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Após anos de casadas, mulheres indianas ousam dizer os nomes dos maridos pela primeira vez

Mulheres se reúnem no pequeno vilarejo indiano de Gumla Jam Gayi, em Jharkhand. Foto do Flickr, de Chris Freeman. CC BY-NC 2.0

Este post foi escrito por Kayonaaz Kalyanwala e foi originalmente divulgado na Video Volunteers, uma organização sem fins lucrativos de produtores de mídia de vilarejos e favelas da Índia premiada internacionalmente. Esta versão editada foi publicada aqui como parte de um acordo de compartilhamento de conteúdo.

Em muitas partes da Índia, a mulher precisa fazer um enorme esforço para nunca pronunciar o nome do marido nem dos mais velhos da família. Em vez disso, ela deve usar um pronome ou chamá-lo de “pai do meu filho”. De Chhattisgarh, Maharashtra a Uttar Pradesh, mulheres ratificam essa obrigação social como forma de respeito ao marido e vivem em constante medo das consequências caso não sigam tal norma, mantendo viva essa prática social. No ano passado, um kangaroo court [espécie de tribunal informal e arbitrário existente em algumas regiões do planeta] determinou que Malati Mahatoto, habitante do estado de Odisha, fosse expulsa do vilarejo onde morava e proibida de ver parentes e amigos, após chamar um familiar pelo primeiro nome.

Enquanto muitos homens também reproduzem a tradição e evitam chamar as esposas pelo nome, eles sofrem bem menos censura que as mulheres — ou nenhuma — quando transgridem as normas.

Em um pequeno vilarejo chamado Walhe, na cidade de Pune, em Maharashtra, nove mulheres, incluindo profissionais de saúde e esposas, criaram um clube exclusivo que rapidamente tornou-se o assunto mais falado na comunidade. Um espaço só delas para discutir e debater as nuances do patriarcado. O clube é um entre os 56 que existem hoje em 13 estados da Índia e faz parte da campanha #KhelBadal, lançada pela Video Volunteers para desconstruir esse sistema social no país. Rohini Pawar é quem dirige os clubes e há sete anos usa sua câmera de vídeo para expor práticas sociais de seu país que vão desde o casamento infantil ao ostracismo em que vivem pessoas com HIV/AIDS. Ela conta como esses clubes representam um espaço seguro para essas mulheres, que consequentemente estão se tornando agentes de mudança em suas comunidades.

O primeiro vídeo que Rohini decidiu apresentar para ser discutido no clube foi sobre as mulheres não poderem chamar os maridos pelo primeiro nome. A escolha foi justamente para abrir o debate sobre o patriarcado a partir de um tema com o qual as mulheres tivessem familiaridade. Não falar o nome dos maridos é uma prática que elas seguiam obedientemente sem nunca questioná-la, de acordo com Rohini:

This custom indicates that a woman respects her husband and wants him to live a long life. A woman who doesn’t follow it will be seen as cunning, a woman with no morals. The tradition is so deeply rooted that we hadn’t given it thought until this discussion club.

Esse costume indica que a mulher respeita o marido e deseja que ele tenha vida longa. Uma mulher que não obedece essa regra será vista como maliciosa, uma mulher sem moral. A tradição está tão profundamente enraizada que antes da conversa no clube sequer parávamos para pensar sobre isso.

Para começar, Rohini fez um teste em casa, onde nunca havia chamado o marido pelo nome. Ela mostrou o vídeo do clube para o marido e a sogra. Rohini relembra:

My mother-in-law and husband were quiet for a long time after the video ended. Prakash, my husband, turned around and told me to call him by his name from then on.

Minha sogra e meu marido ficaram em silêncio por um longo tempo depois que acabou o vídeo. Prakash, meu marido, então se virou e disse para que eu o chamasse pelo nome a partir daquele momento.

Fortalecida e mais confiante, Rohini criou o primeiro clube de discussão. Muitas mulheres desconheciam a palavra “patriarcado”, algumas consideravam esse pensamento positivo, pois significava que os membros mais jovens da família, especialmente meninas e mulheres, continuariam protegidos. O encontro começou com Rohini apresentando um vídeo sobre o assunto em Uttar Pradesh. Após assistirem o vídeo, as mulheres fizeram um exercício para continuar a discussão. Rohini pediu a cada participante para que dissesse o nome do marido com variações de emoções — feliz, com raiva, triste, apaixonada e assim por diante. Ela perguntou a todas: “Se não podemos dizer o nome de nossos maridos e eles podem nos chamar do que bem entenderem, isso significa que eles não nos respeitam? Não deveria ser igual para ambos?”.

“Algumas dessas mulheres estão casadas há 30 anos e ali foi a primeira vez que elas pronunciaram os nomes de seus maridos”, conta Rohini Pawar, do vilarejo de Walhe, em Maharashtra, sobre essa ruptura de um costume secular. Rohini relembra:

During the activity, one woman was so shy she just giggled for the duration of the exercise; another decided to vent all her cumulative frustration against him and his family by cursing him. The look on their faces was ecstatic. I don’t think I’ll ever forget it.

Durante a atividade, uma mulher estava tão tímida que só deu risadinhas durante toda a duração do exercício. Uma outra decidiu liberar toda a frustração acumulada que tinha do marido e da família dele, maldizendo-o. Elas ficaram eufóricas. Acho que nunca esquecerei desse dia.

