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“Estamos aqui. Existimos.”: o site Nofi desafia a representação de pessoas negras na mídia francesa

Nofi, um canal de mídia negro transmitido em língua francesa, é inspirado na cultura negra e representação na mídia. Foto: modelo afroamericana, imagem via CC0 Creative Commons.

Nofi, um canal de mídia fundado em 2014, se autointitulou “o primeiro para a cultura negra” na França. O criador, Christian Dzellat, tem orgulho de usar o “discurso direto” para alcançar uma comunidade prejudicada por um alto déficit de representação na grande mídia francesa.

A página do Facebook do canal já possui mais de 1,8 milhões de seguidores e o site alcança uma média de 500 mil visitantes por mês. Sua conta do Instagram tem 83 mil membros e a comunidade segue crescendo. O conteúdo editorial do Nofi cobre notícias, estilo de vida e tópicos relacionados à história da cultura negra. Às vezes controverso, como na ocasião do lançamento da revista impressa Negus, o canal trabalha na conscientização sobre a representação do negro na sociedade francesa, que tende a não abordar assuntos que passem por raça e cultura negra.

Em uma entrevista com a atriz americana Jada Pinkett-Smith, Dzellat descreve a ideia por trás do Nofi:

Essa é a primeira mídia negra em francês… Nosso objetivo é realmente promover a excelência negra e conscientizar as pessoas.

Global Voices conversou com Dzellat para saber mais sobre o Nofi:

Global Voices: Por que decidiram criar um site além da página no Facebook?

Christian Dzellat (CD) : A ideia é ir mais longe. ‘Nofi‘ é a junção da primeira sílaba das palavras ‘noir et fier‘ (negro e orgulhoso). Tirei de uma camiseta estampada com esse nome que criei em 2004. Naquela época, a única rede social era a rua. A ideia da camiseta era conectar pessoas, desenvolver a solidariedade entre pessoas da comunidade negra. Existem negros da África, do Caribe, malauianos, senegaleses, congoleses… Para mim, aos 22 anos, era necessário tentar unificar tudo isso sob um único slogan. Isso foi o trampolim para que criássemos a página do Facebook ‘negro e orgulhoso’. O impacto foi imediato, pois chegamos lá rapidamente, isso foi em 2008 – 2009. Falávamos sobre qualquer tema que tocasse a comunidade negra em seus assuntos atuais e em termos de entretenimento também. Depois, quisemos ir mais longe, porque o Facebook é… você sabe, o Facebook. Nós queríamos criar um canal de verdade. Trabalhamos no nosso conteúdo em vez de apenas compartilharmos. E disso nasceu o Nofi, em 21 de fevereiro de 2014, aniversário do assassinato de Malcolm X. Queríamos um símbolo forte. Então estamos aqui, há quatro anos, com editores e jornalistas. Estamos desenvolvendo uma agência em paralelo, trabalhando com marcas como Netflix e Orange. (Nota do editor: Orange é uma das maiores empresas de telecomunicações e mídia da França).

GV: A quem é dirigido o Nofi?

CD: Estamos falando principalmente com negros, mas também com amantes da cultura afro, negra, como um todo. Em última análise, atuamos como o Le Monde e o Figaro (jornais da grande mídia francesa), nos dirigimos a todos. A ideia é que todos possam achar algo de que gostem aqui.

GV: Uma aposta como o Nofi pode ajudar a mudar os contornos da representação na grande mídia?

CD: Percebi que quando você começa a ter visibilidade, ter um público, as pessoas — e isso inclui a mídia, nossos próprios parceiros — começa a olhar para você com mais atenção. Para citar um exemplo, a equipe editorial do site AJ+ está sempre de olho no Nofi. Já escreveram para a gente pedindo ajuda em um conteúdo que deve atingir o nosso público. E quando vejo o que estão produzindo hoje, posso perceber que nós estamos os inspirando. Eles têm uma linguagem mais direta que há um ou dois anos. Eles dizem ‘negro’, direto ao ponto. Mas há questões com as quais somente especialistas podem lidar. Frequentemente, alguns assuntos são abordados na França como notícias comuns, mas não são bem explorados. Eu não vou falar sobre a história da cidade de Paris se não pesquisei ou se não for um historiador.

GV: Essa abordagem pode contribuir para que haja mais jornalistas e editores negros em geral?

CD: Com certeza. É importantíssimo. Fico muito feliz de podermos contribuir com a ascensão profissional de estudantes de jornalismo. Por exemplo, nossa editora executiva começou com um estágio no Nofi. Três anos depois, ela se tornou editora executiva e, talvez, no futuro, ela vá continuar a trilhar seu caminho em outro lugar. Quanto mais, melhor. É preciso ser vanguarda para que as coisas se tornem comuns depois.

GV: Você acompanha outros blogueiros que possam ser de interesse no sentido de trazer mais conteúdo para o Nofi?

CD: Tentamos, mas não tão diretamente. Como hoje temos mais visibilidade, quando precisamos, colocamos uma chamada na rede. Geralmente, isso corre no boca a boca ou via ofertas não solicitadas. Mas manter um acompanhamento constante é raro: só funciona mesmo para coisas que já estão mais estabelecidas.

GV: Qual é o seu modelo de negócio?

