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O Massacre de Thiaroye: um episódio vergonhoso do período colonial francês na África

Imagem do filme Le Camp de Thiaroye

Uma tragédia sem precedentes ocorreu no dia 1° de dezembro de 1944 no acampamento militar de Thiaroye, um vilarejo nos arredores da capital de Senegal, Dakar. Trinta e cinco tirailleurs senegaleses foram mortos, segundo dados oficiais, apesar de outras fontes afirmarem que este número ultrapassa 300 mortos, executados por tropas coloniais após protestarem pela falta de pagamento dos soldos (tirailleur, em português, corresponde a um fuzileiro ou atirador de elite). O público em geral só ficou ciente dessa tragédia a partir de 1988, com o lançamento do filme Camp de Thiaroyedo cineasta e escritor senegalês Sembène Ousmane, uma produção conjunta de Senegal e Argélia. Esse massacre apresenta de forma sintomática o desdém da potência colonial francesa pelos soldados africanos que lutaram pelo país na Segunda Guerra Mundial. O filme foi banido na França por 17 anos até 2005, quando foi lançado em DVD.

A página do Facebook Massacre du 1er Décembre 1944 : CAMP DE THIAROYE (Massacre de 1º de dezembro de 1944: CAMP THIAROYE) foi criada em homenagem aos atiradores africanos, que foram vítimas de um massacre perpetrado pelos seus companheiros de farda franceses, com quem combateram as forças nazistas. O desenrolar do incidente é relembrado abaixo:

On December 1, 1944, African soldiers, liberators of France, were massacred by… France itself. These African servicemen, commonly known as the Senegalese Tirailleurs, had committed one crime: that of being African.

Indeed, how else could the assassination they suffered be explained? These African Tirailleurs*, who mostly had been recruited by force and who had repeatedly been told that France is the motherland, fought the Nazi enemy with conviction and finally triumphed. They were proud of that victory and were afterwards demobilized, arriving at Camp Thiaroye* in Senegal on November 21, 1944. In spite of four long years of absence, the trauma of war, and the loss of their many comrades who perished in combat or were shot by the Nazis, their faces shone with happiness to finally be reunited with their families. They did not suspect that they would never again see their loved ones or home countries, for those originating from other parts of the continent. There were 1,280 of them, coming from all over French West Africa.

On November 30, 1944, however, there was a revolt at Camp Thiaroye. It came about after they demanded to be paid their salary arrears and demobilization allowance, which had already been denied to them in France before they returned to Africa. They thus took General Damian as hostage. The night of December 1, 1944, the battalion of Saint-Louis stormed the unarmed camp without warning. There were about 30 survivors who were condemned to one to ten year prison terms, fined, and denied their mobilization pay. They were only released in 1947, by the then French president Vincent Auriol. They were not restored their rights and were not entitled to a retirement pension.

No dia 1º de dezembro de 1944, soldados africanos, que lutaram pela liberdade da França, foram massacrados pela…França. Esses militares africanos, comumente conhecidos como tirailleurs senegaleses, cometeram só um crime: ser africanos.

De fato, há alguma outra forma de explicar o assassínio perpetrado contra eles? Esses tirailleurs africanos*, muitos deles recrutados à força e condicionados a ver a França como sua pátria, combateram os nazistas com convicção e finalmente triunfaram. Orgulharam-se da vitória, mas foram posteriormente desmobilizados, retornando ao Camp Thiaroye*, em Senegal, no dia 21 de novembro de 1944. Apesar de terem ficado por quatro longos anos longe de casa, do trauma da guerra, e da perda de muitos companheiros em combate ou abatidos pelos nazistas, seus rostos transbordavam de alegria por finalmente poderem se reunir com seus familiares. Os combatentes oriundos de outras partes do continente nem suspeitavam de que jamais voltariam a ver seus entes queridos ou sua terra natal. Eram 1280 ao todo, originários de toda a África Ocidental pertencente à França.

Contudo, no dia 30 de novembro de 1944, houve um motim no Camp Thiaroye, após os tirailleurs exigirem o pagamento de seus soldos atrasados e a gratificação de localidade especial, que já lhes haviam sido negadas pelo governo francês antes de retornarem para a África. Com isso, eles tomaram o general Damian como refém. No dia 1º de dezembro, à noite, o batalhão de Saint-Louis fez um ataque surpresa ao acampamento desguarnecido. Aproximadamente 30 sobreviventes foram condenados de um a dez anos de detenção, multados, além de ter-lhes sido negado a gratificação e só foram libertados em 1947, pelo então presidente francês Vincent Auriol. Entretanto, não tiveram seus direitos restituídos e não puderam receber pensão militar.

