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Encontro da caligrafia iraniana, quadrinhos e cultura pop ocidental na arte de Jason Noushin

Jason Noushin trabalhando em seu estúdio em Connecticut. Foto disponibilizada por Jason Noushin e usada com permissão.

Na exibição intitulada “All Her Number'd Stars” (Todas as suas estrelas numeradas) na galeria Susan Eley em New York City, o artista iraniano-britânico Jason Noushin explorou a interação dinâmica entre as duas culturas que alicerçam sua identidade.

Noushin deixou o Irã aos 13 anos, mas a cultura persa ainda permeia sua vida e obra. Em seus trabalhos a sua identidade persa é evidenciada com imagens vivas e dramáticas como resultado de sua imersão na cultura do ocidente. As peças mais comoventes exibem uma mescla dessas diferentes culturas.

“Ao retornar à linguagem da infância, Noushin incorpora a caligrafia persa em muitas de suas pinturas e esculturas”, divulgou a galeria de artes plásticas Susan Eley em seu comunicado à imprensa. “Transliterações na língua persa de poesias escritas por grandes escritores britânicos como Keats, Hawthorne e Shelley são delineadas em suas telas e refletem uma reconciliação com as culturas que o moldaram.”

Além de pinturas e esculturas, a exposição incluiu vários desenhos de Noushin, demonstrando sua habilidade e a compreensão de diferentes formas de expressão. “Eu desenho desde que pude segurar um lápis”, diz Noushin. “O desenho sempre foi a forma mais simples de arte a que eu tive acesso e ainda hoje é a base de toda a minha criação.”

III Soneto, uma pintura de Jason Noushin com formas caligráficas persas. Parte da coleção “All Her number ‘d Stars” na Galeria Susan Eley. Imagem cedida por Jason Noushin.

O avô de Noushin era quem lhe dava cadernos e lápis para desenhar. A tia dele, Massoumeh Noushin Seyhoun, era pintora e uma das influências mais importantes na vida do artista. De acordo com Noushin, logo no início da carreira sua tia promovia os colegas com entusiasmo no embrionário mercado iraniano de arte. Em 1966, ela abriu a galeria Seyhoun em Teerã. Desde o começo, o espaço abrigou alguns dos mais importantes artistas iranianos do século XX. Massoumeh Noushin Seyhoun faleceu em 2010, mas a galeria se mantém aberta e é a mais antiga no Irã.

Noushin teve contato com desenhos durante toda a infância. “A pintura veio muitos anos depois. Em Paris, quando eu tinha 24 anos, meu grande amigo Philippe me deu um cavalete, uma tela, tintas e pincéis e disse: aproveite. Foi assim que aprendi a pintar: por tentativa e erro e experimentação à mão livre.”

Em uma entrevista, perguntei a Noushin sobre sua exposição, o significado da colagem e da caligrafia em suas pinturas, o uso de várias expressões de arte e suas fontes de inspiração. Noushin tem uma rica bagagem artística e suas pinturas refletem um diálogo esclarecedor entre cultura, identidade e tradições mesclado com elementos familiares como histórias em quadrinhos. Isso se reflete em suas pinturas de maneira sutil, harmoniosa e envolvente.

Omid Memarian: Como “All Her Number'd Stars” foi idealizada? 

Jason Noushin: “All Her Number'd Stars” foi o resultado direto de uma outra mostra, “Beyond the Ban (Além da exclusão): Arte Contemporânea Iraniana”, na galeria de arte Eley Susan no verão de 2017. A mostra foi realizada em prol do Centro para os Direitos Humanos no Irã (Center of Human Rights in Iran). Eu doei várias telas que foram bem recebidas. O resto, como dizem, é história.

OM: Em sua recente exposição na galeria Susan Eley em Manhattan, havia esculturas, desenhos e pinturas. O que o uso de diferentes modalidades significa para você?

JN: Eu sou uma pessoa inquieta e posso perder o foco, “até mesmo o interesse”, se trabalhar com a mesma coisa por um longo período. Quando era mais novo, convertia essa inquietação em extrema rapidez para terminar uma pintura em um único dia. Como só faço trabalhos em óleo, uso a técnica úmido sobre úmido, o que gera especiais desafios. Para corrigir isso, comecei pintando sobre papelão, assim a tinta seca mais rapidamente. Com a maturidade, diminui o ritmo e deixei que as pinturas descansassem antes de recomeçar a trabalhar nelas. Como resultado disso, é possível trabalhar em várias obras por um certo tempo e criar uma maior coesão entre temas.

Trabalhar em duas e três dimensões e tentar resolver o mesmo problema de várias maneiras aprofundaram minha compreensão da prática da arte. Eu não tenho educação formal em arte e não me sinto preso a regras. Encaro isso como uma oportunidade ilimitada de aprendizado e experimentação. Fazer arte é como um quebra-cabeça que muda com o tempo e o lugar.

OM: A colagem tem uma presença dominante em muitas de suas obras com elementos que parecem estar conectados ao tema subjacente de identidade. O que você pensa ao escolher elementos como caligrafia persa, história em quadrinhos e fontes?  

JN: Eu fui um colecionador/vendedor de livros antigos por mais de uma década. Nesse negócio, uma pequena parcela das compras não tem valor de venda devido ao estado de conservação. Eu comecei a reciclar páginas desses livros velhos e usá-las como suporte para meus desenhos à tinta e anos mais tarde repeti o procedimento criando as colagens a partir de revistas em quadrinhos. Como você comentou, talvez haja aqui uma relação com identidade. A arte não é feita em um vácuo; vem de algum lugar. Acho que minhas memórias favoritas (talvez um pouco exageradas) são da minha infância, em Teerã, antes da revolução. Em Teerã, eu gostava de ler histórias em quadrinhos e jogar futebol de rua como todo garoto. Então, sim, essas colagens de quadrinhos são lembranças de um tempo e lugar que não existem mais.

