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O longo caminho para a visibilidade uigur: uma entrevista com a escritora francesa Sylvie Lasserre

Categorias: Leste da Ásia, China, Direitos Humanos, Etnia e Raça, Mídia Cidadã, Viagem

O interior de uma das casas de chá mais antigas de Kashgar [1] em 2007. Foto de Sylvie Lasserre, usada sob permissão.

A situação dos uigures na China só ganhou atenção internacional recentemente, mas permaneceu amplamente ignorada por bastante tempo. A Global Voices conversou com Sylvie Lasserre, escritora francesa focada na Ásia Central, para saber o motivo. Lasserre fundou a La Maison d'Asie Centrale  [2][A Casa da Ásia Central], uma organização sem fins lucrativos que promove a cultura e os temas referentes à Ásia Central, sobre os quais ela escreve em seu blogue [3]. Hoje ela vive na Turquia, onde continua a estudar o assunto.

Esta entrevista foi editada para ficar mais breve.

Capa do livro de Sylvie Lasserre. Usada sob permissão.

Filip Noubel (FN): Você escreveu um dos primeiros livros em francês sobre os uigures. Como isso aconteceu?

Sylvie Lasserre (SL): In fact I wrote the first articles about Uyghur issues in 2007, when almost no one in France had heard about this nation. I published a portrait of one of the most famous Uyghur women and activists, Rebiya Kadeer [4], for the French magazine Le Monde2 in 2007, and then decided to go to her country in order to see what was really going on. After that trip I wrote several articles for French and international media, and then my first book, “Voyage au pays des Ouïghours – Turkestan chinois début du XXIe siècle” [“Journey to the land of the Uyghurs – Chinese Turkestan in early 21st Century”], was published in 2010 by the French publisher Cartouche. My goal was to give a voice to the Uyghurs, as it was clear they had none internationally. Two years later, the book was sold out. At the same time Cartouche went out of business, so this book could not be reprinted, and was lost for many years.

In November 2019, I was contacted by another editor who wanted to republish the book. Given the worsening of the situation of the Uyghurs, we agreed to enrich it with pictures and updates on new developments. The new book was published in May 2020 under the title: “Voyage au pays des Ouïghours – De la persécution invisible à l’enfer orwellien” [Journey to the Land of the Uyghurs – From invisible persecution to an Orwellian hell]. Today, it remains the only book in French covering Uyghur issues. I received a lot of requests for English and Turkish versions, I am now thinking about translating it.

Sylvie Lasserre (SL): Na verdade, eu escrevi meus primeiros artigos sobre os uigures em 2007, quando quase ninguém na França tinha ouvido falar sobre eles. Eu publiquei uma matéria sobre uma das mulheres e ativistas uigures mais famosas, Rebiya Kadeer [5], para a revista francesa Le Monde2, em 2007, e decidi visitar o seu país para ver o que realmente estava acontecendo. Depois dessa viagem eu escrevi diversos artigos para a imprensa francesa e internacional, e então publiquei o meu primeiro livro em 2010 pela editora francesa Cartouche: ‘Voyage au pays des Ouïghours — Turkestan chinois début du XXIe siècle’ [Viagem ao País dos Uigures: o Turquestão Oriental no Início do Século 21]. A minha intenção era dar voz aos uigures, pois estava claro que eles não tinham nenhuma internacionalmente. Dois anos depois, o livro esgotou. Ao mesmo tempo, a Cartouche faliu, então o livro não podia ser republicado e desapareceu por muitos anos.

Em novembro de 2019, eu fui contatada por outra editora que queria republicar o livro. Considerando que a situação dos uigures havia piorado, concordamos em enriquecê-lo com imagens e atualizações dos eventos recentes. O novo livro foi publicado em maio de 2020 com o título ‘Voyage au pays des Ouïghours – De la persécution invisible à l’enfer orwellien’ [Viagem ao País dos Uigures — Da Perseguição Invisível ao Inferno Orwelliano]. Hoje, continua sendo o único livro em francês que trata das questões uigures. Eu recebi vários pedidos para versões em inglês e em turco, agora penso em traduzi-lo.

A cidade de Kashgar à noite, 2007. Foto de Sylvie Lasserre, usada sob permissão.

