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Temendo lei de segurança nacional, habitantes de Hong Kong mudam hábitos nas redes sociais

Categorias: Leste da Ásia, Hong Kong (China), Ativismo Digital, Direitos Humanos, Lei, Liberdade de Expressão, Mídia Cidadã, Mídia e Jornalismo, Política, Protesto
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Imagem do Stand News. Usada com permissão.

A história a seguir foi publicada originalmente [1] no The Stand News em chinês. A Global Voice faz a tradução e a publicação, em quatro partes, com autorização.

A lei de segurança nacional de Pequim transformou [2] Hong Kong em uma cidade do medo.

Desde sua promulgação em julho, pessoas foram presas pela mera presença perto de um local de protesto anterior. A polícia invadiu o escritório do jornal pró-democracia Apple Daily e prendeu seu fundador Jimmy Lai [3] sob alegações de cumplicidade com forças estrangeiras. Professores foram punidos por expressar comentários a fazer da democracia nas redes sociais.

Entre 29 de agosto e 1º de setembro, o The Stand News perguntou a seus leitores, por meio de uma série de pesquisas on-line, [1] como a lei de segurança nacional impactou suas vidas. Os resultados da pesquisa, da qual participaram 2.587 pessoas, estão publicados nesta reportagem, acompanhados de entrevistas com manifestantes, jornalistas, funcionários, professores, entre outros. Queríamos descobrir como estavam lidando com o medo sob a nova lei draconiana.

De acordo com as pesquisas, a proporção de entrevistados que relataram sentir medo “muito intenso” (nível 9) e “extremamente intenso” (nível 10) aumentou de 23,4 em 21 de maio, quando Pequim anunciou a lei de segurança nacional, para 38,4 em 30 de junho, quando os detalhes da lei foram divulgados. Atingiu um pico em 29 de julho, quando quatro estudantes ativistas foram presos por incitar a secessão.

Os entrevistados dizem que as causas de seu medo são: criminalização da fala (96%), repressão liberdade de imprensa (93%), repressão de protestos e prisões devido aos protestos (84%), extradição para a China para julgamento (77%), ser denunciado por “má conduta política” por um conhecido (76%) e vigilância policial (71%).

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Razões para temer a lei de segurança nacional de acordo com uma pesquisa on-line do The Stand News. Imagem do Stand News, usada com permissão.

Quanto às emoções provocadas pela lei de segurança nacional, os entrevistados indicaram: raiva (88%), preocupação (75%), desamparo (73%), ódio (70%), desespero (57%), ansiedade (51%) , tristeza (50%), medo (43%), felicidade (1%) e alívio (1%).

A pesquisa também perguntou se os leitores adotaram algum meio de comunicação mais seguro e 69% disseram “sim”. Entre as medidas de precaução estão: uso de VPNs (37%), revisão de contatos em redes sociais (28%), uso de ferramentas de mensagens criptografadas, como Signal (28%), exclusão de históricos de conversas (23%), ocultar ou eliminar postagens de redes sociais (20%), uso de funções secretas de bate-papo (12%), mudança de nomes de usuário nas redes sociais (12%), abrir novas contas em redes sociais (8%), uso de cartões SIM móveis anônimos (8%) e uso de um telefone diferente para comunicação segura (6%).

Telefones fantasmas

Durante as manifestações contra a extradição para a China, que duraram um ano, entre 2019 e 2020, “Rebecca” (nome fictício) forneceu cupons de comida e apoio emocional para mais de 50 jovens manifestantes a quem ela chama de “seus filhos”.

Quando os detalhes da lei de segurança nacional foram revelados pela primeira vez em 30 de junho, ela percebeu que poderia ter problemas por suas ações anteriores: fornecer suporte material ou monetário para aqueles que cometeram crimes listados na lei é passível de punição com 5 a 10 anos de prisão.

Rebecca ainda apareceu em Causeway Bay no dia seguinte em um protesto contra a lei de segurança nacional, mas em vez de vestir preto, usou um vestido.

Como milhares de outros manifestantes, Rebecca administra o medo adotando pequenas precauções. Para evitar possível assédio à família e aos amigos, ela restringiu a comunicação com eles. Mesmo antes de a lei de segurança nacional ser promulgada, ela apagava mensagens confidenciais do seu telefone todos os dias.

Em 30 de junho, ela adquiriu um “telefone fantasma” com um cartão SIM pré-pago. Ela registrou o ID da Apple do iPhone com um endereço de e-mail anônimo. Depois, distribuiu outros iPhones com uma configuração semelhante para uma dúzia de manifestantes que decidiram continuar com seu ativismo.

Também em 30 de junho, transferiu todas as suas comunicações confidenciais para o telefone fantasma e enviou mensagens aos manifestantes lembrando-os de excluir mensagens regularmente, desativar as funções de desbloqueio de identificação facial e digital, habilitar a autenticação de dois fatores em todos os aplicativos e habilitar a função de apagamento automático após 10 tentativas de erro de senha, entre outras medidas.

Além da segurança das comunicações, Rebecca também preparou um plano alternativo para o caso de ser presa. Ela confiou a uma amiga seu número de identificação e o número de telefone de um advogado para se preparar para a fiança. Também embalou todos os itens relacionados ao protesto em uma caixa e pediu à amiga que limpasse a casa caso uma prisão fosse confirmada.

No dia do protesto, ela e seu marido almoçaram em Causeway e guardaram o recibo do restaurante para o caso de serem presos e precisarem explicar por que estavam na área de protesto.

Depois de voltar para casa, soube que vários de seus “filhos” haviam sido presos na Times Square. Como é costume a polícia verificar os celulares dos manifestantes presos e as contas nas redes sociais, Rebecca abandonou vários grupos do Telegram dos quais participava junto com os presos. Ativistas de Hong Kong frequentemente eliminam grupos de redes sociais após prisões para evitar prejudicar suas redes.

Vários administradores do Telegram foram presos [4] por “incitação à adesão a assembleia ilegal” desde o início do protesto contra a extradição para a China, em 2019.

Eventualmente, seus “filhos” só foram resgatados após 30 horas, pois se recusaram a desbloquear seus telefones para a polícia.

Rebecca agora está vivendo uma vida dupla, tanto nas redes sociais quanto na vida real. Ela raramente comenta sobre política e protestos. Onde quer que haja uma câmera de vigilância, só realiza atividades apolíticas, como jogar jogos on-line. Mas, confidencialmente, ela continua cuidando de seus “filhos”.