Ainda sob o efeito da adrenalina de superar um costume tão antigo, as mulheres decidiram tentar chamar os maridos pelo nome quando chegassem em casa. E elas mantiveram a palavra. Nos dias que se seguiram, Rohini ficou sabendo das consequências dessa atitude.

O marido de uma das mulheres procurou Rohini para perguntar que ideias ela estava colocando na cabeça das mulheres: a esposa não parava de chamá-lo pelo nome. Outra participante do clube decidiu fazer isso na hora do jantar em frente da família inteira. Quando a sogra encarou-a com olhos arregalados, ela se assustou e disse que havia sido um engano. Outra mulher disse, “Rohini me disse para fazer isso.” O marido de outra participante foi menos compreensivo e a situação acabou em violência.

Rohini conta como mulheres tentaram pôr fim a outras práticas como utilizar o Bindi, ponto vermelho que as casadas usam no meio da testa:

Why do only women have to show that we’re married? I told my husband that if he’d wear vermillion, I’d do it too. He just laughed, and I’ve stopped wearing it.

Por que só as mulheres devem mostrar que são casadas? Disse ao meu marido que se ele usasse o Bindi, eu também usaria. Ele apenas riu e eu parei de usá-lo.

As demais não pararam completamente, mas se sentem mais à vontade para não usá-los em alguns dias.

Para muitas mulheres, esse clube para debates é um espaço seguro, onde podem compartilhar suas opiniões e aspirações. “Fazemos uma excursão nos dias de debate. Levamos comida e água e vamos para o campo. Não quero que as mulheres fiquem preocupadas se estão ouvindo nossa conversa”, conta ela. Há alguns meses, elas comemoraram aniversários com direito a bolo pela primeira vez em suas vidas. Dançaram, cantaram e conversaram sobre assuntos que nunca haviam sequer imaginado.

Rohini conta:

I have worked on these issues for so many years and even I haven’t talked about some of these things, like how our identities are tied to our husbands’, this honestly. It feels great to be able to say some things out loud, no matter how small they seem. At one discussion club, we were talking about the concept of honour and how it is related to clothes. Many women in the group haven’t worn anything but saris since they got married. Most are fine with it but some wanted to wear a salwar-kurta; they didn’t dare.

Tenho trabalhado com esses assuntos por tantos anos e mesmo assim não havia conversado sobre algumas questões, por exemplo, como nossas identidades estão amarradas às de nossos maridos. É maravilhoso poder falar as coisas em voz alta por menos importantes que elas pareçam ser. Em uma das discussões, falamos do conceito de honra e como isso está relacionado à vestimenta. Muitas mulheres do grupo nunca usaram nada além de saris [vestimenta indiana feminina de tecido inteiro] desde que se casaram. A maioria não se importa com isso, mas algumas gostariam de vestir um salwar-kurta [conjunto de túnica e calça de algodão]. Elas nunca tiveram coragem, no entanto.

Após muito debate e muita conversa sobre os méritos de escolher as próprias roupas, a moralidade relacionada ao saris e outras questões, Rohini levou escondido suas kurtas (túnica tradicionalmente masculina) para o clube um dia para que as mulheres pudessem experimentá-las. O grupo agora planeja uma viagem a Goa para que possam usar jeans, e Rohini tem certeza de que conseguirá organizar o tour.

Ao ser perguntada se ela acredita que houve mudanças nos cinco meses que passaram desde o primeiro dia de discussão do grupo, Rohini declara que a guinada apenas começou:

Our steps have been small. Many women tried it a few times but then they stopped saying their husband’s name. Some, including myself, do it but only when they are alone and no other family member is around. Only one or two continue to say their husbands’ names; now only one or two women wear vermilion on their forehead all the time.

Nossos passos foram pequenos. Muitas mulheres tentaram algumas vezes, mas então pararam de chamar os maridos pelo nome. Algumas, como eu, ainda o fazem, mas quando estão sós com eles, sem nenhum parente por perto. Apenas uma ou duas continuam chamando os maridos pelo primeiro nome. Agora, apenas uma ou duas usam o Bindi na testa todo o tempo.

As mulheres do clube de debate sabem que as mudanças que desejam realizar em suas vidas, um acordo para que tenham mais autonomia para ir e vir ou a escolha das suas próprias roupas, são um um rio turbulento de se navegar. Apoiando-se e encorajando umas às outras, elas também sabem que estão juntas no mesmo barco, como explica Rohini:

Each one of us is a victim of patriarchy. I am too. But this club gives each one of us the confidence that change will come. And I know that it won’t be limited to just 30 families, there will be a chain reaction when every woman at the club goes home and shares what we talk about and do. We’re all in it together.

Cada uma de nós é vítima do patriarcado. Eu também sou. Mas esse clube nos traz a confiança de que a mudança chegará. E sei que não se limitará apenas a 30 famílias, haverá uma reação em cadeia, quando cada mulher do clube for para casa e compartilhar o que conversamos e o que fazemos. Estamos nisso juntas.

Os correspondentes comunitários da Video Volunteers pertencem a comunidades marginalizadas da Índia e produzem vídeos sobre histórias que não aparecem nos jornais. Essas histórias são “notícias feitas por quem as vive”, por isso oferecem um contexto hiperlocal de cobertura sobre temas como direitos humanos e desafios para o desenvolvimento.

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