FN: Você vive na Turquia, onde acontece uma grande diáspora uigur. Há solidariedade entre as nações ou os indivíduos turcos? Caso haja, ela vem do governo ou do próprio povo? As questões uigures são abordadas na grande mídia turca?

SL: During the events that took place in Urumqi in July 2009, I remember that the only country to use the word “genocide” was Turkey. Indeed, then Prime Minister Erdoğan said: “The incidents in China are, simply put, a genocide. There’s no point in interpreting this otherwise.” Exactly 11 years later, this word is beginning to surface here and there.

The Uyghur community in Turkey numbers over 10,000. Turkic nations share the same origins: cradled in the Altay mountains. Turks and Uyghurs do have many traditions and values in common, including music. They can understand each other quite well and, for an Uyghur, to learn Turkish is easy.

Uyghurs are very active in Turkey. I met some in Istanbul when I was writing the second part of my book and they were very supportive: the Uyghur person I contacted manage very quickly to find witnesses freed from the Chinese camps where many Uyghurs are kept, and even ensured the interviews were translated. Other Uyghurs I met in Istanbul showed similar eagerness: they were always willing to give their time and share their contacts. Their networks are not limited to Turkey, but extend to other countries in Europe and the rest of the world.

Turkish people seem very united with the Uyghurs. You will always see them waving a Turkish flag at a Uyghur demonstration.

SL: Durante os eventos que aconteceram em Urumqi em julho de 2009, eu me lembro que o único país a usar a palavra ‘genocídio’ foi a Turquia. Na verdade, o então primeiro-ministro Erdoğan disse: ‘Os incidentes na China são, simplesmente, um genocídio. Não há como interpretar de outra forma’. Exatos 11 anos depois, essa palavra começou a aparecer aqui e ali.

A comunidade uigur na Turquia tem em torno de 10 mil pessoas. As nações turcas compartilham as mesmas origens, nascidas nas montanhas Altai. Os turcos e os uigures têm muitas tradições e valores em comum, incluindo a música. Eles conseguem entender uns aos outros muito bem e é fácil para um uigure aprender a falar turco.

Os uigures são muito ativos na Turquia. Eu conheci alguns em Istambul quando eu estava escrevendo a segunda parte do meu livro e eles foram muito prestativos. A pessoa uigur que eu contatei conseguiu encontrar muito rapidamente testemunhas liberadas dos campos de concentração chineses onde muitos uigures são mantidos, e garantiu até mesmo que as entrevistas fossem traduzidas. Outros uigures que conheci em Istambul demonstraram um comportamento similar, sempre dispostos a oferecer seu tempo e compartilhar seus contatos. Suas relações não ficam limitadas à Turquia, mas estendem-se a outros países da Europa e do resto do mundo.

Os turcos parecem ser muito unidos aos uigures. Você sempre os verá agitarem a bandeira turca nos protestos dos uigures.

Sylvie Lasserre, foto usada sob permissão.

FN: E a França? Como essas questões dos uigures são vistas na França? Quem são seus principais defensores? E quais são os maiores obstáculos enfrentados?

SL: The Uyghur community in France is the smallest anywhere in Europe, at under 1,000 people. French people are becoming more aware of the situation, but it takes time. When my first book was published in 2010, no one except a few journalists had heard about them. A decade later, I would say that approximately 30 percent of the French population knows: I was invited to speak about this issue in February 2020 to an audience concerned with the situation in Tibet. When I asked the audience the question: “Who has heard about Uyghurs?” about a third raised their hands. So, it is improving. Still, the two main obstacles remain widespread ignorance about the situation, and Chinese government propaganda.

There are two Uyghur associations in France. The Association des Ouïghours de France [6] (Association of the Uyghurs of France) was created in 2008. As far as I remember, they have always been active, regularly organizing demonstrations to support Uyghurs in China. Its new president, Alim Omer, appointed in 2019, is very proactive and a wonderful communicator. He himself had to escape from China as a student in Urumqi, [7] in order not to be jailed after a peaceful demonstration. In late 2009, a new organization, Oghuz, renamed Institut Ouïghour d’Europe [8] in 2019, was created by a Uyghur, Dil Reyhan, who at that time was a student. It focuses on Uyghur culture and remains apolitical. It is unfortunate that, compared to what we see in Turkey, membership of French associations is small. This can be explained by the fact that most Uyghurs in France are students, and prefer a quiet life.

