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Qual a solução para a energia verde na África: os mega projetos, a distribuição de energia fora da rede ou outras iniciativas?

Uma criança estudando com luz gerada por energia solar em Zâmbia. Foto de Patrick Bentley/SolarAid Photos CC 2.0.

Esta postagem de Peyton Fleming foi publicada originalmente na Ensia.com, uma revista eletrônica com enfoque em soluções ambientais internacionais em prática, sendo republicada aqui graças a um acordo de compartilhamento mútuo de conteúdo.

Uma usina eólica de 310 megawatts está sendo inaugurada em uma região remota e árida próxima ao Lago Turkana, ao norte do Quênia, e vem ganhando destaque no mundo da energia limpa, e por um bom motivo.

A maior usina eólica da África, com 365 turbinas, está criando mais de 500 empregos estáveis em uma área pobre, onde os rebanhos de cabras costumam ser a única forma de trabalho disponível. A usina irá ampliar o alcance da rede elétrica no Quênia em aproximadamente 15%, com um custo bem menor do que o petróleo importado pelas concessionárias locais. Com o início da produção em 2018, ela servirá como exemplo aos investidores e às empresas de que grandes projetos de energia limpa como esses são viáveis na África Subsaariana.

“O impacto que estamos gerando me deixa muito orgulhoso, de verdade”, admite Phylip Leferink, diretor geral do Lake Turkana Wind Power, que era todo sorrisos quando nos encontramos quando a 142º turbina havia acabado de ser instalada.

Mega projetos como este são extremamente importantes para que os emormes problemas de acesso à energia na África Subsaariana sejam resolvidos no ritmo que os governos regionais esperam. Entretanto, eles não são uma solução definitiva. Eles são custosos, levam anos para serem construídos e não chegam a todos. Na verdade, o projeto Turkana, orçado em 700 milhões de dólares, vem sendo desenvolvido por quase uma década, e o prazo de entrega exato da linha de transmissão de 435km ainda é incerto. Além disso, toda a eletricidade está sendo usada no sul do Quênia; deixando o norte do país de lado, onde combustíveis altamente poluentes, como o querosene e o carvão, são usados no preparo de refeições e na iluminação.

Diante disso, qual é a melhor alternativa para levar energia elétrica, preferencialmente verde, para os mais de 1 milhão de pessoas vivendo no norte do Quênia e para as 620 milhões de pessoas em toda África Subsaariana que estão no escuro?

Recentemente, eu passei 12 dias viajando por Gana e pelo Quênia em busca de respostas. Eu estava especialmente interessado em entender a dimensão de projetos amplos de armazenamento de energia em rede como o projeto Turkana são capazes de atender à vasta demanda de energia da região, assim como iniciativas de energia renovável fora de rede ou descentralizadas devem receber mais visibilidade, mesmo que tenham menor porte e não estejam ligadas à rede elétrica. O potencial de crescimento da economia dos países com a energia renovável, em vez de combustíveis que são mais caros e têm grande impacto na mudança climática, foi outro assunto fundamental.

Uma coisa é certa, de acordo com líderes de governos e especialistas de ONGs: os preços em queda dos renováveis fora de rede, que ultrapassa os 80% desde 2010 em energia solar fotovoltaica, são decisivos. Destaco o crescimento impressionante da M-KOPA Solar, uma empresa queniana que se beneficiou do fenômeno de pagamentos móveis na África (mais de 90% dos quenianos usam telefones celulares e mais de 70% fazem transações pelos seus dispositivos móveis) para trazer fontes de energia solar fora de rede para 425 mil pessoas em toda a África Oriental.

Um estudo recente do coletivo público-privado Power for All, que busca acelerar a distribuição de energia limpa em áreas rurais em escala global, mostra que estas tecnologias fora de rede podem ser instaladas duas vezes mais rápido e com um décimo do custo de projetos de grandes empresas. Entretanto, mesmo com tanto potencial, a energia fora de rede tem como obstáculo a falta de financiamento, sobretudo do Banco Mundial e de bancos de desenvolvimento multilaterais, que têm se mostrado há muito inclinados a financiar projetos de grande porte.

