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Poderia a Covid-19 ajudar a trazer paz ao Iêmen?

Em outubro de 2015, prédios em um bairro da cidade de Sana'a, no Iêmen, reduzidos a escombros meses após um ataque aéreo. Foto de Almigdad Mojalli. Em domínio público, disponibilizada por Voice of America.

Hooria Mashour

O Iêmen está envolvido em um conflito armado desde que os houthis, rebeldes apoiados pelo Irã, derrubaram o governo em setembro de 2014. Esta é considerada a pior crise humanitária do século. Aproximadamente 80% da população necessita de ajuda humanitária urgente e, no mês de maio, enquanto o povo iemenita celebrava o seu quinto Eid-Al-Fitr desde o início do conflito, o que já era difícil ficou ainda pior: além de sofrer com a agonia acumulada da guerra e com doenças que assolam o país há anos, agora surge um novo obstáculo: a Covid-19.

O primeiro caso de Covid-19 no Iêmen foi anunciado no dia 10 de abril, e hoje o vírus já se espalhou por todo o país; até o momento, 484 casos já foram registrados, com 112 óbitos. A subnotificação é uma realidade da região, e teme-se que os números reais sejam bem maiores. Além disso, o novo coronavírus circula no Iêmen ao lado de outras doenças  endêmicas como malária, cólera, dengue e chicungunha.

No dia 25 de março, o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, pediu às facções em guerra no país para cessar as hostilidades e focar na luta contra o vírus. A Arábia Saudita tomou a decisão unilateral de cessar-fogo em abril, mas o conflito na região continuou. Enquanto os líderes não chegam a uma resposta unificada para encerrar os conflitos e focar na nova ameaça, vários grupos ativistas estão promovem uma agenda de cessar-fogo, pedindo pelo fim do conflito que já dura quase 6 anos.

Estima-se que mais de 112 mil pessoas já foram mortas como resultado direto do conflito armado que acontece no Iêmen. Entre civis, as perdas foram relatadas em diferentes frentes — entre houthis e tropas do governo apoiadas pela coalizão liderada pela Arábia Saudita ao norte, e entre separatistas apoiados pelos Emirados Árabes Unidos e tropas do governo.

Esses fatores, além das contínuas ameaças feitas por grupos extremistas em algumas regiões do país, reduziram o Iêmen a um estado fragilizado com uma economia falida. Em frangalhos, o país não tem capacidade de resistir aos impactos potencialmente arrasadores da Covid-19, que inclusive já devastaram economias muito mais robustas.

Uma sociedade em negação

Apesar da fragilidade do sistema de saúde iemenita, o que existe atualmente no país é uma negação social e política generalizada sobre a gravidade da Covid-19. Embora toques de recolher tenham sido impostos de forma temporária pelas autoridades que de fato estão no poder em várias regiões, as pessoas não estão ficando em casa nem seguindo medidas de distanciamento social. Enquanto metade da população mundial vive sob níveis variados de lockdowns e quarentenas, a população do Iêmen continua a viver normalmente — incluindo a realização de cerimônias religiosas e eventos sociais relacionados às celebrações do mês sagrado do Ramadã e do Eid al-Fit —, a despeito dos avisos sobre os prováveis impactos desastrosos que a Covid-19 pode vir a ter sobre o Iêmen.

Neste interim, os políticos locais ainda não reconheceram o tamanho da adversidade a ser enfrentada e muito menos suspenderam as suas disputas internas, para que pudessem colaborar e lutar contra esse problema urgente de saúde pública.

O pedido do secretário-geral Guterres para um cessar-fogo foi ignorado e o governo do Iêmen, apoiado pela Arábia Saudita, continua a enfrentar tanto separatistas no sul quanto houthis no norte. O conflito armado no norte inclui ainda um elemento regional, à medida que os houthis continuam a lançar mísseis na direção da Arábia Saudita, que, por sua vez, responde com ataques aéreos à cidade de Sana'a, a maior do Iêmen.

Negociações de paz on-line podem mudar o cenário atual? 

Enquanto líderes políticos não se unificam na luta contra a Covid-19, ativistas iemenitas se movimentam para transformar essa crise de saúde pública em uma oportunidade para impor o cessar-fogo.

A organização Women Solidarity Network, da qual faço parte, emitiu, no dia 15 de abril, uma nota conjunta com outras oito organizações que lutam pelos direitos das mulheres, solicitando o cessar-fogo imediato e exigindo que todas as autoridades políticas, sem distinção ideológica, colaborassem com organizações da sociedade civil em preparação à Covid-19, criando áreas de quarentena, testes e treinamentos. Pessoas que tiveram de fugir de suas casas e cidades (deslocados internos) e aquelas que vivem sobre vulnerabilidade socioeconômica são as que correm maior risco.

O novo coronavírus forçou milhões de pessoas no mundo todo a exercer suas atividades on-line. Talvez essa mudança represente uma oportunidade de trazer paz ao Iêmen, com a remoção de muitos dos obstáculos logísticos que normalmente são enfrentados, como viagens, vistos e hospedagens. As negociações de paz on-line já foram realizadas anteriormente. A Women Solidarity Network, que inclui mais de 250 mulheres em posições de liderança espalhadas pelo mundo, tem realizado encontros on-line com apoio da Peace Track Initiative.

Esse tipo de iniciativa permitiria aos líderes dedicar mais tempo às discussões de paz e facilitar a inclusão de interessados do mundo todo, localizados em diversos fusos horários. Por exemplo, o secretário-geral da ONU enviado ao Iêmen, Martin Grifftiths, tem tido conversas on-line com vários líderes políticos iemenitas.

A realização de negociações de paz on-line permitiria também a participação das principais partes interessadas, que  geralmente são excluídas das negociações de paz tradicionais – como mulheres e grupos da sociedade civil.

Milhões de iemenitas estão sofrendo com a guerra. Antes que milhares sejam afetados pela Covid-19, é preciso que a classe política compreenda que é impossível lutar contra esse vírus sem que haja colaboração.

Hooria Mashous é ativista política e defensora dos direitos humanos, especializada em gênero e justiça de transição. Foi ministra dos direitos humanos no governo de consenso nacional entre 2012 e 2014. Antes disso, compôs o Comitê Nacional das Mulheres. Atualmente é integrante da organização Women Solidarity Network e  ganhadora uma bolsa de pesquisa do Peace Track Initiative Feminist.

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