De Jason Noushin “Todo dela” da coleção “All Her Number'd Stars” na Galeria Eley Susan. Imagem cedida por Jason Noushin.

OM: Você viveu a maioria de sua vida adulta no Reino Unido e nos EUA, mas, particularmente em seus quadros, elementos persas como a caligrafia tem uma forte presença. Como você define essa conexão?

JN: Surpreendentemente, eu vivi nos Estados Unidos mais do que em qualquer outro país. Cheguei aqui há 20 anos com a intenção de retornar à França depois de um ano, mas isso não aconteceu. Sendo iraniano e mesmo que não tenha voltado ao país desde que saí, aos 13 anos, a riqueza de sua cultura e língua está presente em minha vida diária. Não importa onde eu more, o importante é quem sou.

OM: As mulheres são o tema de muitos de seus trabalhos. De onde elas são?

JN: Eu acho mulheres mais interessantes que homens. A maioria das pessoas que conheço são mulheres.

Isso pode ser o resultado de ter sido criado por duas mulheres extraordinariamente fortes: minha avó e minha tia. Meu avô era um homem tranquilo e reservado. Portanto, não é nenhuma surpresa que minha obra reflita isso. A personagem principal é quase sempre a mesma pessoa, mas com diferentes roupagens, tais como a caligrafia ou folhas de revistas em quadrinhos, influências importantes na minha adolescência.

De Jason Noushin “Hit Me” (Bata em mim) da coleção “All Her number'd Stars” na Galeria Eley Susan. Imagem cedida por Jason Noushin.

OM: Muitos dos seus trabalhos exploram o passado. O sentimento de nostalgia em muitos dos seus trabalhos é produto de uma decisão consciente?

JN: Eu sempre tive fascínio pela história humana. Quando estava na escola, os antigos egípcios me cativaram depois de uma visita ao Museu Britânico, e durante os anos seguintes tentei aprender a ler hieróglifos. Eu gosto do cheiro de história e prefiro o velho ao novinho em folha. É essa a fonte de meu interesse por livros antigos. Nostalgia não é tangível, mas, se você deseja conservar um pouco dela, e torná-la sua, a arte é o melhor veículo. A arte tem o poder de levar você a outra época e lugar. Minha imaginação é mais ativa quando eu penso sobre o passado e não sobre o futuro.

OM: Qual o ponto de partida para sua pintura e quais escolhas você tem que fazer antes de a pintura chegar à tela?

JN: Uma pintura sempre começa pela escolha pelo tecido da tela (linho), depois temos que esticá-lo e dimensioná-lo com cola de pele de coelho, fazer o tingimento, as dobras ou dar forma à tela. Passo tanto tempo criando um suporte quanto pintando, desenhando ou preparando a base. Eu acho essas telas esticadas tão lindas que às vezes temo danificá-las ao acrescentar uma imagem.

OM: Seu acervo de imagens inclui referências à cultura pop e elementos tradicionais como a caligrafia. Você acha que seu trabalho pertence a uma escola específica? 

JN: Eu sinceramente não sei. Ainda estou na fase de exploração. Obviamente, a cultura pop e caligrafia persa tradicional não combinam entre si, mas o impacto visual do conjunto é harmonioso, elegante, decorativo, profundamente encantador e cativante.

OM: Apesar do caráter inquieto de algumas de suas obras, elas exibem uma harmonia em cor textura e escala. Quais são suas referências visuais?

JN: Para mim, a prática da arte está sempre em evolução. Eu tento não me deixar limitar por regras ou ficar acomodado e ocioso repetindo o mesmo trabalho. A mistura do pop ocidental com a caligrafia oriental é divertida e um novo desafio. No entanto, uma mudança está fadada a acontecer mais cedo ou mais tarde.

As referências visuais podem vir de qualquer lugar. As ideias podem às vezes permanecer latentes por longos períodos, até mesmo anos, antes que eu as execute adequadamente. Eu passo muito tempo lendo sobre arte, percorrendo galerias e museus, absorvendo o processo e os métodos de outros. A natureza também é uma fonte extraordinária de inspiração.

jnoushin Estas 3 obras estavam indo para a Brown University @watsoninstitute e o John Nicholas Brown Center for Public Humanities. A exibição aconteceu de 27 de outubro de 2017 a 27 de janeiro de 2018. A abertura foi em 8 de novembro. CROSSING BORDERS, com a curadoria de Judith Tolnick Champa e @jocelyn_foye #art

OM: Qual é o significado da caligrafia/alfabeto persa repetido como um padrão em muitas de suas obras?

JN: A caligrafia persa é uma bela forma de arte. Embora o mesmo alfabeto seja usado no mundo árabe, os iranianos aperfeiçoaram e dominaram essa forma de arte. A caligrafia é extremamente versátil e estou experimentando suas infinitas possibilidades como uma extensão dos desenhos das linhas.

OM: Você tem tido contato com os artistas e a cena artística do Irã nos últimos anos? 

JN: Conheci alguns artistas iranianos muito talentosos aqui em Nova York. Alguns estão indo e vindo. Eu não faço isso, mas sinto falta, especialmente da comida de rua. Eu adoraria expor em Teerã. Seria a desculpa perfeita para uma visita.

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