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Censura depois da morte: cibernautas chineses choram em silêncio por prêmio Nobel Liu Xiaobo

Espaço de arte moderna dedicado a Liu Xiaobo no túnel de grafite da Universidade de Sidney, via @badiucao.

As cinzas de Liu Xiaobo, último defensor da democracia chinesa e crítico literário, foram jogadas ao mar perto da cidade de Dalian, região nordeste da China, no dia 15 de julho, dois dias depois de seu falecimento por insuficiência hepática.

Em entrevista a canais de televisão de Hong Kong, o irmão de Liu, Liu Xiaoguang, expressou seu “agradecimento e apreço ao Partido Comunista da China” por tratar do câncer de Liu Xiaobo e assumir a organização do funeral.

No entanto, partidários de Liu Xiaobo acreditam que o ativista foi enterrado no mar para evitar que o povo chinês fizesse homenagens na tumba do prêmio Nobel.

De fato, a maioria dos amigos de Liu não pôde assistir ao funeral, nem mesmo sua mulher, Liu Xia, que se encontra em prisão domiciliar.

Liu Xiaobo foi condenado em 2009 a 11 anos de prisão, por “incitar a subversão do estado de poder” através de sua participação na Carta 08, manifesto que pedia reformas democráticas na China. E ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 2010, por seu trabalho a favor dos direitos humanos.

Nas redes sociais, incluindo Weibo e WeChat, os investigadores documentaram um aumento significativo da censura após a morte de Liu Xiaobo. Segundo o grupo Citizen Lab de Toronto, por meio do qual se investigam os direitos digitais, já não são tolerados debates sobre Liu e seu trabalho.

No Facebook, Lokman Tsui, acadêmico de Hong Kong e pesquisador do Citizen Lab, resumiu os resultados do grupo:

For WeChat, before his death, discussion of Liu was allowed as long as it did not touch on certain sensitive topics such as “Charter 08” or his medical care. After his death, any mention of his name in English and Chinese (both simplified and traditional) is enough to get messages blocked. His death is also the first time we see image filtering in one-to-one chat, in addition to image filtering in group chats and WeChat Moments [which is equivalent to Facebook's news feed].

For Sina Weibo, there already was a ban on searches for Liu’s name in English and Chinese (both simplified and traditional). However, after his death, his given name (Xiaobo) alone is enough to trigger censorship, showing increased censorship on the platform and a recognition that his passing is a particularly sensitive event. Nevertheless, there is also evidence suggesting there continues to be genuine user interest in producing and finding Liu-related content using alternative keywords.

No WeChat, antes do falecimento de Liu, permitia-se falar sobre ele desde que não se tocasse em tópicos sensíveis como a “Carta 08″ ou seu tratamento médico. Depois de sua morte, qualquer menção de seu nome em inglês ou chinês (em versão simplificada ou tradicional) é suficiente para o bloqueio das mensagens. Seu falecimento marca também a primeira vez em que vemos um filtro de imagens em um chat privado, unido ao filtro existente em chats de grupo e no WeChat Moments (equivalente ao feed de notícias do Facebook).

No Sina Weibo, já se proibia buscar o sobrenome Liu em inglês e chinês (em versão simplificada ou tradicional). Contudo, depois de sua morte, a simples busca pelo nome (Xiaobo) já ativa a censura, o que mostra um aumento da censura à plataforma e que o reconhecimento de sua morte é uma questão particularmente sensível. Ainda assim, também há provas de que continua existindo um interesse genuíno dos usuários em produzir e buscar conteúdo relacionado a Liu através de palavras-chave alternativas.

Pela primeira vez, proibiu-se o envio de imagens em chats privados. Esquerda: usuário canadense envia a imagem de uma cadeira (politicamente simbólica) a um amigo na China. Direita: o receptor não vê a cadeira. Captura de tela do Citizen Lab.

A equipe de investigação acredita que a censura aumenta porque “as autoridades temem o potencial de uma ação coletiva” por um lado, e como tática para “assegurar as aparências ou evitar escândalos” por outro.

A morte de Liu Xiaobo tornou-se um acontecimento politicamente sensível para o Partido Comunista da China, já que Liu era considerado um dos dissidentes chineses mais moderados, por seu forte compromisso com a luta não violenta.

Participou dos protestos de 1989 a favor da democracia na praça Tiananmen, persuadiu os estudantes a se retirarem quando chegaram os militares e ficou com eles até o último momento. Ao invés de abandonar o país, foi condenado a dois anos de prisão, de onde seguiu defendendo uma transformação pacífica da política na China.

Voltou para a prisão anos depois por ser um dos autores da Carta 08. Em seu discurso mais conhecido, que pediu para ler em seu julgamento (o qual foi proibido), declarou “não tenho inimigos nem ódio”.

