno em linhas escuras e, segundo a descrição de um estúdio de arte da Colúmbia Britânica, como “arte nativa que mescla lendas e mitos tradicionais com mídias contemporâneas”. É o estilo que Tsista Kennedy, artista de 19 anos das Nações de Anishnaabe e Onyota'aka de London, cidade de Ontário, no Canadá, abraçou, criando obras únicas ao incorporar o tradicional e o moderno. As obras de Kennedy podem ser vistas em murais em postos de saúde locais, em galerias de arte e na identidade visual da Associação de Amigos dos Indígenas (Indigenous Friends Association, IFA), um empreendimento social focado em maneiras como a tecnologia pode amparar comunidades indígenas.

A origem desse gênero artístico é com frequência creditada a Norval Morrisseau, artista ojibwe das Primeiras Nações do norte de Ontário, que o desenvolveu na metade do século 20. Entretanto, muitos artistas dão ao estilo sua própria marca e interpretação. Kennedy fala sobre a importância da arte em sua vida, “Meu trabalho artístico é um reflexo da minha perspectiva como um jovem indígena e pai que navega contextos e modos de vida colonialistas e tradicionais.” Essa é a história que ele conta em seu vídeo em formato de áudio disponível no YouTube sobre “crescer como um menino indígena com cabelo comprido.”

Em uma entrevista por e-mail com a Rising Voices, Kennedy compartilhou sua abordagem artística.

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Rising Voices (RV): Qual a sua abordagem ao incorporar elementos de mídia digital e tecnologia no seu trabalho artístico? Qual mensagem você busca compartilhar ao combinar esses elementos?

Tsista Kennedy (TK): A abordagem para incorporar elementos de mídia digital e tecnologia em minhas obras não existia até eu ser contratado pela Associação de Amigos dos Indígenas. Antes de me unir como ilustrador à incrível equipe da IFA, meu trabalho artístico era bastante limitado à utilização de fontes de inspiração momentâneas e envolvia pouco ou quase nenhum conceito de “futurismo indígena”.
Conforme fui me desenvolvendo e entendi a missão e a visão da Associação de Amigos dos Indígenas, pude aplicá-las na minha própria perspectiva como artista e as minhas ilustrações adquiriram um sentimento mais natural e genuíno. “Inspire e apoie a imaginação de comunidades indígenas para criar e manter sua tecnologia digital de modo a aumentar sua autonomia”. Quando fui capaz de aplicar essa missão à minha própria vida e ao futuro que eu quero para meus filhos, netos, e daí em diante, senti como se um interruptor virasse na minha cabeça.
Eu não me limitava mais à criação de obras de arte por meio de um processo criativo binário. Não estava apenas retratando eventos passados ou momentâneos; eu recebi uma chave que abre uma porta na minha mente para a exploração de conceitos futuristas indígenas e para um mundo de outros conceitos imaginativos. Graças a esse novo portal que permite a entrada de ideias futuristas, o ato de incorporar mídias digitais e elementos tecnológicos foi algo que surgiu tão facilmente quanto por em prática meus conceitos passados de tradicionalismo e modernismo. A destreza para fazer isso foi apenas questão de me familiarizar com o conceito.   
Uau! Estamos nos estágios finais do desenvolvimento do nosso aplicativo e queremos compartilhar algumas ilustrações que estarão no app. Essa é nossa página de erro! Tomara que vocês não a vejam com frequência , mas espero que faça vocês rirem quando a virem. Arte de @tsista.kennedy

RV: Qual o seu conselho para quem quer explorar a mescla do imaginário e arte indígena tradicional com tecnologias digitais e internet?

TK: Quando tive dificuldades para mesclar o imaginário indígena tradicional com conceitos digitais e tecnológicos, minha supervisora na IFA me ajudou por meio de palavras poderosas. “Pode ser tão simples quanto imaginar que há pessoas indígenas no futuro”, foi o que ela me disse. Quando nossos ancestrais enfrentaram a ameaça de genocídio trazida pelos colonizadores, eles pensaram sobre indígenas no futuro: mantendo vivas nossas cerimônias, nossos conhecimentos tradicionais, línguas e objetos sagrados. Nós somos esses indígenas do futuro e graças aos nossos ancestrais, hoje podemos ter todas essas coisas conosco.
Meu conselho para quem tiver dificuldades em iniciar a exploração desse conceito de “futurismo indígena” ou, mais especificamente, em combinar o imaginário indígena com tecnologias digitais, seria se perguntar:               
“Quais ações que praticamos hoje poderão melhorar a vida de nossos bisnetos?”   
Por ter crescido na cidade como um nativo americano, eu não tive minha cultura ao meu redor o tempo todo, como um sustento espiritual. Quando eu era exposto à minha cultura, não havia a nuance entre vivenciar uma educação colonial e participar de uma cerimônia na cabana. Ou eu estava em uma escola pública, preocupado com meus estudos, ou em um contexto cerimonial, recebendo os ensinamentos e vivendo o momento. Sentia como se essas circunstâncias tivessem me condicionado a nunca pensar em combinar tecnologias digitais com a nossa cultura ou progresso/cura comunal, isso não teria acontecido sem a ajuda da IFA.
Atendendo a pedidos do público eu trouxe de volta as ilustrações do “Baby Yoda em Woodland”! Eu dei alguns retoques na versão antiga que fiz no ano passado e estou amando a aparência nova. Essa tiragem ilimitada estará disponível para compra entre 25 de dezembro e 1º. de janeiro.
Se você é um fã, ou conhece alguém que é, pense em presenteá-los, ou a você mesmo, com uma lembrança atrasada de Natal! Mais detalhes a seguir.

RV: Qual foi o impacto ou como foi a receptividade de algumas de suas obras que incorporam o imaginário tecnológico ou de algumas peças que ilustram elementos da cultura popular como a peça do Baby Yoda/Mandalorian?

TK: Minha arte sobre elementos da cultura popular na estética do estilo Woodland com frequência é apreciado por outras pessoas indígenas. Meu Baby Yoda ilustrado em um berço tradicional com o Mandalorian em estilo Woodland ganhou muita popularidade da noite para o dia. Minha obra “Bepsi” em estilo Woodland, que criei no começo do ano, provocou a mesma reação.
Uma observação que foi constante pelos dois anos da minha carreira artística é que nós, como indígenas, amamos ver influências indígenas no mundo que nos circunda; isso nos nutre com um sentimento de esperança e pertencimento. Somos lembrados que, como indígenas, ainda estamos aqui e sempre estaremos.
Meu talento para criar arte serve como um megafone visual para o mundo, e por ele posso pegar conceitos não indígenas populares e transformá-los em indígenas. Espero que ao fazer isso eu esteja inspirando a juventude indígena a fazer o mesmo ao descobrir, explorar e usar seus talentos de uma maneira criativa e que instigue a curiosidade.