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“Cadeia assistencial” no Paraguai ajuda mães a estudarem sem ajuda do governo

Enquanto tenta obter um diploma em psicologia, Cristina Moreno Re (25) trabalha em uma loja que exige que ela se ausente de casa para trabalhar inclusive nos finais de semana. Fotografia de Juan Carlos Meza, utilizada com autorização.

O artigo a seguir é uma republicação de um trecho da série #PaísDeLasMujeres, que faz parte de uma parceria entre o Global Voices e a Kurtural.

Clara Guillén foi impedida de fazer um teste em uma faculdade de direito por ter levado sua filha para o campus com ela. “Venha estudar quando terminar de criar seus filhos”, disse Concepcion Sanchez, professora da Universidade Nacional da Assunção (UNA).

Em maio de 2016, Bethania Ruiz Díaz, estudante na mesma escola, teve a mesma experiência quando foi à aula com seu bebê de apenas alguns meses de idade.

María de Mar Pereira, a professora que a mandou embora, disse-lhe: “[Aqui] não é um berçário, e sim uma universidade”. Ela acrescentou que María deveria procurar alguém para ficar cuidando de seu filho.

“Não consegui responder porque fiquei atordoada, senti-me impotente e rebaixada”, diz Ruiz Diaz.

Sem terem a quem apelar, voltaram para casa

Embora os professores tenham mudado o discurso quando os casos foram tornados públicos, Guillén e Ruiz Diaz, como muitas outras mães estudantes universitárias, ainda enfrentam um sistema discriminatório contra as mães que desejam estudar diariamente.

O caso das duas mães estudantes fez com que o Centro Acadêmico da faculdade (CA) forçasse a criação de uma creche, mas a proposta não foi aceita. De acordo com Alejandro Koopmann, membro do CA, o projeto foi por água abaixo quando o Presidente Horacio Cartes vetou o ajuste financeiro necessário juntamente com o restante do orçamento geral, em 2017.

Apesar da crescente participação das mulheres no mercado de trabalho na América Latina, seus papéis historicamente de cuidadoras de crianças e trabalhadoras domésticas permanecem inalterados. Se não são as mães, são as avós, tias ou irmãs que fazem o “trabalho não remunerado” da região.

De acordo com uma pesquisa realizada pelo Escritório Geral de Estatística, Inquéritos e Censos (DGEEC), as mulheres paraguaias dedicam mais da metade do seu tempo ao cuidado familiar e às tarefas domésticas, até mais do que em países como Argentina e Uruguai.

“A ideia de que o trabalho remunerado pode desvincular uma mulher [de responsabilidades caseiras] ainda não ocorreu”, disse Silvia Federici, escritora e ativista feminista, em entrevista recente ao El Diario.

“As mulheres hoje têm até dois empregos e muito menos tempo para coisas como participar de movimentos sociais e políticos”, diz ela.

Ou sequer para estudar.

Duas irmãs, histórias semelhantes

Cristina Moreno Re, de 25 anos, é uma estudante de psicologia do quarto ano na UNA, que também trabalha como vendedora em uma loja e é mãe do Gaspar, de cinco anos de idade.

“Cuidar de crianças é um trabalho cansativo e que consome energia”, diz ela. Mas perante seus colegas de trabalho, “as mulheres não podem se cansar de cuidar de seus filhos”.

Ela trabalha em média 42 horas por semana, enquanto o cuidado com Gaspar é dividido principalmente entre sua mãe e a mãe do pai de Gaspar, de quem está separada.

Ela se considera uma pessoa de sorte. Desde que Gaspar começou o jardim de infância, ela conseguiu organizar uma programação que funciona para toda a família, e ainda consegue levá-lo para a escola todos os dias. Isso é um privilégio no Paraguai, onde apenas três em cada dez crianças têm acesso à educação pré-escolar.

Talvez o mais importante, o fato de que Gaspar vai ao jardim de infância, também permita que ela venha conseguir tirar seu diploma. Mas na Faculdade de Filosofia da Universidade Nacional de Assunção não há alternativas para mães de crianças pequenas.

“A faculdade geralmente permite que as crianças permaneçam na sala de aula. Todos os anos, a demanda por creche [cresce], mas a [administração] sempre argumenta que não há orçamento para isso “, diz Jazmin Colonel, vice-presidente da União de Estudantes da Universidade de Assunção.

Embora não haja dados sobre o número de alunas que abandonam a escola para poder cumprir suas responsabilidades em relação aos cuidados de seus filhos, Colonel diz que muitas acabam fazendo isso.

A situação das mães estudantes em universidades privadas não é muito diferente. A irmã de 24 anos de Cristina, Romina Moreno Re, frequenta uma escola de veterinária na Universidade de Columbia, na capital Assunção.

Ela entrou em trabalho de parto logo após uma prova da faculdade. Dar à luz a filha Alicia impediu que ela terminasse os testes.

“De acordo com eles [os diretores da Universidade], já era tarde demais quando solicitei um adiamento [para ter uma prorrogação para terminar as provas]”, disse ela.

Da mesma forma que Cristina, Romina Moreno também depende de sua mãe para cuidar de sua filha, que tem agora 1 ano e oito meses.

“Minha mãe trabalha em uma loja […] Se ela ou minha irmã não podem cuidar da minha filha, então meu marido fica com ela. Ele cuida dela, mas não tanto quanto eu, que faço isso 20 horas por dia”, explica Romina.

A diferença nas expectativas da sociedade quanto ao tempo que os homens e as mulheres devem passar cuidando dos seus filhos se reflete nos diferentes períodos permitidos para a licença maternidade e paternidade no Paraguai, onde a licença maternidade é de 18 semanas, enquanto a licença paternidade é de duas semanas.

Romina costumava trabalhar organizando eventos sociais, mas ela está fazendo faculdade atualmente. A maternidade mudou muitos aspectos de sua vida.

“As pessoas já não convidam você para sair ou pedem que você venha com seus filhos; se você chegar sozinha, eles perguntam com quem você os deixou… [Isso é] algo que nunca é questionado aos homens”, diz ela.

Se o acesso à educação pré-escolar é limitado, a cobertura dos serviços de assistência à infância, seja pública ou privada, é praticamente inexistente. O Secretário responsável pela Secretaria da Criança no país diz que nem sequer tem dados oficiais sobre esses serviços.

A repercussão dos eventos que ocorreram na faculdade de direito na UNA inspirou um projeto de lei no Congresso apresentado pelo Deputado Hugo Rubin. A lei obrigaria as universidades públicas e privadas a destinar verba para instalação de creches, mas ainda está aguardando aprovação.

Uma vez que “a disponibilização de cuidados infantis ainda não atingiu a categoria de direito social”, diz a socióloga Karina Batthyány, o maior desafio é enfrentado pelas mulheres nas classes médias e baixas, que muitas vezes têm que decidir entre o trabalho e o estudo.

Para mães como Bethania Ruiz, Cristina e Romina Moreno, a tradicional “cadeia assistencial” — mães, irmãs e sogras — é a única forma de apoio que existe.

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