Léopold Sédar Senghor, uma das pouquíssimas figuras públicas a denunciar este crime colonial, dedicou um poema às vítimas em dezembro de 1945, além de ter escrito um artigo sobre a questão na edição de julho de 1945 da revista Esprit. Em contrapartida, o governo francês tentou minimizar na época a contribuição desses soldados em uma tentativa de se safar de pagar o que era devido aos soldados, antes de executá-los. O Comitê de Vigilância de Utilidade Pública da História (Comité de Vigilance face aux usages publics de l’histoire), em uma carta com uma petição endereçada ao presidente François Hollande, desmascarou as mentiras do Estado, denunciando a atitude das autoridades francesas na questão:

Stripped of their rights.
These men had fought for France and demanded to be paid for their time as POWs. Their request had been refused by the Dakar military authorities, which was a transgression of the regulations at the time.
This despoliation was covered up by the then Ministry of War. It falsely stated in a circular dated December 4, 1944 – thus after the massacre – that the repatriated soldiers had received the totality of their compensation before their departure from France.
A massacre premeditated and concealed.
Aiming to silence the legitimate claims of these men, an operation of the armed forces was mounted to crush/diminish the rebels. To conceal the massacre, certain officers produced damning reports and fabricated an official account of a mutiny. In these reports, the ex-prisoners of war are described as being paid by the Germans and heavily armed. In order to justify the heavy response, they were accused of being the first to shoot.
Destituídos de seus direitos.
Esses homens tinham combatido pela França e exigiam ser recompensados pelo tempo que ficaram detidos. O pedido deles foi negado pelas autoridades militares de Dacar, o que foi uma transgressão dos regulamentos na época.
Essa espoliação foi encoberta pelo Ministério da Guerra, que fez uma declaração falsa por meio de uma circular datada de 4 de dezembro de 1944 — logo após o massacre — afirmando que os soldados repatriados haviam recebido o montante total da compensação antes de partirem da França.
Um massacre premeditado e encoberto.
Com o intuito de silenciar as pretensões legítimas desses homens, uma operação das Forças Armadas foi montada para debelar/enfraquecer os insurgentes. Para encobrir o massacre, alguns oficiais forjaram relatórios condenatórios e fabricaram versões oficiais de um motim, alegando que os ex-prisioneiros de guerra foram pagos pelos alemães e que estavam fortemente armados. A fim de justificar a reação severa, eles foram acusados de terem atirado primeiro.
Por décadas, essa tentativa de apagar todos os traços do massacre teve tal êxito que, até hoje, 73 anos depois, ainda não sabemos o número de soldados que foram massacrados ou o local onde estão seus restos mortais. Um artigo de Benoit Hopquin, publicado no caderno Cultura e Ideias (culture et idées) do Le Monde, de 23 de março de 2013, conta os esforços da historiadora Armelle Mabon nesse quesito. Docente da Universidade do Sul da Bretanha e especialista em prisioneiros de guerra das ex-colônias francesas, Armelle lutou para denunciar as mentiras divulgadas pelo Exército francês e trazer a verdade desse crime à tona:

The shooting began shortly after 9:00am, but what followed isn't clear. The reports are so contentious that the historian has to become a sort of detective. Testimony written by Lieutenant-Colonel Le Berre diverges from that of Battalion Chief Le Treut, Captain Olivier, Colonel Carbillet, General Dagnan, Lieutenant-Colonel Siméoni, Gendarmerie Lieutenant Pontjean, Colonel Masle, or General de Perier, who initiated a commission of inquiry in 1945. Certain circulars and reports are nowhere to be found. “They’ve disappeared,” explains the historian, who explored the various centers where the documents of the time are preserved, in France and in Senegal.

Successive accounts communicate the idea of a response to machine or submachine gunfire from the mutineers. General Dagnan had a list made of the weapons allegedly found. Armelle Mabon had this list examined by experts from the Union française des amateurs d’armes (French Association of Arms Enthusiasts). Something doesn’t add up in this inventory, and the response to it – a tank, two half-track vehicles, and three armored cars – is totally unjustified.

