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Tensões, negociações e protestos: as últimas da crise política peruana

Pedro Pablo Kuczynski, presidente do Peru. Imagem do Flickr da Centro de Desenvolvimento da OCDE (CC BY-NC-ND 2.0).

O Peru chega ao final do ano enfrentando uma das crises políticas mais delicadas de sua história. A situação se agravou após semanas de negociações, acusações de corrupção, tentativas de impeachment ao presidente, discussões, além de gozação dos internautas nas redes sociais.

Em meados de dezembro, um grupo de legisladores da bancada de oposição ao governo de Pedro Pablo Kuczynski, também chamado de PPK, entraram com uma petição pelo impeachment do presidente por conta de sua ligação com o escândalo de corrupção conhecido no país como Caso Odebrecht.

A petição foi apresentada logo que a operação Lava Jato trouxe à tona um documento apresentando pagamentos feitos pela Odebrecht como consultora de duas empresas ligadas ao presidente Kuczynski.

Em um breve comunicado ao país na noite de domingo, 17 de dezembro de 2017, Kuczynski declarou que o pedido de impeachment era um ataque à ordem constitucional, qualificando a petição como “impeachment expresso” e uma ameaça à constituição.

Na noite de 21 de dezembro, quinta-feira, véspera da sessão do parlamento que votaria pelo impeachment, o presidente fez um novo pronunciamento à nação, acompanhado dos vice-presidentes, Martín Vizcarra e Mercedes Aráoz, em que sustentou que “nenhum dos dois [vice-presidentes] quer participar de um governo surgido de uma manobra injusta e antidemocrática”.

Na sexta-feira, 22 de dezembro de 2017, depois das 10 da noite (horário local), a sessão do Congresso peruano rejeitou o pedido de impeachment contra o presidente Kuczynski por uma margem pequena. Contudo, o desdobramento da crise política concedeu um indulto ao ex-presidente Alberto Fujimori, que cumpria pena por violações aos direitos humanos durante seu mandato.

Plop!

Em meio ao cenário controverso, uma declaração desfavorável do advogado de Kuczynski gerou repercussão nas redes sociais. O advogado constitucionalista e ex-deputado Alberto Borea deliberou por duas horas, e não faltaram referências a diversos pensadores políticos como Montesquieu, Aristóteles e Raymond Aron. Entretanto, a menção de maior impacto de Borea foi ao personagem de histórias em quadrinhos chileno Condorito e ao final característico das tirinhas em que Condorito cai de costas, confuso e surpreso, enquanto acima dele aparece o balão “plop!”.

Se dijo todo lo que dijo nuestro joven congresista que, a estas alturas, no vale la pena refutar (…). Dijo que, en este grupo (Fuerza Popular) no es normal cobrar dinero de la corrupción. ‘Plop’, como dice Condorito”.

Tudo o que foi dito pelo nosso jovem parlamentar que, a esta altura, não vale a pena responder (…) Ele disse que, neste grupo (Força Popular) não é normal arrecadar dinheiro da corrupção. ‘Plop’, como diria Condorito.

“Jovem parlamentar” é uma alusão a Daniel Salaverry, integrante do partido Força Popular, principal opositor ao governo e que obteve a maioria de votos nas eleições de 2016.

Apesar de o pedido de impeachment ter sido apresentado por outro partido, o Força Popular apoiou abertamente o afastamento do presidente Kuczynski.

Embora a declaração de Borea tenha repercutido amplamente nas redes sociais, foram as palavras da parlamentar independente Yeni Vilcatoma que mais tiveram repercussão, ao declarar seu voto a favor do impeachment do presidente peruano.