SL: A comunidade uigur na França é a menor da Europa, com menos de mil pessoas. Os franceses estão começando a se informar mais da situação, mas leva tempo. Quando o meu primeiro livro foi publicado em 2010, ninguém exceto alguns poucos jornalistas já tinha ouvido falar neles. Uma década depois, eu diria que aproximadamente 30% da população francesa os conhece. Eu fui convidada para falar sobre o tema em fevereiro de 2020 para uma plateia preocupada com a situação no Tibete. Quando eu perguntei para o público ‘quem já ouviu falar dos uigures?’, mais ou menos um terço levantou a mão. Então, está melhorando. Ainda assim, os dois maiores obstáculos continuam sendo a ignorância generalizada sobre a situação e a propaganda do governo chinês.

Há duas associações uigures na França. A Association des Ouïghours de France [6] (Associação dos Uigures na França) foi criada em 2008. Até onde eu me lembro, eles sempre foram ativos, organizando protestos regulares em apoio aos uigures na China. Seu novo presidente, Alim Omer, escolhido em 2019, é muito proativo e um comunicador excelente. Ele próprio precisou fugir da China quando era um estudante em Urumqi [9] para não ser preso depois de um protesto pacífico. No fim de 2009, uma nova organização, a Oghuz, rebatizada em 2019 como Institut Ouïghour d’Europe [8], foi criada por uma uigur, Dil Reyhan, quando ela era apenas uma estudante. Ela foca na cultura uigur e permanece apolítica. É uma pena que, comparado ao que vemos na Turquia, a filiação às associações na França seja baixa. Isso pode ser explicado pelo fato de que muitos uigures na França são estudantes e preferem uma vida tranquila.

FN: Quais são as melhores estratégias para manter a opinião pública global informada e alerta sobre a situação em Xinjiang?

SL: Information is vital. It is necessary to keep informing people about the Uyghur issue by never stopping to write about it, and using social media. Although information is difficult to obtain, it is possible to get it with intensive research.

Paradoxically, by worsening its treatment of the Uyghur population, China helped to spread information as it went too far: high-tech systems producing an Orwellian surveillance network, DNA harvesting, mass internment in camps, torture, sterilization of women, etc. Even Uyghurs in the diaspora who kept silent until recently to protect their family in China, have started to speak out.

Results do appear: the international media cover this issue more often, ever more people are aware of what is happening in China, a law was adopted on June 17 [10] in the United States against the Chinese leaders: the Uyghur Human Rights Policy Act. On July 7, Uyghur activists requested that the International Criminal Court [11] investigate reports of “genocide” by China against the Uyghurs. The word genocide is starting to emerge. All this is the result of a long process: in fact, in such domains, things are changing very slowly, you have to succeed in reaching the general population. It take years but it works.

SL: Informação é vital. É preciso manter as pessoas informadas sobre a questão uigur, sem parar de escrever sobre isso e utilizando as redes sociais. Apesar de ser difícil de obter a informação, é possível com uma pesquisa intensiva.

Paradoxalmente, ao piorar a forma de tratar a população uigur, a China ajudou a espalhar a informação por ter ido longe demais: sistemas altamente tecnológicos e orwellianos de monitoramento, coleta de DNA, aprisionamento em massa em campos de concentração, tortura, esterilização de mulheres, etc. Até mesmo os uigures que se mantiveram calados para proteger suas famílias na China começaram a falar a respeito.

Os resultados aparecem: a imprensa internacional está cobrindo o tema com mais frequência, cada vez mais pessoas ficam sabendo o que está acontecendo na China, uma lei foi adotada em 17 de junho [10] nos Estados Unidos contra os líderes chineses. No dia 7 de julho, ativistas uigures pediram que a Corte Penal Internacional [11] investigue as acusações de ‘genocídio’ por parte da China contra os uigures. A palavra genocídio está aparecendo mais. Tudo isso é resultado de um longo processo. Na verdade, nesses domínios, as coisas estão mudando muito lentamente, precisamos alcançar a população em geral. Demora anos, mas funciona.