“Não tenho dúvidas. Esta é uma proposta em prol de milhões de famílias”, declarou o fundador e diretor-geral da M-KOPA Jesse Moore para um público de 500 pessoas na última Conferência International de Energia Renovável Fora de Rede em Nairóbi, organizada pela Agência International de Energia Renovável. “Ainda estamos longe da nossa meta”.

Quênia: líder em renováveis

O Quênia é visto por muitos como líder na busca de renováveis para lidar com a questão de acesso à energia tanto em projetos de rede como fora de rede. Há três anos, menos de 30% dos quenianos recebiam energia da limitada rede elétrica do país de 2.000-MW, sendo abastecidos inicialmente por combustíveis fósseis (a região da Nova Inglaterra, cuja população é três vezes menor do que a do Quênia, tem uma rede elétrica de aproximadamente 31.000 MW). A fim de fomentar a construção de usinas de energia, o governo adotou políticas como garantias de proteção de riscos, acordos e tarifas de compra de energia, tudo para assegurar o subsídio adequado para a energia que for produzida. O governo tem especial interesse em explorar os amplos recursos de energia limpa do país, como a energia geotérmica. Uma usina de energia geotérmica de 280-MW iniciou suas atividades em dezembro no Grande Vale do RIft, onde o continente está sofrendo uma ruptura gradual, o que facilita a passagem de água quente e de vapor sob a superfície. Outros projetos geotérmicos estão sendo desenvolvidos na região, como uma nova usina solar de 55-MW, que também foi anuciada para o fim de setembro.

Um representante de vendas da M-KOPA apresentando o produto solar da empresa a moradores do bairro de Bandani, em Kisumu, a oeste do Quênia. Foto de Peyton Fleming e utilizada com permissão.

Representantes do governo estão satisfeitos com o progresso. “Só em três anos, nós duplicamos o número de consumidores da rede”, o principal secretário de energia do país, Charles Keter, declarou na conferência de energia renovável fora de rede. Por outro lado, ele admitiu que o Quênia jamais alcançará o objetivo universal de acesso à energia até 2020 sem recorrer à energia renovável fora de rede. “Em áreas distantes da rede, como ao norte do Quênia, teremos de buscar outras soluções em um futuro próximo”.

Empresas como a M-KOPA, a Off-Grid Electric e a Mobisol já demonstraram interesse e estão dispostas a utilizar sistemas de repartição para fornecer serviços de energia solar fora de rede a milhões de consumidores em áreas rurais.

Com um depósito de 30 dólares, além de um valor diário de 50 centavos pago pelo prático sistema de pagamento móvel da M-PESA, os consumidores da M-KOPA têm direito a um painel solar, algumas lâmpadas, um carregador de celular e um rádio que funciona com energia solar. Depois de um ano de pagamento, os consumidores tornam-se donos do sistema, podendo também abrir uma linha de crédito para custear equipamentos de energia solar maiores e utilizar eletrodomésticos mais potentes, como televisores; a M-KOPA espera que o sistema suporte pequenos refrigeradores em breve.

Enquanto caminhava com dois representates comerciais por Bandani, um bairro pobre com cabanas de barro, estradas de terra e fogões a carvão em Kisumu, na parte oeste do Quênia, meia dúzia de pessoas pediram os catálogos da M-KOPA. Algumas outras já tinham o serviço em casa. Uma das consumidoras, Consonlata Andhiambo Odero, mora em Bandani com quatro crianças em uma cabana humilde e vive da sua vendinha de carvão, ovos e pão. Desanimada com as frequentes quedas de energia, ela adquiriu o sistema M-KOPA há um mês. Atualmente, conta com duas luminárias para sua lojinha e energia limpa para que seus filhos possam ler à noite. “Estou muito animada”, ela disse, com um belo sorriso.