Officially, 35 sharpshooters were killed on December 1, the figure used by François Hollande in his speech in Dakar. Twenty-four were reported to have died during the attack and eleven at the hospital. But General Dagnan’s December 5 report cited “24 killed and 46 wounded transported to the hospital and deceased thereafter,” for a total of 70 victims. “What could he have stood to gain by overstating the number of deaths?” asks the historian, who gives credence to this last figure.

Os tiros começaram pouco depois das 9 da manhã, mas ainda não foi esclarecido o que ocorreu depois. Os relatos são tão discordantes entre si que não bastava ser historiador, mas um tipo de detetive. Um depoimento por escrito do tenente-coronel Le Berre difere dos testemunhos do chefe de batalhão Le Treut, do capitão Olivier, do coronel Carbillet, do general Dagnan, do tenente-coronel Siméoni, do tenente da gendarmeria Pontjean, do coronel Masle e do general de Perier, que iniciaram uma comissão de inquérito em 1945. Algumas circulares e relatórios não foram encontrados. ‘Desapareceram’, explica a historiadora, que examinou centros onde os documentos da época são preservados na França e no Senegal.

Relatos sucessivos apresentam a ideia de uma reação a tiros de metralhadora ou submetralhadora dos amotinados. O general Dagnan possuía uma lista com os armamentos que foram supostamente encontrados. Especialistas da Associação Francesa de Apreciadores de Armas (Union française des amateurs d’armes) examinaram essa lista a pedido de Armelle Mabon. Algo não se encaixa nesse inventário, e a reação, com um tanque, duas semilagartas e três veículos blindados, é totalmente injustificada.

Oficialmente, 35 atiradores foram mortos no dia 1° de dezembro, segundo o presidente francês François Hollande durante seu discurso em Dacar. Afirma-se que 24 deles morreram durante o ataque, e que 11 faleceram no hospital. Contudo, o relatório do dia 5 de dezembro do general Dagnan apresenta ‘24 mortos e 46 feridos transportados até o hospital, que vieram a falecer posteriormente’, de um total de 70 vítimas. ‘O que ele teria ganho aumentando o número de mortes?’, questiona a historiadora, que dá crédito à última cifra.

Na ocasião de um colóquio sobre os massacres coloniais organizado na Universidade do Sul da Bretanha, em Lorient, do dia 27 ao dia 29 de novembro de 2014, Catherine Coquery-Vidrovitch, uma historiadora francesa, especialista sobre a África e professora emérita da Universidade Paris Diderot, escreveu no site do Comitê de Vigilância de Utilidade Pública da História:

We still don't know where they are buried, probably in a mass grave nearby or in the small, forgotten military cemetery of Thiaroye. Jean Suret-Canale was one of the very first to evoke this episode in Tome II of his Histoire générale de l’Afrique occidentale (1963). I heard about it towards the end of 1970 from some Senegalese friends who had a vague idea of what had happened. I went looking for the cemetery but had trouble finding it, since no one knew where it was. It was hidden behind a small wall not very far from the road heading towards the Petite Côte. Today it has been restored and is well maintained.

Ainda não sabemos onde eles estão enterrados, provavelmente em uma vala comum nos arredores ou no pequeno e abandonado cemitério militar de Thiaroye. Jean Suret-Canale foi um dos primeiros a evocar este episódio no seu segundo livro de História Geral da África Ocidental (1963). Ouvi falar dele por volta do final dos anos 70 graças a alguns amigos senegaleses que tinham uma ideia vaga do que havia acontecido. Fui à procura do cemitério, mas foi difícil encontrá-lo, já que ninguém sabia onde estava localizado. Eu o encontrei atrás de um pequeno muro não muito longe da estrada em direção a Petite Côte. Atualmente, ele se encontra restaurado e bem preservado.

Em novembro de 2014, através da voz do presidente Hollande, a França rendeu homenagem às vítimas do massacre, apesar de não terem sido apresentadas desculpas formais. A França dificultou a obtenção de cidadania aos tirailleurs senegaleses mesmo depois de 70 anos do fim da Segunda Guerra Mundial.
Na África, foram feitos alguns tributos em nome dos soldados. Senegal instituiu o Dia dos Tirailleurs (Journée des tirailleurs) em memória de todos os soldados que lutaram pela França. O tema este ano foi Os Acontecimentos em Thiaroye: história e memória (Les évènements de Thiaroye : histoire et mémoire) Em Bamako, no Mali, um monumento é dedicado especialmente às vítimas de Thiaroye.

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