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Moda, fé e cultura se encontram na arte global de amarrar lenços e turbantes

Modelo Aliyyah Abdul-Raul vestindo criação do designer Chimiwear, de Ohio, posa para a câmera em uma edição anterior da Beautifully Wrapped Headwrap Expo. Durante o evento, desfiles de moda acontecem a cada hora e apresentam diferentes criações dos estilistas. Créditos: Cortesia de Felicia Tolbert

Esse artigo de Frances Kai-Hwa Wang foi originalmente publicado no PRI.org em 27 de outubro de 2017. É republicado aqui como parte de uma parceria entre PRI e Global Voices.

Não há escassez de glamour em um evento de moda anual no estado americano de Michigan onde homens, mulheres e crianças desfilam pela passarela enquanto a música vibra ao fundo. Mas o diferencial desse desfile é a celebração de um visual modesto e “bacana”. As modelos, usando lenços ou turbantes coloridos, vestem roupas elegantes e estilosas sem expor a pele. Perto da passarela, vendedores exibem tecidos, arte e acessórios de várias partes do mundo, em uma cacofonia de cores.

No meio de tudo isso está Zarinah El-Amin Naeem. Antropóloga e nativa de Detroit, ela criou o evento anual para reunir grupos com a tradição de cobrir a cabeça. Entre eles há sikhs, muçulmanos, judeus, israelitas negros, cristãos ortodoxos e espiritualistas africanos.

El-Amin Naeem diz que a Beautifully Wrapped Headwrap Expo (Feira dos Turbantes Lindamente Cobertos, em tradução livre) reúne no mesmo espaço pessoas de diferentes contextos para compartilhar ideias e aprender uns com os outros.

“Pessoas reais conversando frente a frente, não apenas lendo sobre os outros, essa é a chave para avançarmos como sociedade”, diz El-Amin Naeem.

A antropóloga Zarinah El-Amin Naeem usava turbantes quando jovem por estilo e, mais tarde, como uma forma de expressar sua religião. Depois de muitas viagens ela percebeu que variadas culturas ao redor do mundo têm o hábito tradicional de cobrir a cabeça. Créditos: Cortesia de Felicia Tolbert

Ela também cobre a cabeça com tecidos chamativos e seu look assinatura é a “torre alta”, que pode acrescentar até 30 centímetros à sua altura. Quando era mais nova, El-Amin Naeem usava lenços de vez em quando simplesmente porque gostava do estilo. Mas, após o terceiro ano estudando na Universidade de Howard, em Washington, DC, ela começou a usar turbantes todos os dias para expressar sua fé muçulmana.

Foi uma forma, em suas palavras, “de me identificar visualmente como uma mulher muçulmana. Havia muitas delas usando lenços e eu gostei do fato de as pessoas poderem perceber imediatamente que elas eram muçulmanas”.

Ela notou, então, que as pessoas passaram a tratá-la de forma diferente. Em viagens fora dos EUA durante os anos de faculdade e quando trabalhou com desenvolvimento internacional no Egito e em Serra Leoa, El-Amin Naeem descobriu muitas culturas ao redor do globo que cobrem a cabeça e a grande diversidade de estilos e amarrações de lenços e turbantes. Seus turbantes se tornaram uma forma de abrir as portas do diálogo com outras pessoas.

“Como uma mulher muçulmana afro-americana e viajante, notei a curiosidade sobre os meus turbantes”, El-Amin Naeem diz. “As pessoas paravam e me perguntavam como amarrá-los, onde eu havia comprado os tecidos, por que os usava e mais. Comecei a fazer workshops improvisados em banheiros, e isso progrediu até workshops de verdade em bibliotecas.”

Por fim, El-Amin Naeem criou a Beautifully Wrapped, uma organização internacional e inter-religiosa com o objetivo de construir amor e compreensão através da arte global de cobrir a cabeça com lenços e turbantes.

Desde 2013, El-Amin Naeem organiza a feira anual de turbantes, que atrai centenas de homens e mulheres de todas as partes dos EUA. O evento desse ano foi em 29 de outubro no Ford Community & Performing Arts Center em Dearborn, Michigan.