Em somente cinco anos, a M-KOPA contratou 1.000 funcionários que conquistam e prestam serviços a a clientes de três países na África Oriental. O modelo da empresa também está sendo adotado na África Ocidental. Apesar do crescimento da empresa, alguns africanos não conseguem cobrir nem os gastos iniciais. “O depósito de 30 dólares é o maior problema”, aponta Edwin Amollo, gerente de vendas de campo da empresa em Kisumu.

Gana: trabalhando para se modernizar

A cerca de 6.400km a oeste, Gana está adotando muitas das estratégias implementadas no Quênia para expandir seu acesso à energia. Mesmo estando atrasado alguns anos, sobretudo em relação à energia renovável, o país está trabalhando para se modernizar.

Consonlata Andhiambo Odero, que mora no oeste do Quênia, posando toda sorridente com seu novo painel solar da M-KOPA que abastece suas lâmpadas à base de energia solar para que seus filhos possam ler à noite. Junto com ela está o representante de vendas da empresa. Foto de Peyton Fleming e utilizada com permissão.

O governo ganês está expandindo a rede elétrica do país com novas usinas, adotando tarifas de compra de energia, processos de licitação e contratos de aquisição para atrair empresas e investidores. As principais parcerias até aqui são com usinas de gás natural, fomentadas pelo primeiro campo de gás natural offshore que começou a ser explorado ano passado. Projetos de energia solar de pequeno porte também estão sendo acrescidos à rede, inclusive o projeto de energia solar fotovoltaica de 20-MW, que entrou em funcionamento em abril; e um segundo, de 20-MW, concedido a uma empresa sul-africana em setembro. Outros projetos de energia renovável estão sendo desenvolvidos ao norte, como a instalação solar para um empreendimento agrícola orçada em 4.5 milhões de dólares em Yagaba Basin.

Neste ínterim, a concessionária de energia solar fora de rede PEG-Ghana foi criada há dois anos partindo do modelo de negócio da M-KOPA, com foco em regiões onde as pessoas não têm abastecimento de energia ou estão insatisfeitas com as quedas constantes no fornecimento, que os locais chamam de dumsors. A empresa também utiliza pagamentos móveis.

“A razão pela qual investimos [em Gana] foi o fato de ninguém estar dando qualquer atenção à África Ocidental”, revelou Lauren Cochran, diretora de investimentos privados da Blue Haven Initiative, uma investidora com sede em Massachusetts que ajudou a PEG-Ghana a gerar 7.5 milhões de dólares este ano na expansão de seus negócios na África Ocidental.

Deixar o norte de Gana de lado “é simplesmente lamentável”, afirma o diretor nacional da PEG-Ghana Simone Vaccari. A empresa conta com 29 filiais no sul de Gana e já cadastrou mais de 14.500 consumidores. As vendas estão crescendo em 20% ao mês, e os planos da PEG-Ghana são expandir sua atuação para a Costa do Marfim em breve. “Estamos em um bom campo”, confirma Vaccari, que espera ter mais 100 mil clientes na África Ocidental até 2018.

A expansão comercial de redes viáveis de energia de menor extensão, de pequeno porte e fora da rede que forneçam energia para determinadas regiões ou negócios é uma prioridade clara no Quênia e em Gana, tanto em nível governamental quanto para o setor privado.

Representantes do escritório em Gana da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional declararam que há muito interesse e potencial na energia solar em rede e fora da rede, e que eles confiam na criação de objetivos de energia renovável e na instauração de políticas por parte do governo para fomentar investimento estrangeiro. Contudo, ainda é incerto se o país conseguirá o mesmo êxito do Quênia com energias renováveis.

Expansão de mini redes descentralizdas 

Há outra falha enorme que o Quênia, Gana e outros países da África subsaariana devem enfrentar para terem êxito em seus planos ambiciosos de acesso à energia e em seus objetivos de energia limpa. Enquanto que sistemas solares residenciais como o da M-KOPA demostram potencial, o que pode ser dito de negócios, produtores e regiões inteiras que estão em busca de sistemas de energia renovável de maior porte em vez das redes instáveis ou inexistentes à disposição? Por conta da instabilidade da rede elétrica no Quênia, mais da metade dos negócios do país possuem geradores à base de diesel. E o que dizer dos fornecedores de alimentos que sofrem com as quedas ou a total falta de energia e que precisam dela para armazenar seus perecíveis?

