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Palestinos não se surpreendem com anúncio dos EUA sobre Jerusalém: o mundo sempre “ignorou sua existência”

Palestinos assistem ao discurso de Trump na televisão em 6 de dezembro de 2017. Foto por Mariam Barghouti no Instagram. Utilizada com permissão. Legenda original diz: assistindo ao discurso de Trump. Expressões faciais dizem tudo: um pouco de imprecações mentais e um pouco de ‘isso não é nada novo’ misturado com lamentação e meh.

A declaração do presidente americano Donald Trump de que o país iria transferir sua embaixada em Israel para a cidade de Jerusalém foi recebida com surpresa pelo mundo (e rejeição oficial da ONU, em 21 de dezembro). Entre palestinos, entretanto, foi recebida com indignação e uma singular falta de espanto.

Jerusalém é um local de controvérsia e discórdia no chamado processo de paz Israel-Palestina pela simples razão de que tanto o Estado de Israel quanto o Estado Palestino reivindicam a cidade como capital. Sob a ótica da lei internacional, Jerusalém Oriental é considerada território palestino ocupado – Israel capturou a cidade, anteriormente sob domínio jordaniano, durante a Guerra dos Seis Dias em 1967 – e, até a recente manobra americana, todas as embaixadas no país estavam situadas em Tel Aviv.

Palestinos vivendo na cidade vêm sofrendo há tempos com discriminação sob o controle israelense. De acordo com a série intitulada “A City for All?” produzida pelo coletivo Visualizing Palestine, em outubro de 2017 10.000 palestinos nascidos em Jerusalém “não têm situação jurídica regular porque seus pais possuem cartões de identidade diferentes” e Israel se recusa a registrá-los. Apesar de serem 37% da atual população de Jerusalém, os palestinos receberam apenas 10% do orçamento municipal para seus bairros.

E entre 2004 e 2016 “685 lares palestinos em Jerusalém Oriental foram demolidos… deixando 2.513 pessoas desabrigadas. Demolições são parte de uma política israelense mais ampla para alterar a conformação demográfica e geoespacial de Jerusalém, privilegiando imigrantes judeus em detrimento da população nativa palestina”:

“685 lares palestinos em Jerusalém Oriental foram demolidos entre 2004 e 2016, deixando 2.513 pessoas desabrigadas. Demolições são parte de uma política israelense mais ampla para alterar a conformação demográfica e geoespacial de Jerusalém, privilegiando imigrantes judeus em detrimento da população nativa palestina.” Legenda retirado do Visualizing Palestine. Usado sob licença Creative Commons.

Jerusalém é um microcosmo do tratamento recebido pelos palestinos em todos os territórios. Ao longo dos 50 anos de ocupação da Cisjordânia e da Faixa de Gaza por Israel, grupos de direitos humanos, governos e organizações internacionais questionaram o país por violações dos direitos humanos, desde mortes criminosas e remoções forçadas a medidas discriminatórias para com os palestinos.

Políticos ao redor do mundo demonstraram desagrado com a decisão americana de transferir a embaixada. O presidente turco Recep Tayyip Erdoğan, por exemplo, declarou que “Jerusalém é o limite para os muçulmanos“. Mas, ao longo dos anos, repreensões não se traduziram em mudanças concretas, especialmente quando relações comerciais de grandes proporções com Israel estavam em jogo.

Em relação aos EUA, palestinos há muito reclamam que as medidas americanas refletem uma inequívoca tendência pró-Israel. Apesar de os EUA declararem neutralidade, seu histórico fala por si só. Nas Nações Unidas, o país já usou seu poder de veto repetidas vezes em apoio a Israel (veja a lista completa feita pela Jewish Virtual Library aqui, em inglês), além de enviar expressivas somas em ajuda e armas todos os anos para o Estado israelense (o mais recente pacote, em 2016, no valor de 38 bilhões de dólares ao longo de uma década).

É tão esperado que os EUA usem seu poder de veto para apoiar Israel que a decisão do governo Obama, em 2016, de se abster de usá-lo em uma resolução condenando a construção de assentamentos israelenses em território palestino – considerados ilegais pelas leis internacionais – virou manchete.

“Quem são eles para declarar a capital de Israel quando se trata de território palestino?”

Isso talvez explique porque, enquanto definitivamente indignados, os comentários palestinos nas redes sociais não mostraram surpresa com a manobra americana.

No momento em que esse artigo foi escrito, pelo menos dois palestinos haviam sido mortos e mais de 200 feridos durante os protestos em Jerusalém Oriental, Cisjordânia e Gaza. Israel lançou pelo menos um ataque aéreo em Gaza, ferindo no mínimo 25 civis.

Linah Al Saafin, produtora palestina na emissora Al Jazeera, compartilhou a imagem de um menino palestino de 14 anos sendo preso por soldados israelenses em Hebron, Cisjordânia:

Quantos soldados israelenses são necessários para prender um menino palestino de 14 anos? Foto tirada ontem em Hebron h/t @shejae3a

A ativista e comentarista Mariam Barghouti, que foi presa aos 20 anos por forças israelenses, escreveu em um artigo de opinião na Al Jazeera que o anúncio do governo americano não aconteceu do nada:

It's a culmination of international failure to address Israeli human rights violations, perpetual US support to Israel, the incompetency of Palestinian leadership to achieve any solutions through diplomatic efforts, and more recently the new friendship the US administration is building with some Arab states.