O Partido Comunista da China manteve em segredo a condição física de Liu até junho de 2017, momento em que o advogado de Liu confirmou que ele se encontrava em tratamento médico contra um câncer de fígado em estado avançado.

Desde esse momento, ganhou força uma campanha internacional que pedia a liberdade de Liu Xiaobo e Liu Xia.

Lotte Leicht, diretora da sede da Human Rights Watch da União Europeia, pediu:

Estimado Kofi Annan, nosso companheiro prêmio Nobel Liu Xiaobo está morrendo.
Ele tem um último desejo.
Por favor, ajude; peça ao governo chinês que o liberem junto com sua esposa.

Curtis S. Chin, ex-embaixador dos Estados Unidos da América, esperava que as autoridades chinesas tentassem manter as aparências permitindo que Liu Xiaobo deixasse o país:

Será a China o primeiro país desde a Alemanha nazista a deixar morrer um prêmio Nobel em detenção?
(N. do T.: O ex-embaixador se refere a Carl von Ossietzky, escritor e pacifista alemão. Ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 1935 e 1936, e que morreu sem receber o valor do prêmio).

As autoridades chinesas não se comoveram tanto e insistiram que Liu recebia o melhor tratamento possível na China. O porta-voz do Partido Comunista Chinês declarou no Global Times: “Hoje em dia, a China é mais forte e tem mais confiança, e não cederá à pressão do Ocidente”.

Assim como destaca Citizen Lab em seu informe, as autoridades chinesas reprimiram o tema mediante a censura do debate público sobre o estado de Liu. Também exerceram forte controle e manipularam a narrativa sobre sua doença e falecimento:

To control the narrative around Liu’s illness, the CPC strictly regulated physical access to him. It denied his request to receive medical treatment overseas, despite repeated calls from NGOs and governments, including from German Chancellor Angela Merkel, who asked Beijing for a “signal of humanity for Liu Xiaobo and his family.” Beijing nevertheless resisted, saying he was already receiving the best possible care in China and citing Liu’s fragile health, disagreeing with the medical opinion of two foreign doctors who visited Liu and who deemed him strong enough to leave the country.

Para controlar a narrativa sobre a doença de Liu, o PCC restringiu o acesso físico a ele. Negou seu pedido para receber tratamento médico no exterior, apesar dos frequentes pedidos de ONGs e governos, incluindo-se o da chanceler alemã Angela Merkel, que pediu a Pequim “humanidade para Liu Xiaobo e sua família”. No entanto, Pequim negou o pedido com o argumento de que Liu já recebia o melhor tratamento possível na China e citou seu frágil estado de saúde, em desacordo com a opinião de médicos estrangeiros que visitaram Liu e disseram que estava suficientemente forte para deixar o país.

Posteriormente, surgiram mais dados da embaixada alemã que indicavam que um médico havia visitado Liu.

Após o falecimento de Liu, parece que a informação e as imagens publicadas foram selecionadas com esmero. Nas fotos do funeral não se vê amigos de Liu. Liu Xia teve que agradecer pelo comparecimento de policiais vestidos à paisana:

Uma fila de policiais vestidos à paisana permanece ao lado da família de Liu Xiaobo no funeral.

O agradecimento televisionado do irmão de Liu Xiaobo, Liu Xiaoguang, ao Partido Comunista da China também indica outro acontecimento midiático preparado:

É triste ver como o irmão mais velho de Liu Xiaobo elogia o Partido e o Governo, e até mesmo agradece a humanidade deste último.

O funeral no mar foi interpretado como um ato cujo objetivo é eliminar a presença e a influência de Liu na China:

As cinzas de Liu Xiaobo foram espalhadas no mar, seguramente para garantir que não haja nenhum santuário nem lugar de peregrinação. Os amigos mais próximos continuam sem poder falar com a viúva.

Ainda assim, Zeng Jinyan, amigo de Liu Xiaobo, acredita que seu legado continuará:

“Posso prever que no futuro, ativistas e pessoas comuns irão ao mar em memória a Liu Xiaobo”.

Neste momento, Hong Kong talvez seja a única cidade da China em que os cidadãos podem chorar em público pela perda de Liu Xiaobo:

Em Hong Kong, os manifestantes fizeram de seu encontro de enlutados no escritório de representação de Pequim tão logo receberam a notícia da morte de Liu Xiaobo. Alguns choram.

No dia 15 de julho, centenas de pessoas estiveram em vigília em Hong Kong e pediram, ainda, que as autoridades colocassem um fim à prisão domiciliar da esposa de Liu:

Participantes saem aos Chater Gardens de Hong Kong para celebrar uma vigília pelo prêmio Nobel Liu Xiaobo

A mobilização continua nas redes, com a etiqueta #FreeLiuXia [liberem Liu Xia].

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