Está vendo todos esses idiomas acima? Nós traduzimos os artigos do Global Voices para tornar a mídia cidadã acessível para várias partes do mundo.

Saiba mais sobre Tradução do projeto Língua  »

Escândalo do “Cimentaço” deixa rastros de corrupção na campanha presidencial da Costa Rica

Luis Guillermo Solís, presidente da Costa Rica. Imagen en Flickr do usuário UN Women (CC BY-NC-ND 2.0).

A Costa Rica está a poucos meses de realizar eleições presidenciais, programadas para 4 de fevereiro de 2018. Porém, o caminho para as eleições tornou-se obscuro por conta de um complexo escândalo político envolvendo os Três Poderes da República, numa rede de influências políticas que revela a presença e a extensão da corrupção na Costa Rica.

O início do escândalo, conhecido popularmente como “Cimentaço“, é composto de vários elementos: um suposto negócio de importação de cimento da China, um empréstimo de forma duvidosa, uma mudança nas normas de importação e uma rede complexa de envolvidos que chega à presidência da república.

Em meados de 2017, o “Cimentaço” ficou conhecido por meio das investigações sobre as irregularidades de um empréstimo de 31,5 milhões de dólares feito pelo Banco da Costa Rica (BCR, banco estatal) ao empresário de construção, Juan Carlos Bolaños, e à sua empresa, a Sinocem Costa Rica.

A mídia CRHoy.com divulgou um áudio de 20 minutos de uma conversa que, aparentemente, envolveu o empresário Bolaños e o então subgerente do BCR, Guillermo Quesada:

Esta grabación […] explica un supuesto plan para evadir el pago de un préstamo de $20.000.000 que hizo el Banco de Costa Rica con fondos públicos a un empresario importador de cemento y cuya garantía -en caso de no pagarse- son miles de toneladas de cemento importado desde China. El audio […] según varias fuentes, tendría a algunos políticos, diputados y empresarios diseñando estrategias para lograr una salida “honrosa”. [Como consecuencia] La presidenta del BCR [renunció] al puesto.

Esta gravação […] explica um suposto plano para deixar de pagar um empréstimo de $20.000.000, feito pelo Banco da Costa Rica com fundos públicos, a um empresário importador de cimento e cuja garantia, no caso de falta de pagamento, são milhares de toneladas de cimento importado da China. No áudio […] segundo várias fontes, havia alguns políticos, deputados e empresários projetando estratégias para encontrar uma saída ‘honrosa’. [Como consequência] a presidente do BCR [renunciou] ao cargo.

A CRHoy também acrescentou que as investigações trouxeram à tona um complexo esquema de tráfico de influência. Aparentemente, não houve informação alguma sobre o cimento importado, que era também a garantia dada ao BCR para concessão do empréstimo. Questiona-se também “a relação do empresário com membros dos Três Poderes, incluindo deputados, o Supremo Tribunal de Justiça e o Gabinete Presidencial, assim como membros de diferentes partidos políticos”.

Um escândalo com sérias consequências

Bolaños defendeu-se argumentando que o empréstimo e a apresentação de garantias com cimento importado tinham como intenção “quebrar um duopólio” mantido pela indústria nacional de cimento. Nesse duopólio, segundo Bolaños, as empresas Cemex e Holcim fixavam os preços do saco de cimento no mercado e manipulavam os rumos do setor.

O duopólio, de fato, viu-se ameaçado com a importação de cimento da China. No entanto, o Governo alterou as regras para importação quando a carga já estava a caminho do país, o que significa que o cimento importado da China pela Sinocem não cumpriu com os requisitos para entrar na Costa Rica. Isto constituiu um elemento a mais nas irregularidades do empréstimo e da importação, pois figuras do alto escalão da política intercederam ante a alfândega para obrigar a liberação do cimento, mesmo não cumprindo exigências legais.

Bolaños insistiu que foi vítima das multinacionais, que tinham como principal interesse oferecer aos costarriquenhos uma qualidade de cimento mais barato e terminar com o duopólio. Porém, suas defesas não se sustentaram. Juan Carlos Bolaños foi detido na madrugada de 3 de novembro, quando estava a caminho de sua casa de campo em Santa Eulália de Atenas, a aproximadamente 40 quilômetros de San José, capital da Costa Rica.