É o auge de um fracasso internacional para abordar as violações israelenses dos direitos humanos, o perpétuo apoio a Israel, a incompetência das lideranças palestinas de alcançar uma solução através de medidas diplomáticas e, mais recentemente, a amizade que o governo americano está construindo com alguns Estados árabes.

Ela também denunciou o foco da mídia na “reação dos Estados palestinos e árabes” em vez da constante violação dos direitos dos palestinos:

Gente, o problema do Trump em declarar #Jerusalem a capital de Israel não deveria ser o medo da reação dos Estados palestinos e árabes. Na verdade, deveria ser o fato de um governo estrangeiro estar mais uma vez ignorando a existência da Palestina e seu direito à soberania. #Palestine

Barghouti também salientou que 2017 é o centenário da Declaração Balfour, se referindo ao documento publicado em 1917 pelo governo britânico, durante a Primeira Guerra Mundial, anunciando o apoio ao estabelecimento de uma “terra para o povo judeu” na Palestina:

Um homem palestino me disse ao entrevistá-lo: “quem são eles para declarar a capital de Israel quando se trata de território palestino?”

Estamos fazendo 100 anos de Balfour com outra manifestação (de apoio a Israel) pelo @realDonaldTrump #Palestine #Jerusalem

Foto tirada por Mariam Barghouti em 8 de dezembro de 2017. “Silhuetas do protesto. Jovens confrontando forças israelenses perto do assentamento Beit El em Ramallah, contra a declaração de Trump fazendo de Jerusalém a capital de Israel.” Usada com permissão. Fonte: Instagram

Em um longo post, o jornalista sírio-palestino Eyad Hamid disse que transferir a embaixada não faz muita diferença, já que seria deslocá-la de uma cidade ocupada, Jaffa, agora parte de Tel Aviv-Yafo, para outra cidade ocupada, Jerusalém. Segue um trecho:

 خلينا نكون صريحين مع حالنا: القدس محتلة متلها متل يافا ونقل السفارة الأمريكية من مدينة فلسطينية محتلة لمدينة فلسطينية تانية محتلة ما لي شايف أنه رح يغير كتير

Sejamos honestos: Jerusalém está ocupada como Jaffa, e mover a embaixada americana de uma cidade palestina invadida para outra cidade palestina invadida não me parece mudar muita coisa.

Leen Barghouti, nascida e criada em Israel, atual consultora da missão palestina em Berlim e anteriormente pesquisadora na Universidade de Georgetown, encarou isso como mais uma prova de que o governo israelense do presidente Benjamin Netanyahu não está interessado na paz:

There are not enough words to describe what on earth happened yesterday to my hometown Jerusalem, however it is clear the Israeli government is not interested in letting go of its domination, suppression and superiority. It is not interested in peace. Netanyahu's idea of peace is Palestinian servitude and submission. The US administration is basically rewarding theft, oppression, repression, violence and humiliation.

Não há palavras suficientes para descrever o que aconteceu ontem à minha cidade natal Jerusalém, entretanto está claro que o governo israelense não está interessado em abdicar da sua dominação, repressão e superioridade. Não está interessado em paz. A ideia de paz de Netanyahu é servidão e submissão palestina. O governo americano está basicamente recompensando roubo, opressão, repressão, violência e humilhação.

Ela, então, chamou os palestinos a se unirem:

It's time now to unite and fight for our equal civil, cultural, religious and political rights. It's time to break our chains and retake our heritage that was stolen from us, it's time to fight for what is right rather than what is comfortable.

Agora é o momento de nos unirmos e lutarmos pelos nossos direitos civis, culturais, religiosos e políticos. É o momento de romper as amarras e retomar nossa herança que foi roubada de nós, é o momento de lutar pelo que é certo em vez do que é confortável.

O analista palestino Yousef Munayyer disse que essa é uma situação em que os palestinos perdem de qualquer maneira:

Se os palestinos responderem ao anúncio de Trump com revolta nas ruas, os comentários serão: estão vendo, quem consegue estabelecer a paz com esses árabes violentos.

Se eles não reagirem, os comentários serão: estão vendo, a decisão sobre Jerusalém foi acertada.

Os dois casos estão errados.

A escritora palestina Budour Hassan disse que é natural para “uma nação como os EUA, construída a partir de colonização… apoiar outro Estado colonizador em Israel”:

Trump é a mais honesta personificação dos valores compartilhados por EUA/Israel. Uma nação construída a partir de limpeza étnica, colonialismo e supremacia branca sempre apoiou o colonialismo e a limpeza étnica na Palestina.

Ela acrescentou que a “fúria” com o anúncio não faz sentido a menos que haja ação concreta dos palestinos:

Toda essa “fúria” que não é acompanhada pela dissolução do regime de Oslo [referência à Autoridade Palestina estabelecida em 1993 pelos Acordos de Oslo, celebrados entre Israel e a Organização pela Libertação da Palestina] e a suspensão do reconhecimento da ocupação e o fim das negociações é apenas um ato vazio sem sentido, e a Autoridade Palestina não vai fazer nada disso porque sua prioridade é preservar seus privilégios.

O governo israelense não perdeu tempo após o anúncio, planejando 14.000 novas unidades habitacionais para Jerusalém, incluindo 4.000 ao longo da “Linha Verde”, ou seja, dentro de território reconhecido legalmente como Estado da Palestina:

14.000 unidades habitacionais planejadas para Jerusalém, 6.000 sobre a Linha Verde

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