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Para opositores, candidato a diretor-geral da OMS Tedros Adhanom representa o regime repressivo da Etiópia

Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus, Ministro da Saúde da Etiópia, dando uma palestra na Cúpula de Planejamento Familiar de 2012 em Londres. Imagem do usuário do Flickr UK DFID. CC BY-SA 2.0

Alguns etíopes estão protestando impetuosamente contra Tedros Adhanom, candidato da Etiópia para o cargo de diretor-geral da Organização Mundial de Saúde.

Em Janeiro, Tedros, ex-Ministro de Saúde e de Relações Exteriores na Etiópia, foi escolhido entre um grande grupo de nomeados para concorrer ao posto, junto com Sani Nishtar do Paquistão e David Nabarro do Reino Unido. Faltam poucas semanas para que os Estados-membros elejam um dos três finalistas para substituir a atual diretora-geral Margaret Fu-chun.

Com uma campanha bem-bancada, Tedros é considerado um forte concorrente. Sua candidatura foi endossada pela União Africana, e, ainda na semana passada, recebeu o apoio de Andrew Mitchell, ex-secretário de Desenvolvimento Internacional do Reino Unido.

Contudo, ele está enfrentando forte oposição dos cidadãos de sua terra natal.

Etíopes que se sentem marginalizados pelo governo estão protestando implacavelmente na internet contra Tedros, argumentando que ele não deve ser eleito, pois representa os interesses autocráticos das elites governantes da Etiópia.

O sarcasmo é mais do que trágico. A pessoa responsável pelos crimes contra a humanidade na Etiópia se candidatou para #WHODG [diretor-geral da OMS]! #NoTedros4WHO [#NãoATedrosParaOMS]

Páginas de petições contra Tedros foram criadas na internet, e um documentário detalhando seus fracassos e sua má administração de recursos financeiros enquanto era Ministro de Saúde da Etiópia também está disponível.

Tedros Adhanom presidiu e participou do maior escândalo de corrupção fiscal e mau uso do Fundo Global na Etiópia #NoTedros4WHO

Internautas também organizaram campanhas no Twitter através da hashtag #NoTedros4WHO [#NãoATedrosParaOMS], que foi utilizada para debater o assunto. Para aumentar a conscientização do público, opositores compartilharam relatórios detalhados sobre as acusações de ineficiência, falsificação de dados e exageros feitos sobre o desempenho de Tedros enquanto trabalhava para o governo etíope.

Uma das imagens circuladas online, em oposição a Tedros, marca a foto do candidato com um X e o acusa de ser um assassino. Compartilhada no Twitter pelo usuário @DahlaKib

Porém, diante de preocupações de que o movimento pode diminuir as chances de Tedros, grupos governamentais criaram uma campanha paralela em apoio ao candidato, desdenhando a oposição como antipatriótica, mal-intencionada e dirigida por um sentimento banal de inveja.

Desde abril de 2014, uma manifestação popular continua a desafiar o governo da Etiópia. Este continua a reagir de forma brutal: de acordo com a ONG Human Rights Watch, pelo menos 800 pessoas morreram. No mais, centenas de opositores políticos e milhares de dissidentes foram encarcerados e torturados. Em outubro de 2016, as autoridades impuseram uma das leis mais robustas de censura do mundo, logo depois de declararem um estado de emergência no país.

A função da identidade étnica na política 

Alguns críticos de Tedros rejeitam sua candidatura por causa das alegações de incompetência contra ele. Entretanto, a maior parte da oposição foi provocada pela ideologia de política étnica que domina o país.

Tedros fez seu doutorado em saúde comunitária na Universidade de Nottingham. Ele estudou biologia na Universidade de Asmara antes de completar seu mestrado em imunologia das doenças infecciosas em Londres.

Mesmo com essas qualificações, a primeira associação feita por muitos opositores ao ouvir o nome de Tedros é de um regime repressivo, de um governo etíope que matou vários, aprisionou milhares de contrariantes, além de ter encarcerado e torturado dissidentes.

Sua ascensão meteórica ao poder, logo depois de completar seu doutorado em 1999, iniciou quando foi convidado a liderar o Departamento de Saúde da região de Tigré. Dois anos depois, ele foi promovido para o posto de Ministro de Saúde pelo ex-Primeiro Ministro Meles Zenawi, que também era um tigré. Quando Meles Zenawi faleceu em 2012, Tedros assumiu o cargo de Ministro de Relações Exteriores da Etiópia.

O estado de Tigré é um dos nove que são federados de acordo com divisões etnolinguísticas.

Nos últimos 26 anos, as elites tigrés dominaram o espaço político da Etiópia, principalmente por causa de seu controle das forças armadas, da segurança e da economia do país. Apesar de corresponder a apenas 6% da população total, as elites tigrés ocupam os cargos mais altos dos setores militares e de segurança, tanto quanto os postos mais importantes em vários órgãos estaduais. Isso sempre foi um ponto doloroso para as elites de etnia oromo e amhara, que englobam 65% da população nacional.

O governo da Etiópia utiliza táticas autoritárias contra seus cidadãos, e o espaço político é bem restrito. Mesmo assim, países poderosos como os Estados Unidos e o Reino Unido continuam a apoiar o regime.

Debates domésticos numa plataforma global

A oposição vigorosa à candidatura de Tedros indica que a luta política dos etíopes ganhou repercussão internacional. De uma maneira, isso também demonstra que as plataformas globais estão substituindo o espaço político repressivo.

Já que as instituições políticas e redes de comunicações da Etiópia são controladas pelo governo, as diásporas, mesmo tendo dificuldades de coordenarem seus movimentos, tomaram providências para destacar as violações dos direitos humanos através de campanhas no Twitter.

Campanha no Twitter hoje, 28 de abril, as 18:00h horário Europeu; 12:00h horário de Washington; 17:00h horário do Reino Unido. Hashtags principais #NoTedros4WHO e #WHODG

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