Vilcatoma referiu-se a Gerardo Sepúlveda, empresário chileno sócio de Kuczynski que ficou encarregado dos negócios do presidente no período em que integrou o governo do ex-presidente Alejandro Toledo (2001-2006). A parlamentar frisou diversas vezes a origem chilena de Sepúlveda e também o fato de que Condorito, que havia sido citado por Borea, também é chileno:

¿Qué ha tenido que hacer el presidente? Humillarnos como nación ante un chileno (Gerardo Sepúlveda). Ante un pobre diablo que estuvo sentado allí en el palco presidencial mirándonos la cara a todos (…) un chileno nos vio la cara. Su abogado (Alberto Borea) lo único que hizo fue invocar a Condorito, y Condorito señores, es chileno, ¡es chileno! Y ¿dónde está el nacionalismo?

O que foi que o presidente fez? Humilhou a nossa nação diante de um chileno (Gerardo Sepúlveda). Diante de um pobre diabo, que se manteve sentado na mesa do presidente, olhando todos na cara (…) Um chileno que nos fez de idiotas. A única coisa que o advogado do presidente (Alberto Borea) fez foi mencionar Condorito, e Condorito, senhoras e senhores, é chileno. Chileno! Onde foi parar o nosso nacionalismo?

A reação na internet foi imediata, e Condorito tornou-se trending topics no Twitter:

Condorito abandonando o Peru depois de ouvir Vilcatoma! Não vá embora! Nós precisamos de você! pic.twitter.com/jxl86ucHhx

Criaram versão sinfônica de ‘Condorito é chileno’ de Yeni Vilcatoma (VÍDEO) https://t.co/fUh37NGICh pic.twitter.com/ly2darDrox

De todos os grandes citados por Borea (Aron, Montesquieu, Burke), Vilcatoma citou Condorito!! Exijo uma explicação!!

No dia seguinte, a parlamentar pediu desculpas pelos comentários, ainda que não por tudo o que disse:

🔴 Yeni Vilcatoma pediu desculpas ao povo chileno após episódio polêmico sobre Condorito🐦

🎙️ ‘Lamento e retifico minhas declarações que possam ter afetado aos chilenos. Meu respeito a todos’ pic.twitter.com/MfFgXJ5p18

O indulto, um novo capítulo da crise

Vale destacar que Keiko Fujimori, filha mais velha de Alberto Fujimori, foi derrotada por Kuczynski nas eleições presidenciais por uma diferença de apenas 0,24% dos votos válidos. O partido de Keiko, contudo, obteve maioria no Congresso, elegendo 72 congressistas no Parlamento, que conta ao todo com 130 cadeiras.

Em 22 de dezembro, sexta-feira, o parlamentar Kenji Fujimori, irmão mais novo de Keiko Fujimori, abriu mão de votar a favor do impeachment. Outros nove parlamentares de sua bancada se abstiveram, o que acabou beneficiando Kuczynski. Esses acontecimentos levantaram rumores de que Kenji Fujimori havia negociado a abstenção de seu voto com o presidente em troca do indulto para favorecer seu pai.

Aconteceu o verdadeiro House of Cards no Peru: a filha de Fujimori arma processo para afastar PPK; o irmão dela negocia abstenções para barrar a aprovação do impeachment contra o presidente; PPK oferece indulto em troca de abstenções; Fujimori acaba recebendo indulto. Inacreditável.

Para muitas pessoas, o episódio não passa de uma metáfora para as negociações entre as classes políticas que não levam em conta os cidadãos. O indulto a Fujimori provocou protestos e confrontos intensos entre apoiadores e opositores ao indulto e também iniciou um novo capítulo na recente crise política no Peru:

Presidente @ppkamigo:

O senhor está nos dizendo com esse indulto que ninguém deve pagar pelos seus crimes perante a sociedade. Sério? O senhor concedeu indulto a Fujimori sem que ele tenha pago o que deve.

Carlos Rivera, advogado do Instituto de Defesa Legal confirmou que as famílias das vítimas de crimes condenados pelo ex-presidente Fujimori irão recorrer na Corte Interamericana de Direitos Humanos para anular o indulto que o exime de cumprir sentença de 25 anos de prisão pic.twitter.com/r2aWXWKdXl

Peru: indulto de Natal para Fujimori incitou protestos por ‘pacto infame’ https://t.co/Iyvgfv6zvy pic.twitter.com/4s8HIAKYPB

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