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Isabel dos Santos destituída da petrolífera nacional Sonangol: o que pensam os angolanos?

Categorias: África Subsaariana, Angola, Desenvolvimento, Mídia Cidadã, Política
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Isabel dos Santos, filha do ex-presidente de Angola José Eduardo dos Santos. Foto: captura/Youtube, Góis Souza.

Desde que foi eleito em Agosto passado [2], João Lourenço tem praticado actos de governação que estão a surpreender vários segmentos em Angola. Além de trocar os chefes das secretas militares — sector que cuida da segurança e informação do Estado  –, também exonerou [3] Isabel dos Santos, filha do ex-presidente José Eduardo dos Santos, da presidência do Conselho da petrolífera nacional Sonangol.

Lourenço substituiu José Eduardo dos Santos [4] como nome principal do Movimento Popular pela Libertação de Angola (MPLA) em Dezembro de 2016 e assumiu a presidência do país após o partido obter maioria parlamentar nas eleições de agosto.

JES esteve no poder durante mais de 35 anos em uma governação marcada por violações aos direitos humanos e censura à liberdade de expressão, com jornalistas e críticos sendo frequentemente perseguidos.

Ainda que fora da presidência, o ex-presidente segue como líder do MPLA e, após as últimas eleições, juntou-se ao Conselho da República, órgão de aconselhamento do Presidente cujos membros gozam de imunidade judicial — levando muitos a concluir que ele continua a comandar nos bastidores.

Mas tais especulações são agora postas em dúvida diante das recentes decisões de Lourenço, que aparentam ter o objetivo consolidar sua autoridade no partido.

Para o lugar de Isabel dos Santos foi nomeado Carlos Saturnino, que presidiu o conselho da Sonangol antes de ser exonerado pela própria filha de JES quando a mesma assumiu o cargo em junho de 2016 após indicação de seu pai. Além de Isabel dos Santos, toda a equipa que compunha o executivo da empresa foi destituída por Lourenço.

Em 2013, Isabel dos Santos foi identificada pela Revista Forbes [5] como a mulher mais rica da África, estimando sua fortuna pessoal em cerca de 4.5 bilhões de dólares americanos. Actualmente ela é a principal acionista da Unitel, a maior operadora de celular do país, e da rede de televisão local Zap, além de ter participações na NOS, gigante das telecomunicações em Portugal e investimentos em bancos internacionais.

O assunto marca presença no debate angolano. Rafael Marques [6], conceituado jornalista e activista local, considera que sem a Sonagol é o fim da empresária:

A Isabel dos Santos, agora sem a Sonangol, está acabada, porque todos os portugueses que a apoiavam e que faziam as suas relações públicas, e inclusivamente a imprensa, surgiam em função do poder que ela derivava do seu pai. Sem isto a Isabel não vai conseguir manter os seus negócios, porque são negócios que foram sempre mamar do Estado e que não obedecem a critérios de boa gestão. São negócios que se tornaram sorvedores dos fundos públicos em Angola.

Viana TV [7] fez uma questão na qual incita as pessoas a deixar sua opinião em torno do caso. Para Cristina Correia [8] é um verdadeiro dia histórico:

Mais uma data inesquecível para os Angolanos, 11 de Novembro dia da independência, 15/de Novembro adeus a família Dos Santos. Ficará na História.

Para Leonel Mateus [9], o caso não passa de uma simples perseguição política:

Só isso não basta, estas exonerações até parece perseguição as pessoas. Se estão a ser exoneradas por algum acto ilícito também devem responder julgamento.

Há quem não veja nenhuma mudança [10] de facto sem que haja uma responsabilização concreta:

Isso não muda em nada a minha vida e nem mudou em nada as condições do país…Esse Jlo (João Lourenço) só está preocupado em exonerar e responsabilizar que é bom nada…tudo treta.

Pedro Emanuel Ferreira [11] se distancia da aparente comemoração que se faz em torno da exoneração da Isabel dos Santos e diz que há motivos para se orgulhar da filha do antigo Chefe de Estado:

Falaram tanto, porque fez bem de sair a Isabel, agora vão ler o trabalho que ela fez durante o pouco tempo como PCA da SONANGOL.
Angolano às vezes ri, festeja, atira pedra, sem saber realmente o que está a passar lá dentro.

Para mim, o que me importa não é se a Isabel e filha do Ex-presidente se está a trabalhar deixa trabalhar, quantos entraram e desfalcar, que ninguém abriu a boca, por ela ser quem é Uma Exoneração parece um festival da paz todo mundo ri.
Então ela por si própria mostrou trabalho, através dos números.

Um facto curioso é que Isabel dos Santos lançou [12] dias depois uma marca de cerveja em Angola, o que leva alguns a considerar como uma forma de desviar a atenção dos angolanos, quem o diz é Yuri Aiss [13]:

Um dos métodos mais rápido para destruir a sociedade Angolana, ela até já conhece o ponto fraco dos Angolanos

Por seu lado, a oposição [14] diz ser uma boa decisão e bem-vinda:

A UNITA, maior partido da oposição, considera a exoneração de Isabel dos Santos do cargo de presidente do Conselho de Administração da Sonangol “normal” e a CASA-CE, a segunda mais importante força política da oposição no Parlamento, aponta a decisão do Presidente da República como “bem-vinda”.