A expansão comercial de redes viáveis de energia de menor extensão, de pequeno porte e fora de rede que forneçam energia para determinadas regiões ou negócios é uma prioridade clara no Quênia e em Gana, tanto em nível governamental quanto para o setor privado. Mais uma vez, os esforços do Quênia colocam o país à frente. Este verão, o presidente Uhuru Kenyatta anunciou planos de instalar 23 mini redes solares com capacidade de 9.6 MW em áreas remotas ao norte do país.

Empresas como a CrossBoundary Energy estão construindo mini redes solares para shoppings, hotéis de safari e hospitais mais afastados. “No Quênia, 70% do consumo de energia é de uso comercial”, confirma Matt Tileard, sócio-administrador da empresa que está expandindo seus negócios para Ruanda. “Este é o nosso nicho”.

Em Gana, a Black Star Energy está construindo mini redes solares para fornecer energia para sete pequenas comunidades da região de Ashanti. A primeira mini rede de energia solar da empresa foi inaugurada em uma área de cultivo de cacau outono passado. A CEO Nicole Poindexter revela que uma vantagem importante desses sistemas é o fato de eles suportarem refrigeradores, que são vitais para solucionar problemas de segurança alimentar da região. A falta de refrigeração é uma das principais causas de a África desperdiçar comida suficiente para alimentar 300 milhões de pessoas, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura.

Uma questão de investimento e de políticas, não de tecnologia

Considerando todas suas promessas iniciais, as soluções de energia renovável fora da rede ainda estão em seus primeiros passos. “Temos um longo caminho pela frente. Empresas como a M-KOPA vêm tendo grande êxito, mas sua participação de mercado ainda é muito pequena”, admite Christine Eibs Singer, diretora de campanha mundial da Power for All.

Com isso, do que as soluções de energia renovável fora da rede precisam para de fato preencher a lacuna de acesso à energia da região? É muito mais uma questão de investimento do que de tecnologia.

De um modo geral, a África está longe de atrair o investimento em dólares necessário para todos os tipos de projetos de energia. Os investimentos no setor de energia atuais são de 8 bilhões de dólares ao ano na África; montante inferior a um sexto dos 55 bilhões de dólares ao ano necessários para alcançar o fornecimento universal de energia até 2030, de acordo com o African Progress Report de 2015.

Além disso, do limitado investimento atual, muito pouco está sendo aplicado em energias renováveis fora de rede, como redes solares domésticas e mini redes. De 2011 a 2014, somente 11% do financiamento do Banco Mundial para acesso à energia foi utilizado em redes de energia renovável descentralizadas, enquanto que 1% do investimento feito pelo Banco Africano de Desenvolvimento foi destinado a redes de energia renovável descentralizadas, de acordo com um recente relatório da Power for All.

O finaciamento insuficiente é sem dúvida um ponto sensível para os participantes da conferência de energia renovável fora de rede em Nairóbi.

“Caso 5% desse dinheiro fosse investido no nosso setor, veríamos milhões de novos consumidores recebendo energia de forma bem mais ágil”, garante Graham Smith, diretor sênior de novos mercados da Off-Grid Electric, uma startup de energia solar com mais de 100 mil consumidores na África Oriental e que conta, sobretudo, com fundos de investimento privado e com capital de risco para expandir seus negócios.

A diretora de campanha mundial da Power for All admite que o alinhamento entre políticas de governo e instituições financeiras que investem em estratégias mais equilibradas de rede e fora de rede será essencial para fornecer energia verde aos africanos com mais rapidez e menos custo.

“Para o pleno crescimento econômico desses países, será necessária geração de energia em larga escala; contudo, essa não pode ser a única solução”, “Precisamos de uma integração mais prudente e consciente em soluções centralizadas e descentralizadas”.

Peyton Fleming é diretor sênior do grupo de sustentabilidade sem fins lucrativos Ceres. Para mais detalhes, acesse www.ceres.org.