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A objetificação das mulheres na imprensa do Sri Lanka

Uma mulher num ponto de ônibus em Anuradapura, Sri Lanka. Imagem: Adam Jones, via Flickr CC BY 2.0

Este artigo da Deepanjalie Abeywardana foi originalmente publicado no Groundviews, site premiado de jornalismo cidadão do Sri Lanka. Como parte do acordo de partilha de conteúdo entre Groundviews e Global Voices, uma versão editada do artigo segue abaixo. 

A imprensa do Sri Lanka continua a burlar as normas de jornalismo ético. Isso inclui imagens grotescas, fotos enganosas, comentários errôneos sobre eventos, uso de rótulos racistas para denotar certos grupos étnicos, erros de atribuição e negação do “direito de resposta” nas reportagens. Ao mesmo tempo, a representação das mulheres na mídia local nos últimos anos violou várias normas de ética, reforçando estereótipos negativos que podem influenciar a percepção geral das mulheres na sociedade.

Neste contexto, o artigo mostra observações de como as mulheres são retratadas na imprensa cingalesa. A análise é baseada nos dados coletados pela Ethics Eye, uma plataforma no Facebook que monitora e sinaliza as violações midiáticas de sete jornais cingaleses: Dinamina, Divaina, Lankadeepa, Mawbima e as edições de domingo do Divaina, Lankadeepa e Mawbima.

A objetificação sexual das mulheres

No Sri Lanka, alguns jornais cingaleses violam as orientações éticas descrevendo as mulheres como objetos sexuais. Imagens e referências sexistas são frequentemente utilizadas para objetificar as mulheres na grande mídia. Alusões à seminudez, que não pertecem ao contexto do artigo publicado, também prevalecem. Por exemplo, a coluna de um jornal cingalês chama uma mulher de “baduwa” (objeto), insinuando que todas a mulheres não passam disso. A mesma publicação insinuou que as atrizes do Sri Lanka trabalham na “profissão mais antiga do mundo”, ou seja, que elas são todas prostitutas.

Além disso, uma série de artigos publicados em um jornal cingalês continham imagens de mulheres estrangeiras de biquíni, o que não era nada relevante naquela reportagem. Também não havia nenhum termo de isenção de responsabilidade para indicar que essas fotos, capturadas com câmeras de longo alcance, foram obtidas sem permissão. De acordo com o Código Profissional publicado pela Guilda Editorial do Sri Lanka, o uso de câmeras com lentes de longo alcance para fotografar as pessoas, sem permissão, tanto em lugares públicos quanto em propriedades particulares, é inaceitável – a não ser que as imagens abranjam algo de utilidade pública.

Via Ethics Eye

Ao mesmo tempo, o mesmo jornal que rotulou todas a atrizes como prostitutas denomina as mulheres como “guardiães dos valores morais e culturais” em outro artigo. Este comentário foi feito em crítica a uma notificação do Diário Oficial emitida pelo Ministério da Educação, que interditou a imposição de códigos de vestimenta para mulheres matriculadas nas escolas públicas e patriculares.

Frequentemente, descrições reducionistas como “linda” aparecem na imprensa, inclusive em referência às vítimas e sobreviventes de abuso sexual. Alusões sobre a aparência das vítimas e sobreviventes de estupro, de acidentes e outras ocorrências foram encontradas em vários artigos da imprensa cingalesa. Aliás, a cobertura de detalhes irrelevantes e desnecessários (como a fisionomia das mulheres) é um aspecto muito comum nos jornais do país. Por exemplo, no ano passado, quando duas estudantes em Dehiwela morreram atropeladas por um trem, seis dos sete jornais cinegalses que cobriram o incidente fizeram referências as suas aparências.

Via Ethics Eye

O uso desses termos, que são tanto irrelevantes quanto sexistas, levantam sérias questões sobre como a imprensa no Sri Lanka pode cumprir suas obrigações éticas.

A objetificação das mulheres na imprensa reforça os estereótipos delas. Além disso, a objetificação sexual e a injúria contra as mulheres na imprensa levam ao trivialismo da violência contra a mulher. Recentemente, o jornal britânico The Guardian mostrou que a sensualização e objetificação das mulheres são diretamente ligadas ao desempenho de ideologias machistas e atitudes sexistas.

O sensacionalismo da violência contra as mulheres

Quando se trata de problemas sociais chocantes ou de grande carga emocional (como a violência e o abuso de drogas), o Código de Conduta Profissional dita que a imprensa deve apresentar todos os fatos, opiniões, fotos e ilustrações com discrição e sensitividade, uma vez que o dever dessas organizações é o de servir ao interesse público. Contudo, alguns jornais cinegaleses violam essa norma com artigos que sensacionalizam e romantizam atos de violência contra as mulheres, inclusive o estupro e o abuso sexual. Por exemplo, alguns jornais fazem referência ao “Cupido” quando mencionam suspeitos ou perpetradores de crimes sexuais, um termo que romantiza o ato em si. Ao mesmo tempo, as vítimas e sobreviventes levam culpa por causa das roupas que usavam quando foram abusadas sexualmente, ou até por estarem no lugar errado, na hora errada.

Quando os jornais responsabilizam as mulheres pelos estupros, isto não apenas afeta a maneira pela qual elas são vistas pela sociedade, mas também promove a impunidade dos autores destas violências.

Em seus esforços de sensacionalizar uma manchete para que seja mais atrativa ao público, a imprensa abandona uma das suas funções mais importantes: a de conscientizar a população sobre os crimes sexuais. Casos de estupro, violência doméstica e outros tipos de abuso são tabus na sociedade, e muitas vezes passam despercebidos. Reportagens sensacionalistas distraem o público de aspectos importantes, como a prevenção e mitigação desses crimes. Inclusive, há uma falta de consciência sobre os recursos de suporte para vítimas de crimes sexuais, como organizações que trabalham com sobreviventes e linhas de ajuda para as vítimas.

O que pode ser feito?

O primeiro passo que deve ser tomado para remediar a situação é a conscientização sobre as violações éticas realizadas pelos jornais quando divulgam notícias sobre as mulheres.  No Dia Internacional da Mulher de 2017, a Ethics Eye publicou um vídeo que demonstra algumas das normas violadas pelos jornais cingaleses. Além disso, o desencadeamento de debates sobre o assunto e a disseminação de informações ajudarão o público a exigir que jornalistas e editores tomem responsabilidade pelos seus erros, e pelo estrago que as reportagens danosas podem fazer. Finalmente, é imperativo que os jornalistas do Sri Lanka sejam treinados em ética midiática, principalmente quando se trata de reportagens discriminatórias e sexistas sobre as mulheres.

Deepanjalie Abeywardana chefia o departamento de pesquisa midiática do Verité Research, e também participa do órgão independente de monitoramento da mídia Ethics Eye.

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