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Enquanto um comediante vence as eleições na Ucrânia com folga, russos observam com espanto e inveja

Olga Skabeyeva e Yevgeny Popov, casal 20 da Tv estatal russa, apresentou por 6 horas um comentário ao vivo sobre os debates presidenciais na Ucrânia | Foto por Rossiya 24, reproduzida pela Runet Echo.

A disputa presidencial na Ucrânia terminou com uma derrota esmagadora do presidente atual, Petro Poroshenko, que perdeu por uma margem de 50 pontos para o comediante de 41 anos, sem experiência na política, Volodymyr Zelenskiy.

Zelenskiy parece ter incorporado a insatisfação geral com o governo de Poroshenko, principalmente por conta da guerra contra a insurgência apoiada pela Rússia nas regiões do leste, que tirou 13 mil vidas dos dois lados nos últimos cinco anos.

Enquanto ainda é cedo para dizer como um político novato irá se sair como chefe de Estado, as eleições que lhe deram a vitória foram acompanhadas atentamente por milhões de espectadores pela fronteira contestada com a Rússia.

Os russos ficaram colados às suas telas para assistir um show raro: eleições imprevisíveis, onde alguém da situação teve debates com alguém de fora, perdeu as eleições e reconheceu pacificamente.

Quando os dois candidatos à presidência debateram em um estádio ocupado pela metade, na capital Kiev, no dia 19 de abril, as duas emissoras de TV do governo e diversos meios de comunicação independentes da Rússia levaram ao ar ao mesmo tempo transmissões ao vivo e de vídeos online.

Meduza, um site de notícias independente, apontou que os debates televisivos das eleições da Rússia de 2018 mal tiveram tempo de televisão – com o principal candidato, Vladimir Putin, nem mesmo participando – em comparação com a grande cobertura do debate no estádio na Ucrânia:

Sim, a TV russa está mais interessada nas eleições ucranianas, do que nas do próprio país.

The Bell, outro site de notícias independente, registrou 6 milhões de visualizações do debate nos maiores canais do YouTube da Rússia.

Além de assistir aos debates online ou na TV, ou lendo a cobertura ao vivo por blogs, os russos também estiveram em peso no Twitter para comentar e expressar uma vasta gama de emoções. Claro, a emissora estatal russa – que é extremamente hostil à Ucrânia – debochou e zombou dos debates, colocando as eleições como um verdadeiro circo, e um sinal do colapso iminente da Ucrânia.

Não estou certo de que a maioria dos russos aprenderá esta lição. O “debate” foi transmitido porque os executivos o viram como uma espécie de circo e uma fábula com uma lição de moral. Estou certo de que a evidência anedótica vale para ambos os lados, mas ainda não jogaria confetes no “êxito informativo” da Ucrânia.

O fato de o debate no estádio ter sido transmitido para a Rússia é uma ótima notícia para a Ucrânia. Isso os lembrou de como é a democracia e que o nome do próximo presidente não mudará o fato de que a Rússia é um agressor só porque os reconhecem. 

Os apresentadores da TV estatal russa passaram uma hora tentando convencer os telespectadores que o debate de hoje, em Kiev, foi sem sentido e uma farsa, naturalmente, sem mencionar que a última vez que Putin participou de um debate como candidato. Que foi, hã, quando mesmo?

Muitos russos, no entanto, assistiram ao debate com uma certa inveja:

Cerca de meio milhão de pessoas assistiram aos debates da Ucrânia, somente no canal Nabalny Live, pelo YouTube. Muitas pessoas assistiram no Dozhd, RBC e várias outras plataformas com audiências mais simpáticas à Ucrânia. Não pensem que foi apenas pelo circo.

Eu fiquei otimista com o debate ucraniano. Algum dia, nós russos faremos coisas parecidas (com melhores resultados, espero). Zelensky ganhou essa; mas e a Ucrânia, ganhou? Bem, eu não acredito, mas cantei o hino com eles. A esperança é a última que morre.

Parece que, na verdade, se pode usar as eleições para mudar de presidente! Incrível! Sabiam disso?

Muitos ressaltaram a ironia de o espetáculo político ter recebido tanta atenção em um país onde debates políticos e eleições não acontecem há anos:

Eu espero que a TV russa continue com a sua tradição de copiar excelentes programas ucranianos e realize debates semelhantes nas eleições presidenciais (não irá).

As mídias estatais russas estão todas falando sobre os debates presidenciais da Ucrânia. Estão mostrando tudo ao vivo na Rossiya 24 com comentaristas de prontidão.

Uma cena reveladora: estou em um clube de debates fechado em Moscou, organizado por uma elite econômica. Um convidado assistindo aos debates da Ucrânia no celular. O orador discutindo os prognósticos e a política econômica russa, lamentando a improbabilidade de liberalização e crescimento. Termina com um brinde “à possibilidade de se ter debates como esse, aqui, um dia”.

Não entendo como alguém pode realmente apoiar alguém nas eleições de um outro país, diferentemente de um clube de hockey, e neste sistema é difícil não torcer por Zelensky, é claro. Mas é um teatro político do tipo que não temos há 25 anos, então, me dou o direito de ficar maravilhado com estes debates e tudo mais.

Oleg Kashin, um jornalista renomado, postou um meme de Putin, dizendo para o famoso comediante russo Mikhail Galustyan “Nem pense nisso!” – uma referência ao fato de que uma personalidade popular da televisão desafiou o presidente e venceu as eleições.

Outros se encheram de esperanças e admiração pelo êxito democrático da Ucrânia:

Ah, que visão animadora. E não se preocupem, em breve nós teremos o mesmo na Rússia, vocês vão ver.

Brilhante discurso de Poroshenko, no qual ele reconheceu a derrota e parabenizou Zelensky. A revolução deles foi apelidada de Revolução da Dignidade, e eles estão se portando dignamente!

E ainda que aqueles leais ao Estado tenham sido todos depreciativos – Maria Zakharova, porta-voz do ministério de relações exteriores da Rússia, chamou os debates de “circos”, enquanto Vladimir Putin se absteve de telefonar para Zelensky para parabenizá-lo, como outros líderes mundiais fizeram – ficou claro que muitos russos estão mais interessados na política dos seus vizinhos, do que na sua própria.

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