Como Bolaños, outras figuras dos Poderes da República também caíram. Além da renúncia de Paola Mora Tumminelli à presidência do BCR (mas não do Conselho) e de vários executivos da mesma instituição, em 18 de outubro de 2017, o Supremo Tribunal suspendeu por três meses o juiz da Terceira Turma, Celso Gamboa, para investigar suas relações com o empresário Bolaños. Dias antes, em 13 de outubro, o mesmo órgão suspendeu, também por três meses, o procurador geral, Jorge Chavarría, para investigar a aparente ocultação de provas no processo.

Enquanto isso, nas redes…

A indignação inunda os espaços de discussão online. No Twitter são tendência, entre outras, as hashtags #cementazo, #cementazoCR [Cimentaço] e #YoNoTengoAmigos [Eu Não Tenho Amigos], frase pronunciada pelo presidente Solís ante a Comissão Legislativa que o visitou para escutar a sua versão dos fatos:

Bem-vindos ao circo! Onde os donos são os palhaços e acreditam que nós, o público, somos os animais 🤷🏻‍♂️

Bom conselho para os envolvidos no #CementazoCR comecem a ser benquistos para que as coisas não piorem para eles

As noticias mudam quase todos os dias e a cada vez se descobre que há mais gente do alto escalão envolvida com as relações comerciais ou de amizade com Bolaños:

Todos estão envolvidos, e o primeiro que deveria dar a cara é o presidente e não se esconder co. Não Tenho Amigos 🙄🤦🏻‍♀️

Luis Guillermo hoje negando até ao Papa!

Sobre a discussão em si e as implicações do caso, o autor do Medium, ¡Seás Tinta!, disse ver nas hashtags que levam a discussão às redes uma simplificação do escândalo. Argumenta que casos como esse exigem reflexões mais profundas e de menos matérias que desviem a atenção de consequências mais duradouras:

Rebajar la discusión, identificar culpables, simplificar un fenómeno complejo, destruir reputaciones, esconder el verdadero tráfico de influencias y promover intereses ajenos a los de las mayorías. ¿Quién va a confiar en un banco público ahora? ¿Quién va a querer pagar más impuestos después de que se ve “regalar plata” a un empresario? ¿Cómo sostener la obra pública a través de un fideicomiso? ¿Cómo vamos a seguir modernizando la economía con duopolios que ya no están en discusión?

Reduzir a discussão, identificar os culpados, simplificar um fenômeno complexo, destruir reputações, esconder o verdadeiro tráfico de influências e promover interesses alheios aos da maioria. Quem vai confiar num banco público agora? Quem vai querer pagar mais impostos depois de ver ‘presentear dinheiro’ a um empresário? Como sustentar a obra pública através da confiança? Como seguir modernizando a economia com duopólios que já não estão em discussão?

Recentemente, em plena convalescência por uma cirugia, o presidente Solís publicou um vídeo em que repete que não tem amigos e, que se alguém agiu em seu nome, o fez sem o seu consentimento:

Screen Shot of President Luis Guillermo Solís Rivera's video on Facebook

Captura de tela do vídeo do presidente Luis Guillermo Solís Rivera no Facebook

Digo a verdade e sustento o que digo.

Fica claro que a opinião pública sobre os representantes costarriquenhos foi a primeira vítima do escândalo. Os resultados da pesquisa de opinião realizada em outubro de 2017 apresentaram resultados que mostram uma notável mudança de opinião na percepção que os costarriquenhos têm da corrupção governamental. Assim, embora o desemprego continue sendo considerado o principal problema da Costa Rica, a corrupção permaneceu entre os primeiros da lista de preocupações dentre os habitantes.

Este artigo foi elaborado com a colaboração de profissionais costarriquenhos que preferiram se manter em anonimato.

Inicie uma conversa

Colaboradores, favor realizar Entrar »

Por uma boa conversa...

  • Por favor, trate as outras pessoas com respeito. Trate como deseja ser tratado. Comentários que contenham mensagens de ódio, linguagem inadequada ou ataques pessoais não serão aprovados. Seja razoável.