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Governo romeno considera seguir manobra de Trump e realocar sua embaixada em Israel para Jerusalém

Memorial para as vítimas de Gaza mantido na frente da embaixada palestina. Foto da Romania Palestine Solidarity na página do Facebook, usada sob permissão.

O governo romeno considera seguir a manobra controversa do  presidente americano Donald Trump, que realocou a embaixada dos Estados Unidos de Tel Aviv para Jerusalém, o que afetaria a posição oficial de neutralidade da Romênia no conflito entre Israel e Palestina. A mudança, no caso da Romênia, é mais um episódio no conflito entre o governo comandado pelo Partido-Social Democrata (PSD) e o presidente Iohannis.

iniciativa de mudar a embaixada romena em Israel para Jerusalém dividiu o país em dois diferentes grupos: aqueles que querem seguir a posição da União Europeia (UE) de manter o consenso internacional sobre Jerusalém (cidade cuja parte oriental é considerada uma ocupação israelense de um território palestino) e aqueles que querem seguir a política dos EUA.

Trump abriu um precedente quando mudou a embaixada para Jerusalém em 14 de maio desse ano, reconhecendo a disputada cidade como a capital de Israel. Isso resultou em diversas reações negativas em todo o Oriente Médio e fora dele.

O dia marcou o 70º aniversário de Israel, bem como os 70 anos desde a expulsão de mais de 700 mil palestinos de sua terra, conhecida como a Nakba, catástrofe em árabe. Houve brutal repressão do Estado de Israel contra um protesto popular em Gaza que relembrava a Nakba. A ação matou mais de 60 palestinos.

A primeira-ministra romena Viorica Dăncilă e seu colega israelense, Benjamin Netanyahu. Foto do governo romeno, uso legítimo.

A Romênia foi um dos quatro países-membros da UE a aceitar o convite para participar da cerimônia inaugural comandada por Ivanka Trump e Jared Kushner, ao contrário dos outros 24 países-membros que recusaram.

O país, junto com a Hungria e a República Tcheca, havia previamente impedido a UE de publicar uma declaração que tinha o objetivo de demonstrar uma frente unida contra a manobra dos EUA. Um representante austríaco também foi enviado para a inauguração da embaixada americana. O Ministro das Relações Exteriores romeno afirmou que a declaração proposta pela UE, cujo conteúdo solicitava que a questão sobre o status de Jerusalém fosse resolvida através de negociações pacíficas, era “insensata”.

Autoridades romenas proíbem protesto contra a proposta

Enquanto isso, o grupo Romanian-Palestinian Solidarity (Solidariedade Romena-Palestina) disse a Global Voices que eles não receberam autorização para organizar protestos na capital. A autorização é dada pelo escritório do prefeito de Bucareste, um cargo que é ocupado por Gabriela Firea, membro do PSD e ex-jornalista.

No entanto, a solidariedade romena foi demonstrada em frente à embaixada palestina, onde um memorial para as vítimas de Gaza foi organizado.

Com relação à mudança da embaixada, a posição do Ministro das Relações Exteriores romeno reflete a postura do governo e rejeita a da UE. O governo é comandado pelo PSD e age como oposição ao presidente de centro-direita, Klaus Iohannis.

Iohannis deixou claro que ele é contra a mudança porque isso mudaria a posição da Romênia de um mediador neutro para um participante ativo no conflito. Esse desentendimento enfatiza as divisões que existem na política interna do país, assim como a falha de comunicação e a desconfiança entre o governo e a presidência.

A controversa visita a Israel

Em abril, o líder social-democrata, Liviu Dragnea, divulgou um memorando secreto decidindo mudar a embaixada romena para Jerusalém sem consultar o presidente. O anúncio foi seguido de uma visita a Israel por Dragnea e pela primeira-ministra, Viorica Dăncilă.

Vídeo: A primeira-ministra romena, Viorica Dăncilă, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu e o Ministro das Relações Exteriores da Romênia, Teodor Meleșcanu, chegando em Israel.

Iohannis declarou que o memorando foi contra a Constituição e também violou a legislação romena, que dá ao presidente o poder de tomar decisões sobre assuntos externos e normas internacionais. Ele também declarou que Dragnea e Dăncilă não tinham autorização para visitar Israel com o propósito de tratar dessas questões e solicitou a renúncia da primeira-ministra.

Uma declaração da administração presidencial analisou que ele é o responsável pela maioria das decisões referentes à política internacional.

A presença de autoridades romenas sem autorização na inauguração da embaixada dos EUA teve imediata repercussão no país. O líder do Partido Nacional Liberal, Ludovic Orban, apresentou uma denúncia criminal contra Dăncilă, acusando-a de alta traição. Dragnea alegou que a acusação pode ser rotulada como antissemitismo institucional.

Palestina retira embaixador da Romênia

O embaixador palestino, Fuad Kolaly, foi convocado a retornar ao seu país, perturbando o relacionamento calmo e diplomático entre Bucareste e Ramala. O embaixador declarou que a Romênia tem desempenhado um papel historicamente equilibrado nas negociações de paz entre Israel e Palestina. Sua intenção de realocar a embaixada vai contra leis internacionais e, da mesma forma, contra as resoluções do Conselho de Segurança da ONU.

Uma declaração publicada pelo Ministério das Relações Exteriores, na qual o governo reforça o apoio à solução de dois Estados, questionou onde essas capitais seriam. Isso se refere ao fato de defensores dessa solução terem esperança na criação de um futuro Estado da Palestina, tendo Jerusalém Oriental como capital.