“Ampliar o entendimento da prática [de cobrir a cabeça] é importante porque a vestimenta feminina, e em especial a vestimenta da mulher muçulmana, tem sido tão politizada no mundo atual”, ela diz. “Muitas mulheres muçulmanas sentem como se esse fosse um fardo que elas, e apenas elas, carregam. Porém, quando você percebe a dimensão completa das práticas e usos de lenços e turbantes começa a questionar porque um grupo – de mulheres muçulmanas – se tornou o centro do debate.”

Para muitos, de acordo com El-Amin Naeem, a exposição é a chance de conhecer algo novo – de tecidos únicos a visuais modernos. Há tutoriais, um mercado de artesãos com tecidos e os desfiles de hora em hora com a participação de cerca de uma dúzia de estilistas.

“Em alguns casos, é a primeira vez que usam um lenço. Em outros, é o desejo de mudar e testar um novo estilo”, ela diz.

A exposição também é o lugar para grupos se conhecerem melhor e construírem relacionamentos. Ano passado, a Princesa Anne Oluwaseun Besimen-Akinfenwa, representante da Organização Odua do Michigan, fez uma apresentação sobre a cultura iorubá na África Ocidental.

“Eu aprendi tanto com os outros palestrantes”, ela diz. “Ganhei uma compreensão melhor sobre os turbantes na tradição sikh.”

Homem da tradição sikh mostra como amarrar um dastar ou turbante, durante a Headwrap Expo. Créditos: Cortesia de Felicia Tolbert

Além de aprender sobre as diferenças entre tradições, também há a oportunidade de se conectar com os outros, especialmente porque cobrir a cabeça hoje em dia pode, às vezes, causar suspeita ou desaprovação.

“De certa forma, cobrir-se é a uma oportunidade de autoexpressão, mas também pode fazer a vida um tanto mais complicada”, diz El-Amin Naeem. “Sempre digo que para cobrir a cabeça em uma sociedade que não valoriza a prática você deve ter tutano. Você deixa de ser invisível.”

Andrea Grinberg é violoncelista profissional e dona do Wrapunzel, um site para mulheres que cobrem os cabelos. Grinberg é judia e lembra de uma vez, durante a exposição, em que um homem muçulmano se aproximou após sua apresentação dizendo estar surpreso com a quantidade de semelhanças entre sua fé e a de Grinberg.

“Nunca havia conhecido um judeu antes”, o homem comentou.

Grinberg diz que a interação foi incrível.

“E é exatamente esse o ponto”, diz Grinberg. “Eu sei que a intenção de Zarinah é promover o diálogo.”

Violoncelista e instrutora de amarração de lenços Andrea Grinberg em foto do calendário anual Beautifully Wrapped. Grinberg comanda a comunidade online Wrapunzel, onde mulheres que usam lenços podem se conectar. Créditos: cortesia de Yonatan Grinberg

Em outro ano, após uma apresentação de sapateado da Nation of Islam, alguns membros da comunidade judaica demonstraram preocupação com a natureza aparentemente militar e política da performance. Mas os dois grupos conversaram, conta Grinberg, e descobriu-se que os movimentos tinham como objetivo empoderar as mulheres e deveriam ser feitos em particular em vez de apresentados ao público.

“Se esses [diferentes] tipos de pessoas podem se reunir e aproveitar o tempo juntos, então qualquer coisa é possível”, ela diz.

Como vendedora, Grinberg afirma que gosta da oportunidade de engajamento direto com o público, além de aprender diferentes estilos de amarração dos lenços.

“Há um sentimento real quando você vai à exposição, de que é moda, é cultura, é divertido, é lindo e tudo, mas tem algo mais profundo acontecendo. E não acho que sou a única que sente isso quando vou lá”, Grinberg conta.

Todo ano, a Beautifully Wrapped publica um calendário de parede com imagens de mulheres de diferentes culturas cobrindo suas cabeças. El-Amin Naeem também criou a Niyah Press, que ajuda a disseminar histórias não contadas na mídia convencional, e a Enliven Your Soul, que leva grupos de mulheres em excursões culturais a regiões como Marrocos e Indonésia. E agora ela está arrecadando dinheiro para criar uma exposição itinerante de mídia mista e levar as conversas sobre moda, fé e cultura a várias comunidades nos EUA.

“Nós temos que construir consistentemente a armadura da nossa comunidade e, de modo geral, mostrar que nos importamos com o bem estar do próximo, que amamos uns aos outros e que vamos ter de trabalhar para resolver nossas diferenças”, completa El Amin Naeem.

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