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#KuToo: petição japonesa contra salto alto no ambiente de trabalho ganha apoio internacional

Categorias: Leste da Ásia, Japão, Direitos Humanos, Economia e Negócios, Mídia Cidadã, Mulheres e Gênero, Protesto
kutoo ishikawa [1]

“Sapato (kutsu) + dor (kutsū) + MeToo = #KuToo. Vamos acabar com a expectativa de que saltos altos fazem parte do traje corporativo.” Imagem amplamente compartilhada [1] nas redes sociais. Autoria desconhecida.

Uma reclamação feita por uma escritora japonesa através do Twitter transformou-se em uma bola de neve e acabou gerando uma hashtag mundialmente conhecida, uma petição on-line e, mais recentemente, um debate parlamentar no Japão. Tudo isso, enquanto lançava luz sobre a discriminação de gênero que as mulheres enfrentam no ambiente de trabalho.

Certo dia, no final do ano de 2018, enquanto trabalhava em um emprego de meio período como atendente em uma funerária, Ishikawa Yumi, ex-modelo e atriz, que agora é escritora freelancer observou [2] que seu colega usava confortáveis sapatos baixos. Conforme ela explica  [3]em sua petição on-line, que acabaria lançando, usar aquele tipo de sapato facilitaria muito o seu trabalho.

Entretanto, conforme qualquer empresa no Japão, seu chefe tinha base legal para exigir que ela usasse apenas sapatos de salto alto ou do tipo scarpin [4]. Mulheres que usam saltos altos com frequência queixam-se de dor significante e desconforto. Outras até mesmo necessitam de cirurgia [5] para corrigir problemas causados pelo uso de calçados inapropriados.

Em janeiro de 2019, Ishikawa tuitou [6] sobre como era injusto o fato de um dos requisitos para participar do processo seletivo para uma vaga de emprego em um hotel ser estar de sapatos de salto alto. Seu tuíte sobre a desigualdade do dress code para homens e mulheres no ambiente de trabalho foi rapidamente compartilhado milhares de vezes, dando início a uma conversa on-line.

Encorajada pelas respostas, Ishikawa criou a hashtag #Kutoo [7] com a qual mulheres que trabalham no Japão e no mundo todo, compartilharam suas histórias sobre serem forçadas a usar sapatos de salto alto para trabalhar.

#kutoo [8] I can’t wear high heels.

No—hear me out. I can’t. When I was 11, I sprained my right ankle so badly I needed rehab for a month. I started compensating with my left leg, and I ended up having +15 sprains on my left ankle (I literally lost count of how many times).

— Sachiko Ishikawa🏳️‍🌈 #ProChoice (@Ishikawa_Sachi) June 8, 2019 [9]

 

#kutoo Eu não posso usar salto alto. Não! Escute-me. Eu não posso. Quando eu tinha 11 anos, torci meu tornozelo direito tão violentamente que precisei fazer reabilitação durante um mês. Comecei a compensar isso com a minha perna esquerda e acabei com mais de 15 torções no meu tornozelo esquerdo (eu literalmente perdi a conta de quantas vezes).

Apesar de a Lei pela Igualdade de Oportunidades de Trabalho [10] japonesa proibir a discriminação com base no gênero, as regulamentações não [11] impedem que os empregadores estipulem as diferenças nos trajes de trabalho de homens e mulheres.

Em uma pesquisa recente feita com mulheres no Japão, mais de 60 por cento das participantes responderam que se sentiam forçadas a usar sapatos de saltos altos ou scarpins no trabalho ou para procurar emprego.

Com relação ao significado da hashtag e de onde ela surgiu, Ishikawa diz: [12]

「#KuToo」とは、「靴(くつ)」・「苦痛(くつう)」・「#MeToo(みーとぅ)」を合わせて、センスの良い同じ思いを持った方が作ってくださったものです。

Alguém (no Twitter) que se sente da mesma forma que eu, e que tem uma excelente habilidade com as palavras criou a hashtag ‘#kuToo’, que é a combinação das palavras ‘sapato’ (kutsu), ‘dor’ (kutsuu) e ‘MeToo’.

Depois do sucesso da hashtag #KuToo no final de janeiro, em fevereiro Ishikawa decidiu lançar uma petição no site Change.org, solicitando ao ministro do Trabalho do Japão que proibisse que os empregadores forçassem as funcionárias a usar sapatos de salto alto no trabalho.

Até o fim de fevereiro, a petição obteve pelo menos dez mil assinaturas.

Ultrapassamos 10.000! Você só precisa incluir seu endereço de e-mail e seu nome.

O problema:

  1. É errado existir diferentes dress codes no ambiente de trabalho por conta de gêneros.
  2.  Por que o ‘traje corporativo’ deveria ser prejudicial para a saúde de alguém?

Legenda: apoie esta campanha! #KuToo: proibam as leis que exigem salto alto no ambiente de trabalho!

Outro tema de discussão do #KuToo, e da petição de Ishikawa, é se o fato de exigir que as mulheres usem salto alto no trabalho constitui “abuso de poder [17]” ou bullying no trabalho.

No início de junho [18], a autora e seus apoiadores apresentaram a petição ao ministro do Trabalho japonês, solicitando que as leis do país sejam alteradas para proibir o uso forçado de calçados de salto alto para as funcionárias por parte dos empregadores.

A petição feita por Ishikawa foi recebida por Otsuji Kanako [19], um ativista dos direitos LGBTQI+ e membro do Partido Democrático Constitucional de Oposição na Câmara dos Deputados.

Em 5 de junho, em uma reunião do poder legislativo do Japão, Otsuji discutiu com o ministro do Trabalho, Nemoto Takumi, em um debate que repercutiu nas manchetes internacionais [20] (a discussão no comitê [21] foi traduzida para o inglês).

Embora o ministro do Trabalho tenha concordado que os saltos altos não são necessários para todo tipo de trabalho, ele se negou a proibir que os empregadores forcem as funcionárias a usar certos tipos de calçados, dizendo [21]:

それぞれの業務の特性があるので、社会通念に照らして、業務上必要、かつ相当な範囲でということなんだろうと思う。パワハラにあたるかどうかは、その範囲を超えているかどうかがポイントだ。

Cada trabalho possui requisitos únicos, portanto acredito que (permitir que os empregadores exijam saltos altos) devem ser mantidos dentro do escopo (das leis do trabalho), se (os saltos altos) forem necessários e apropriados para realizar as tarefas.

Se (exigir que funcionárias usem sapatos altos) constitui bullying no local de trabalho (‘abuso de poder’) depende se (usar saltos altos) exceder o escopo (de um trabalho em especial).

Após a reunião do comitê em 5 de junho, em uma entrevista ao Huffington Post Japão [11], Ishikawa disse que recebeu alguns insultos on-line ou ‘ataques’ desde que lançou a petição por conta de seu passado como modelo pin-up [22]. Entretanto, nessa mesma entrevista [11], ela atesta que muitas outras pessoas apoiaram os objetivos do #KuToo:

どうしてもバッシングの方に目がいってしまって、怖かったんですけど、これだけ集まってくれる人もいる。同じ思いの人がたくさんいてくれるということがわかるので、こういう集会を開いてくださってありがたいです。みんなで協力しあってやっていけたら嬉しいです

Embora tenha sofrido insultos on-line, e é assustador, (a petição) também ganhou muitos apoiadores. Eu sei que há muitas pessoas que entendem o problema, e é ótimo que exista agora um fórum para discutir a questão. Eu ficaria muito feliz se todos nós pudéssemos trabalhar juntos.