Em uma conversa com a imprensa romena, o embaixador disse que a Palestina não quer romper com o país devido aos cerca de 3.500 palestinos que vivem na Romênia. Ele também acrescentou que se sente encorajado pelo fato da decisão final estar nas mãos do presidente.

Desentendimento sobre embaixada influencia política interna

As razões por trás da decisão de realocar a embaixada, e o que os social-democratas ganhariam com isso, não são claras. Muitos críticos foram rápidos em dizer que Dragnea está buscando estreitar relações com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, que está sendo acusado de corrupção em seu país.

A própria Romênia é conhecida por casos de corrupção e tem lutado para se recuperar do trauma pós-comunista desde o regime comandado por Nicolae Ceaușescu, deposto em 1989. Desde sua adesão à UE em 2007, muitos defendem que o país está no caminho certo rumo ao combate à corrupção, apesar de também ter sido prejudicado dentro de seu sistema político.

Dragnea foi condenado por fraude eleitoral, abuso de cargo público e falsificação. A Direção Nacional Anticorrupção (DNA) iniciou uma investigação a respeito de uma suposta fraude cometida por ele com fundos da UE. O Projeto RISE, uma organização romena de jornalismo investigativo, revelou que Dragnea era alvo de uma investigação no Brasil por lavagem de dinheiro, uma acusação que o líder social-democrata alega ser falsa.

Dragnea levou o PSD à vitória nas eleições parlamentares de 2016 e, desde então, indica primeiros-ministros para agirem em seu benefício como marionetes, tendo em vista que suas condenações não permitem que ele próprio exerça o cargo. Três mudanças de primeiro-ministro foram feitas desde 2017 e o cargo está atualmente nas mãos de Viorica Dăncilă, a primeira mulher na história do país a ocupar a função.

Dăncilă, que subiu de posto sob a proteção de Drangea, tem sido criticada por não ser qualificada para o cargo, apesar de sua experiência como membro do Parlamento Europeu. Ela também foi acusada pelo presidente de receber ordens de seu partido.

Em janeiro de 2017, os maiores protestos desde a revolução anticomunista de 1989 surgiram na Romênia. Mais de 500 mil pessoas protestaram contra projetos de lei aprovados pelo Ministério da Justiça, que propunham emendas ao Código Penal e ao de Processo Penal, com intuito de perdoar certos crimes, em particular aqueles relacionados ao abuso de poder. Opositores do projeto acusaram seus criadores de tentarem descriminalizar a corrupção do governo e alegam que isso foi uma tentativa de pessoas, como Dragnea, de escaparem de acusações criminais.

Os protestos foram criticados tanto pelo PSD quanto pelas redes de televisão, servindo como a principal plataforma de propaganda do partido. Apresentadores de jornais afirmaram que os protestantes tinham sido pagos pelo filantropo judeu húngaro-americano George Soros, e que os protestos eram uma conspiração do “Estado paralelo”. (Nota do editor: a Global Voices é uma beneficiária da Open Society Foundations, parte da rede de Soros)

Isso se parece com a retórica anti-Soros encontrada em países vizinhos, especialmente na Hungria, sob o comando de Viktor Orbán. O nacional-conservador governo húngaro do partido populista de direita Fidesz segue um padrão similar, se alimentando da ascensão da extrema direita e de sua retórica que mistura antissemitismo, no que diz respeito a Soros, e islamofobia contra os refugiados.

Esse tipo de retórica geralmente é volátil e inconsistente, depende da avaliação sobre qual discurso de ódio geraria maior apoio junto ao eleitorado em determinada situação. Dessa forma, muitos populistas europeus enquanto expressam antissemitismo em casa, ao mesmo tempo exaltam Israel, tomando-o como exemplo de um Estado que sabe lidar com os muçulmanos, e apoiam seu papel no Oriente Médio. A xenofobia persecutória contra os refugiados (apresentados como uma ameaça muçulmana) tem sido o elemento chave da ascensão populista em todo o continente, da Polônia à Macedônia e à Eslovênia.

A visita de Dragnea a Israel levantou suspeitas de que seu partido tenta distanciar a Romênia da UE, o que provocou alertas sobre corrupção e descumprimento de regulamentos do bloco. O apoio de Netanyahu aparentemente aproximaria Dragnea da direita americana, consolidada pela administração do presidente Trump, fornecendo poderosos aliados. Esse movimento é similar aos governos eurocéticos, como o Fidesz, da Hungria, e a aliança austríaca ÖVP-FPÖ, que também tem tentado obter apoio dos conservadores americanos.

Embora as controvérsias sobre a possível mudança da embaixada romena de Tel Aviv seja ainda outro episódio no conflito entre o PSD-ALDE, líder do governo, e o presidente Iohannis, elas agora afetam o papel de neutralidade declarada pela Romênia no conflito entre Israel e Palestina.

Em um debate, ocorrido em Bucareste no último 17 de maio, sobre a mudança da embaixada, Gideon Levy,  do jornal israelense Haaretz, alertou a Romênia a não assumir um papel tão importante quanto reconhecer Jerusalém como a capital de Israel. A platéia e o moderador regurgitaram a retórica governamental pró-israelita ao mencionar de forma constante o Hamas e o “terrorismo” palestino contra Israel, desconsiderando completamente as brutalidades da ocupação israelense no território palestino e as políticas discriminatórias que têm sido associadas ao apartheid.

Misturar xenofobia e tomar partido no conflito israelo-palestino explora o medo dos refugiados muçulmanos entre muitos romenos, possibilitando ao governo tomar um passo tão grande e controverso.

Editado por Izabella Sepulveda

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