CD: Como muitos gerentes de conteúdo, temos um modelo de negócio bastante complexo de receita de publicidade. Mas não é o suficiente. Por isso criamos nossa agência: hoje damos consultoria e produzimos conteúdo, assim como fizemos para a Orange recentemente. Precisamos sempre buscar além. Também fazemos um pouco de merchandising, como no início com a camiseta ‘negro e orgulhoso’. E algumas publicações. Lançamos um livro recentemente. Diversificamos, mas mantemos a mesma dinâmica e o mesmo ambiente para que haja consistência.

GV: O que você diria para quem considera um “canal negro” como sendo excludente?

CD: Veja a revista Elle, por exemplo. Você abre e só há mulheres brancas. Não fico incomodado. Mas foi por isso que chamamos o canal de ‘Nofi’, pois queríamos nos afastar da mensagem ‘negro e orgulhoso’, o que dava a entender que somente negros poderiam ler e mais ninguém. Com o ‘Nofi’ estamos num território mais simples, mais efetivo e também mais gentil, mais aberto. Se as pessoas acham que as estamos excluindo, então é porque elas é que querem se excluir. Tipo, eu sonho em ir para o Japão, eu amo a cultura japonesa e não me sinto excluído. O Japão não é apenas para os japoneses.

GV: Ouvi dizer que vocês estariam abrindo um escritório na África. Qual é o objetivo para o Nofi?

CD: Queríamos estar mais ligados, mais perto de onde as coisas estão acontecendo. Na França, a comunidade negra tem uma realidade com suas questões e estilos de vida. Na África, há outras realidades. Hoje, podemos falar sobre algumas coisas, mas se não estamos vivendo aquilo no dia a dia, não é franco. É importante dar voz para pessoas que possam escrever e que querem dizer e mostrar coisas. Ainda que seja apenas a beleza desse continente incrível.

GV: Onde esse escritório abriria? E quando?

CD: O ideal é que seja na Costa do Marfim ou talvez no Senegal. Estruturalmente, a Costa do Marfim estaria melhor equipada para um lançamento. Existiria uma ligação maior com nosso escritório em Paris. A inauguração deve ser em setembro desse ano.

[Nofi fala do Afropunk, em Joanesburgo, África do Sul, 2017]

GV: Que temas são melhores para o Nofi?

CD: O que realmente funciona super bem é qualquer assunto relacionado à história e cultura. As pessoas sempre querem mais. Existe uma verdadeira sede de conhecimento. Temos uma abordagem para o paradigma da cultura africana. Um exemplo é de quando houve o furor sobre Antoine Griezmann e sua ‘fantasia’ de negro, o que chamamos de ‘blackface‘. Não saímos atirando por aí, mas fazemos questão de explicar o que é a ‘blackface‘. É uma missão educativa necessária da vida real que permite às pessoas lidar melhor com a história. Um outro exemplo, um pouco mais positivo: trabalhamos com o Netflix na nova temporada de Luke Cage. Fomos além de celebrar a existência de um super-herói negro e exploramos todos os códigos presentes na série que remetiam à Blaxploitation e o fardo que a comunidade negra carrega com a segregação. O retorno que tivemos do Netflix foi que nosso trabalho esclareceu diversas questões sobre sua própria programação.

GV: O fato de você produzir muitos artigos históricos permite a recriação da ideia de que existe um background cultural comum na comunidade?

CD: Claro. Quando se fala em segregação nos Estados Unidos, todos os negros são afetados. Em maior ou menor escala. É a mesma coisa quando falamos de grandes figuras da África: você pode estar falando de um país, mas todos se sentem afetados. Ou quando falamos de um ex-escravo que descobriu o cultivo de baunilha na Ilha da Reunião. Todos sentimos, pois estamos falando sobre os negros.

GV: Você vê alguma mudança em termos de representação na cultura predominante na França, seja na mídia ou em filmes, programas de TV?

CD: Podemos ter a impressão de que está mudando, mas na verdade, assim que há uma inserção da cultura negra na cultura predominante, logo ela começa a ser apagada: é substituída por palavras. Geralmente, somos mais presentes, mas não necessariamente mais representados. É não é a mesma coisa. Não somos representados se as pessoas apresentadas não têm o direito de se expressarem em nosso nome. É o mesmo com empresas: é impressionante o número de negócios abertos por pessoas negras nos últimos dez anos! É ótimo e em setores que vão muito além dos clichés de música e esporte. Mas existe uma espécie de teto de vidro que apaga tudo isso quando se atinge um certo nível, e então tudo permanece branco.

[Nofi no Afropunk, em Joanesburgo, África do Sul, 2017]

GV: Qual é o lugar da mulher no Nofi?

CD: A mulher negra ocupa um lugar central na cultura africana. No Congo, alguns grupos étnicos são culturalmente matriarcais. Isso é importante para nós e promovemos muitas heroínas negras no site. Sejam elas do passado ou contemporâneas. Mulheres que agem, que escrevem livros, que começam negócios. Sempre precisamos descobrir mais sobre elas.

GV: Como você vê o futuro daqui a dez anos?

CD: Quero que sejamos inevitáveis. Para que possamos dar uma resposta para essa questão de representatividade. Porque estamos aqui, existimos, somos reais e existe uma necessidade. Temos que ultrapassar a época do ano em que só falarão de negros pela ocasião do lançamento de Pantera Negra 2. Queremos responder ao dia a dia com um site, redes sociais, revistas e — por quê não? — uma emissora de TV. Uma mídia forte e poderosa que será o reflexo de nossa comunidade.

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