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Dois artistas iranianos importantes, duas reações muito diferentes aos protestos

Mahmoud Dowlatabadi e Asghar Farhadi juntos durante uma celebração do Sindicato dos Diretores na Casa do Teatro, em 2011. Foto de Asrarnameh com a intenção de republicar.

Os iranianos gostam de se vangloriar de que vêm de um país de poesia e arte. Não é surpresa então, que movimentos sociopolíticos da história iraniana surjam frequentemente no meio artístico.

Os recentes protestos de 28 de dezembro que se espalharam por todo o país não são exceção. Os participantes nas manifestações pediram melhores oportunidades econômicas, revoltados com a divulgação do orçamento nacional para 2018. Um total de 25 pessoas morreram e cerca de 4.000 foram presas nos atos, de acordo com o judiciário iraniano. Centenas já foram libertadas, incluindo 500 no Teerã.

A onda de manifestações em geral espontâneas recebeu certo apoio artístico (talvez não tão grande se comparado aos movimentos mais coordenados do passado). Alguns artistas iranianos famosos no exterior gravaram um cover do clássico rock persa, “Shayad,” para mostrarem sua solidariedade. Diversos atores, escritores e músicos, no Irã e no exterior, também declararam solidariedade, assinando petições ou postando mensagens de apoio no Twitter.

Mas aqui eu quero escrever sobre as reações de duas figuras importantes da literatura e do cinema iraniano: Mahmood Dowlatabadi e Asghar Farhadi. Um criticou a queima da bandeira, apesar de ter sua poesia compartilhada on-line como comentário sobre o que estava em jogo nos protestos. O outro apoiou aqueles que lutam por um Irã melhor.

‘Oh pátria! Que crianças, que geração te verá livre e orgulhosa?’

Mahmood Dowlatabadi é indiscutivelmente o maior romancista vivo e ativo da língua persa. Dowlatbadi é muitas vezes ridicularizado por seus colegas por suas atitudes conservadoras e por ter deixado a Associação dos Escritores Iranianos (AIW em inglês), que é mais firme em sua oposição às práticas antidemocráticas da República Islâmica do Irã.

Isso por vezes é injusto, já que Dowlatabadi é vítima da censura e, ocasionalmente, levanta sua voz em protesto. No mês passado, na cerimônia final de um prêmio literário em homenagem ao escritor Ahmad Mahmood, Dowlatabadi lembrou ao público que alguns dos romances de Mahmood não podem ser publicados, mas as autoridades não coíbem a circulação de suas versões piratas.

Leia mais sobre Mahmood Dowlatabadi em Global Voices: escritor iraniano censurado Dowlatabadi preso ao lado do chefe de censura do Irã (em inglês)

“Vocês são hostis com alguns escritores. Essa hostilidade é completamente individual e parte de vocês”, disse Dowlatabadi. “Tornaram-se autoridades culturais e proíbem as obras de Ahmad Mahmood. Vão e vejam em que condições o escritor de ‘Meu tio Napoleão’ vive. Vocês já se perguntaram quem publica seus livros?”, referindo-se a Iraj Pezeshkzad, que mora em Paris e seria milionário caso recebesse os direitos autorais por dezenas de milhares de cópias piratas de seu romance, que continuam proibidas no Irã.

Dowlatabadi causou controvérsia quando, durante uma conferência sobre suas obras no Teerã, restringiu suas observações sobre os protestos criticando a bandeira ter sido queimada por marginais durante os protestos. Para alguns, soou como se ele estivesse do lado das autoridades.

A reação de Mahmoud Dowlatabadi quando a bandeira iraniana foi queimada:

Ouvi que algumas pessoas depreciaram nossa bandeira. Eu realmente senti isso como um insulto. Condeno esse ato. Incompreensível.

O escritor não esclareceu se pretendia que suas palavras representassem sua posição em geral sobre os protestos ou falassem apenas contra o ato de queimar a bandeira nacional. Mas o romancista talvez não soubesse que muitos iranianos, nas mídias sociais e em suas conversas privadas, estavam usando um de seus poemas para expressar suas esperanças e temores nesses protestos:

ای سرزمین! کدام فرزندها، در کدام نسل تو را آزاد آباد و سربلند، با چشمان باور خود خواهند دید؟ ای مادر ای ایران! جان زخمی تو در کدام روز هفته التیام خواهد پذیرفت؟ چشمان ما به راه عافیت تو سفید شد. ای ما نثار عافیت تو.

Oh pátria!
Que crianças, que geração te verá livre e orgulhosa,
Com seus olhos de crença?

Oh, minha mãe, oh, Irã!
Em que dia da semana sua vida ferida encontrará uma cura?

O poema é de anos atrás, mas muitos acharam a expressão adequada para a contínua luta dos iranianos por liberdade e dignidade. O poema foi amplamente compartilhado pelos iranianos nas redes sociais e também pelo ator iraniano Saber Abar no Instagram, que inseriu o poema de Dowlatabadi no rodapé de uma obra de arte:

‘A humilhação social e a ferida aberta da humilhação dão lugar a raiva’

O cineasta Asghar Farhadi é um dos iranianos mais conhecidos em todo o mundo. Ele ganhou dois Oscars, e os principais festivais de cinema do mundo tentam de tudo para mostrar seus filmes. Atualmente, Farhadi está na Espanha filmando uma grande produção em espanhol, “Todos lo Saben”, com Javier Bardem, Penelope Cruz e Inma Cuesta.

Farhadi escreveu uma mensagem de apoio aos protestos iranianos e disse que as pessoas estavam certas em questionar o cenário atual. Seu comentário foi compartilhado em muitos meios de comunicação iranianos, como o jornal do Irã, afiliado ao governo de Hassan Rouhani (veja abaixo) e o semioficial Agência de Notícias do Trabalho do Irã (ILNA em inglês).

#A Reação de Asghar Farhadi aos recentes protestos: ao longo de todas essas exigências, as questões não respondidas foram desprezadas e ignoradas em todas as áreas por décadas, e deixadas sem respostas ou com respostas irrealistas e ilusórias.

“Nesses anos, o que levou parte do nosso povo a protestar são as questões sem resposta que foram ignoradas por décadas ou que receberam respostas irreais e ilusórias”, escreveu Farhadi.

Farhadi advertiu que “aqueles cujo dever mais elevado é prestar contas” que não respondem a perguntas, não as fazem desaparecer, o que leva à “humilhação social, e a ferida aberta da humilhação dá lugar à raiva, nenhuma raiva é tão duradoura e profunda como a raiva da humilhação”.

O cineasta também expressou solidariedade a quem perdeu seus entes queridos em protestos e em especial aos parentes de Armin Sadeghi, um garoto de 15 anos que veio da mesma cidade de Farhadi, Khomeinishahr, na província de Isfahan. Os “olhos de Armin, cheios de saudades pela vida”, estavam nos pensamentos de Farhadi todos os dias, disse ele. O menino foi morto em confrontos armados em Khomeinishahr, cidade em que Farhadi nasceu, em 1972.

À sua maneira, Dowlatabadi e Farhadi estão envolvidos nos protestos, e suas obras são instrumentos pelos quais os iranianos continuam a entender suas vidas e tempos.

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