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Foto mostra garoto vendo fogos de artifícios no Ano Novo. Por que algumas pessoas pensam que ele é pobre e triste?

The photograph that sparked a heated debate in Brazil. Screenshot from Lucas Landau's Facebook page.

A fotografia que provocou polémica no Brasil. Imagem da página do Facebook de Lucas Landau.

É véspera de ano novo em um dos mais famosos pontos turísticos do mundo. Enquanto 2.4 milhões de pessoas se reúnem na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, para assistir à queima de fogos, as lentes do fotógrafo freelance Lucas Landau se voltam para um garoto negro. O menino está molhado e sem camisa, parado no mar e com água na altura dos joelhos. Suas mãos estão cruzadas ao nível da cintura, parece que o menino está tremendo, mas ele fica lá, hipnotizado com o que está vendo no céu. Atrás dele, fora do foco da câmara, uma multidão vestida de branco festeja, tira selfies e comemora.

Landau publicou essa foto no Facebook, no Instagram e no Twitter, e ela logo se espalhou pelo WhatsApp com uma história falsa de que o menino não tinha casa para morar e era abandonado. A narrativa se encaixou com o que foi visto na imagem: um garoto negro inserido em uma sociedade brasileira de grandes desigualdades.

Mas esse mal entendido de pobreza e tristeza logo enfrentou oposição.

Stephanie Ribeiro, uma expressiva ativista negra no Brasil com 46.000 seguidores no Facebook, desafiou este ponto de vista:

Para mim não tem diferença quem vê um menino negro e já associa com ele a um “menor”, com a polícia que vê negros e já aborda para revistar e/ou agredir. Homens negros sempre contam essas histórias, suas vidas são marcadas pelos olhos racistas que procuram o esteriótipo reafirmando diariamente pelas mídias, e não a inúmeras verdades sobre eles. Fortalecemos isso ao incentivar olhares cheios de esteriótipos racistas sobre nossas múltiplas formas de existir/ser mesmo diante de crianças… o PERIGO DA HISTÓRIA ÚNICA também está no nosso olhar.

Em uma entrevista à edição brasileira do jornal espanhol El País, o escritor negro Anderson França disse:

O problema não é a foto, é a interpretação dela, do seu contexto. As pessoas que olham aquela foto estão pré-condicionadas a entender que a imagem de uma pessoa negra é associada a pobreza e abandono, quando na verdade é só uma criança negra na praia. Essa precondição é racismo estrutural, que vem da má educação do povo brasileiro sobre ele mesmo.

Entretanto, a verdadeira história ainda é desconhecida – nem mesmo o fotógrafo sabe quem é o garoto. Após a imagem se espalhar, Landau acrescentou a legenda, que explica o contexto de como a foto foi tirada.

eu estava a trabalho fotografando as pessoas assistindo aos fogos em copacabana. ele estava lá, como outras pessoas, encantado. perguntei a idade (9) e o nome, mas não ouvi por causa do barulho. como ele estava dentro mar (que estava gelado), acabou ficando distante das pessoas. não sei se estava sozinho ou com família. essa fotografia abre margem para várias interpretações; todas legítimas, ao meu ver. existe uma verdade, mas nem eu sei qual é. me avisem se descobrirem quem é o menino, por favor.

copacabana beach, 2018

Publicação compartilhada por Lucas Landau (@landau) em 31 

Uma outra história de um salvador branco?

Uma captura de tela de alguém, na seção de comentários da postagem de Landau, tentando comprar uma cópia da foto começou a circular. Nela, Landau respondeu dando detalhes do seu contato. Em resposta, as pessoas começaram a conhecer o trabalho do fotógrafo.

Landau, que é branco, fotografou comunidades negras na África do Sul e eventos violentos que aconteceram nas favelas do Rio de Janeiro, onde a grande maioria dos residentes é de cor negra.

Como resultado dessa dinâmica, uma expressão apareceu no debate: “o complexo do salvador branco”. Segundo a Wikipédia, trata-se de quando ” uma pessoa branca que age para ajudar pessoas que não são brancas, em que tal ajuda, em alguns contextos, é percebida como sendo interesseira”.

Em relação ao fotógrafo e às respostas em geral das pessoas sobre a fotografia, o blogueiro negro Marcelo Rocha lembrou-se de um personagem da série da televisão norte-americana “Todo Mundo Odeia O Chris”, que é popular no Brasil:

A personagem Srta. Morello (Jacqueline Mazzarela) retrata uma pessoa branca que reconhece seus privilégios, mas de forma tão soberba que realmente se acha superior em tudo e acredita que todos os negros dependem de sua ajuda e assistência. Vê se em vários episódios a professora do protagonista da série Chris Rock (Tyler James Williams) com suas “melhores intenções” tentando ajudar o personagem em sua história trágica que criou em sua mente. O fotógrafo humanitário de alma negra ainda é lucro pro mercado. (…) Só criaram ele pois existe um povo sedento por ser a Srta. Morello.

Uma reflexão sobre o próprio país

Entretanto, diz-se que é inevitável que as pessoas não vejam a imagem através da lente da desigualdade e da tristeza inseridas no vasto contexto brasileiro.

Copacabana, bairro rico do Rio de Janeiro, é cercada de favelas e de comunidades de baixa renda, e onde a maioria dos residentes é mulato ou de pele negra. Na postagem original de Landau, um comentarista lembrou que as linhas de ônibus que chegam da periferia não circularam naquela noite, supostamente para evitar que jovens negros fossem ao espetáculo da queima de fogos.

No Brasil, o último país das Américas a abolir formalmente a escravidão, em 1889, apenas uma pequena fração, (17%), dos mais ricos do país, ou seja 1%, é negro, embora, as pessoas negras façam parte de 54% da população total. No índice atual, a diferença salarial que atualmente existe entre brancos e negros somente será igualada em 2089.

Há também uma questão representativa. Um estudo da Universidade de Brasília revelou que entre os livros publicados no Brasil nos anos de 1965 a 2014, somente 10% foram escritos por autores negros. Foi também revelado que 80% dos personagens principais de livros de ficção eram brancos. Nos filmes, apenas 4% da produção emprega roteiristas negros e somente 31% selecionam atores negros, que quase sempre fazem personagens associadas com a pobreza e a criminalidade.

Não se pode negar o problema racial no Brasil, apesar de o país nunca ter tido oficialmente uma lei de segregação. Conforme também salientou o fotografo brasileiro Fernando Costa Neto numa citação do El País:

Mesmo que a foto aponte outra coisa quando encontrarem o menino, o Brasil está muito bem espelhado pela foto em Copacabana”, avalia Netto. “Nós estamos aqui discutindo a força e o papel da fotografia, preconceito, o réveillon no Rio, a estética, a emoção, o documento, questionando… A fotografia está cumprindo o papel.

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