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Após pintor ser barrado em órgão público, angolanos debatem⁠—de novo⁠—as rígidas regras de vestimenta do país

Tho Simões, momentos em que foi impedido de levantar o seu documento. Foto do Facebook de Tho Simões, usada com permissão.

No dia 9 de Setembro, o pintor, fotógrafo, designer gráfico e cenógrafo angolano Tho Simões foi impedido de tirar seu bilhete de identidade no centro da capital angolana Luanda pelo facto deste estar vestindo calção. Após comentar o incidente no Facebook, levantou-se uma discussão nas redes sociais angolanas sobre as estritas regras de vestimenta impostas em reparticões públicas e estabelecimentos comerciais do país.

Chegando ao local, Tho Simões encontrou na porta regras proibitivas que colocavam restrições ao uso do calção que o artista usava, além de blusa sem mangas, camisola, chinelos e fato olímpico. Ele conta:

Fui levantar o meu B.I. mas fui barrado, por causa da minha forma de vestir, eu opto preferencialmente por andar de calções e t-shirts ou seja estar o mais confortável possível, afinal vivo em Angola um país tropical húmido e quente todo o ano, (excepto durante 3 meses). Em respeito às regras da instituição tive que sair de lá sem bilhete. Mas o episódio fez-me reflectir no assunto…

Esses especialistas, experts, entendidos na matéria, fazedores de regras etc e tal, são mesmo gente com capacidade de dar um rumo decente a esta humildade nação!? Assim eu que estou com o slogan ”melhorar o que está bom, corrigir o que está mal” na minha cabeça aplico como essa citação? Podem opinar partilhar quem sabe a minha publicação chega até ao chefe que mandou colar aquele papel na porta com as proibições. Amanhã vou ir de saia levantar o meu bilhete.

Sabe-se que tais regras são comuns em Angola — várias são as vezes em que um cidadão vai resolver um assunto na administração pública, postos policiais, ou mesmo bancos e outras instituições privadas, e deparara-se com a proibição de certas indumentárias. Em muitos casos, as regras não são escritas.

Discussão sobre esse costume levantou-se em Setembro de 2018, quando o Primeiro Ministro de Portugal António Costa encontrou-se em Luanda com seu homólogo vestindo calça jeans e camisa social sem gravata. Também num passado recente, o autor deste texto foi retirado de um restaurante sob alegações de estar vestido de forma inapropriada para o local.

Angola é um país tropical, com clima húmido e quente durante todo o ano com exceção dos meses de Junho e Julho, quando as temperaturas caem no litoral.

No dia seguinte, Tho Simões voltou ao local vestindo uma saia e assim conseguiu ser atendido. Ele afirmou no Facebook:

Consegui 🤩😎👍🏾
Na minha terra amada o que um homem de calções não consegue, um homem de saia consegue!
❤️💛🖤

Sua postagem gerou muitas reacções, entre elas a de Jordan Jordan:

Gostei da atitude…
Insistem em marginalizar a imagem dos outros e julgar pela aparência mas esquecem que quem rouba e limpa os cofres do estado e os que roubam dinheiro dos impostos andam de terno e gravata para cima e para baixo.

Regras que impedem o acesso em alguns instituições angolanas. Foto de Tho Simões, usada com permissão

O activista e rapper Luaty Beirão reagiu na sua página do Facebook:

Há uns dias atrás twittei sobre um périplo de carteiro sobre duas rodas que fiz em Lisboa, quando fui entregar cartas à presidência da república, ao primeiro ministro, ministro da educação, finanças e negócios estrangeiros.

Publiquei a foto da forma como me apresentei em cada um desses locais: de calções e com a GoPro, como costumo andar em Luanda. (primeira foto)

Em nenhum momento houve sequer um comentário acerca da indumentária ou reticências acerca da câmara bem visível ao meu peito.

No palácio de Belém (residência oficial do Ti Celito), os agentes até me convidaram a guardar a bicicleta DENTRO do palácio enquanto eu era atendido ao invés de prendê-la no sinal de trânsito que ficava à porta.

Ontem recebi uma imagem do mano Tho Simões a ter de recorrer a um método de ridicularização aos mbuku de mente que continuam a querer proibir ao cidadão acesso aos SEUS serviços pela forma como se estes se apresentam vestidos.

Só me pergunto se eles terão recebido a mensagem, no alto da sua pedante estupidez e se terão, num assomo de vergonha, que não costuma ser de seu apanágio, arrancado o anúncio da porta.

Se levares barra, #vestesaia

Grande Thó!

Da mesma forma reagiu o internauta Joaquim Luanda:

Entretanto, no País em que nasceu o meu pai, as vezes há certas burocracias que a pessoa pergunta: mas essa gente pensa como?

Então, eu como cidadão vou a uma instituição do Estado para levantar o meu Bilhete de Identidade, num país em que o clima é tropical (com a temperatura, acima da média dos 30°C), é preciso estar a rigor?

Mas então que mal tem uma pessoa vestir um calção, ou uma blusa sem manga, uma camisola ou umas chinelas havaiana ou mesmo um fato olímpico?

Porque que nós temos o hábito triste de tornar as coisas fácies em difíceis?

Será que há um pecado, uma falta de respeito, uma contradição ou mesmo será que vai ferir susceptibilidades se uma pessoa apresentar-se como consta na informação aí nesta instituição?

Poxa!! Quem é o autor desta orientação? O COELHO, assim pensa que uma pessoa apresentar-se de tal forma, vai prejudicar a instituição ou vai de certa forma afectar em alguma coisa?

Alguém pode por favor explicar-me, porque que certas pessoas venham agir de tal forma?

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