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Presidente de Moçambique conversa com internautas, mas só se dirige a quem lhe elogia

Categorias: África Subsaariana, Moçambique, Ativismo Digital, Governança, Mídia Cidadã

Em um país onde o menos de 5% da população têm acesso à internet [1], o Presidente de Moçambique acaba de adoptar uma nova forma de se comunicar com os cidadãos designada ”Pergunte ao Presidente”.

Filipe Nyusi é Chefe de Estado desde 2015 e chegou ao poder num momento em que o país enfrentava uma crise política marcada por um conflito militar entre o governo e o partido oposicionista RENAMO.

O governo de Nyusi agora lida com uma grave crise económica [2] do país, desencadeada após a descoberta de um bilhão de dólares em dívidas ocultas contraídas pelo presidente anterior Armando Guebuza. Essas dívidas fizeram com que países doadores suspendessem a assistência financeira da qual Moçambique depende.

Em sua página [3] do Facebook, Nyusi tem gravado vídeos tanto convidando os internautas a colocar questões quanto respondendo a comentários — mas apenas aqueles que lhe foram elogiosos.

Até agora, Nyusi gravou três vídeos respondendo aos internautas Meque Levi, [4] Lara Chicha [4] e Daudo Saide [5] que elogiaram sua iniciativa bem como sua a governação.

Mas nos comentários também abundaram as críticas. Uma das questões levantadas foi sobre o escândalo das dívidas ocultas. Marcos Miony [6] quis saber:

Até quando se espera o esclarecimento da dívida pública, que até no olhar dos cidadãos suspeita-se que a lentidão deriva do facto de uma das siglas ABCD possa pertencer a sua excelência!

Fatima Mimbire [7], do Centro de Integridade Pública, um instituto de pesquisa local que investiga corrupção, perguntou:

Senhor presidente, quando é que vamos ter uma auditoria aos projectos de exploração de recursos minerais no país, para assegurar que as empresas estão a pagar o que devem pagar ao Estado? Neste momento de crise há que apertar o cinto e isso implica que temos assegurar que todos pagam o que devem pagar ao Estado, em termos de impostos.

Lucas Chave [8] questionou o Presidente sobre o alto custo de vida que assola os moçambicanos:

Excelência Sr. Presidente da República, espero ser a sua conta oficial da rede social, tenho uma preocupação muito pontual a colocar que merece uma atenção especial, falo sobre o custo de vida que levamos, ate quando o povo moçambicano vai se sentir aliviado? Preço dos produtos alimentares tende cada dia que passa a subir, para não falar dos impostos e serviços.

No mesmo diapasão, Cris Smart Ebenezer Malate [9] perguntou:

A minha pergunta é simples: porquê é o Sr Presidente deixa o seu povo morrer a passos galopantes assim? o povo que o elegeu, a qual o Sr apelidou de patrão está a sofrer e muito. O preço de pão subiu, os produtos alimentares de primeira necessidade subiram, a EDM agravou as tarifas de energia, o chapa está prestes a subir. Será que o Sr Presidente se alegra pelo sofrimento do seu povo?

Valentim Victor [10], residente na Zambézia, província do centro do país, está preocupado com a qualidade das estradas:

Parabéns Excia, Moçambique já merecia um Presidente com esta humildade, interractividade com com o povo, mas gostaria de saber se existe um plano de reabilitar a estrada N1 em especial no troço Gorongosa-Caia? E se existe também um plano asfaltar o estrada Morrumbala-Zero?

Alguns internautas aguardam respostas às críticas, como Julião João Cumbane [11]:

As perguntas e a crítica, ainda que sejam mal feitas e nos causem alguma irritação à primeira, são melhores que os elogios, porque nos obrigam a reflectir. Os elogios têm o seu valor, quando são genuínos, porque nos informam de que trilhamos um bom caminho. Mas nem sempre é possível distinguir um elogio genuíno de uma adulação. Já a crítica, mesmo que motivada por inveja, encerra sempre algo de bom. Eu valorizo mais a crítica e os questionamentos do que os elogios, porque com eles aprendo mais.