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As origens entrelaçadas do “kawaii” e a cultura gay no Japão

Rune Taito

Uma Garota Rune na capa de uma edição de 1959 da Junior Soleil (ジュニア それいゆ), revista desenhada por Rune Naito. Captura de tela do YouTube.

Representado por ícones culturais, desde a Hello Kitty da Sanrio até My Little Pony: A Amizade É Mágica da Hasbro, o conceito japonês de kawaii, ou fofura, tornou-se parte da cultura mundial.

Como destaca um artigo de 2017 da revista britânica Time Out:

[The word ‘kawaii’] joined the league of sushi, samurai and kimono: the word kawaii is now part of the global consciousness, with enthusiasts from Seattle to Stockholm embracing Japan's take on cuteness.

[A palavra kawaii] se uniu à lista do sushi, do samurai e do kimono: a palavra kawaii agora faz parte da consciência global, com entusiastas de Seattle a Estocolmo adotando a visão japonesa do conceito de fofura.

Usar cosplay ou se fantasiar de um personagem se tornou parte da cultura juvenil dominante ao redor do mundo, e está frequentemente associada à cultura kawaii. A nova série do Star Wars, The Mandalorian, inclui um bebê Yoda kawaii que se tornou amplamente popular pela sua fofura.

Apesar do Japão ser reconhecido como o lugar onde nasceu a “fofura” contemporânea, uma pessoa descobriu as origens do kawaii e sua ligação com a cultura gay em uma série de tuítes recente.

kawaii taipei

Quiosques de check in kawaii da EVA Air em um aeroporto, em Taipei. Foto de Nevin Thompson.

O usuário do Twitter Patrick, que está fazendo um doutorado em Estudos Japoneses com foco em pesquisa na área da literatura contemporânea gay japonesa e comunidades, aponta o falecido designer e ilustrador japonês Rune Naito como o pioneiro da “fofura” no Japão dos anos 60. Patrick relata o começo da carreira de Naito no final da década de 40, quando lançou uma revista para jovens garotas.

Rune nasceu em 1932 e trabalhou inicialmente com Nakahara Jun'ichi, outro dos grandes nomes da história do shojo. Juntos ajudaram a fundar a Himawari (Girassol, 1947-1952), uma das primeiras revistas para garotas do pós-guerra.

Rune se tornou um grande nome do design e da edição da sucessora de Himawari, Junior Soleil (1954-1960). Foi na Junior Soleil que a carreira de Rune deslanchou e “Garotas Rune” virou uma febre, lançando sua carreira como ilustrador e designer em várias revistas.

Como resultado do sucesso na ilustração, Rune começou a desenhar seus próprios personagens mascotes, que também viraram uma febre. Personagens como a Hello Kitty agora são conhecidos em todo lugar, mas o personagem Panda do Rune, desenhado um ano antes do Zoológico de Ueno ganhar um panda, abriu o caminho.

O canal do YouTube mostra vários exemplos de como as criações dos personagens de Rune Naito foram licenciadas para uso comercial:

rune taito

Exemplos de personagens desenhados por Rune Taito que foram licenciados para uso comercial. Captura de tela do YouTube.

Patrick diz ainda que, em grande parte, o legado kawaii de Naito ofuscou suas contribuições para a cultura gay no Japão.

Mas uma grande parte da obra de Rune que raramente é abordada é o trabalho que ele fez para a revista Barazoku (1971-2008). Barazoku foi a primeira revista de alcance das massas que atendeu aos homens que se sentiam atraídos pelo mesmo sexo no Japão, e o parceiro de longa data de Rune, Fujita Ryu, fez o design da primeira capa.

Após meados dos anos 80, Rune brincou que poderia usar seu nome para as ilustrações de revistas gay já que sua fase de auge havia passado. Ele morou com Fujita o resto de sua vida, produzindo bonecos, figuras, desenhos e ilustrações gay até o seu falecimento, em 2007.

Quando morreu, muitos obituários japoneses o nomearam como o “padrinho do kawaii“, mas poucos notaram suas contribuições para a cultura visual no Japão ou sua própria história como gay. Até onde sei, nenhuma fonte em língua inglesa sobre ele faz menção ao fato.

Patrick conclui o thread no Twitter dizendo:

That's why I think it's important that Rune get credit for the totality of his works; not only was he a pioneer of the kawaii aesthetic but with his long term partner, he helped to create an entire visual language and artistic lineage for gay men in Japan.

É por isso que eu acho importante que o Rune receba crédito pela obra completa: não só foi um pioneiro da estética kawaii, como também ajudou a criar toda uma linguagem visual e uma linhagem artística para homens gays no Japão.

Além de abrir caminho para a cultura gay ser produzida no Japão para o público gay, Rune Naito também preparou o terreno para a cultura gay passar a fazer parte da cultura dominante. Yaoi é um gênero de mangá cujo foco são as relações homoeróticas, geralmente feito por mulheres para um público feminino.

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A capa do primeiro volume do mangá O Marido do meu Irmão, de Gengoroh Tagame, publicado pela Futabasha. Foto: Wikimídia.

Mais recentemente, o popular mangá O Marido do meu irmão, sobre um homem gay do Canadá que viaja para o Japão após a morte do marido japonês, foi transformado em um programa de TV live-action de sucesso do canal NHK, a emissora pública do Japão.

Uma mostra da obra de Rune Naito esteve em exposição em Okazaki, na região central do Japão, entre o final de 2019 e o começo de 2020. O site oficial de Rune Naito tem mais exemplos do seu trabalho. Para mais informações sobre a história do kawaii, Sebastian Masuda da marca de roupa 6%DOKIDOKI fala sobre Rune Naito numa exposição de 2012 intitulada “As Origens do Kawaii” em Tóquio:

NOTA: O usuário do Twitter Patrick deu permissão para que os seus tuítes fossem incluídos nesta matéria.

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