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Em Moçambique, Dia dos Heróis é comemorado entre críticas nas redes sociais

Eduardo Mondlane, fundador da FRELIMO, Samora Machel e Joaquim Chissano, primeiro e segundo presidente de Moçambique respectivamente. Foto: Wikimedia Commons CC-BY-SA 3.0

Em Moçambique, ganham força as críticas ao Dia dos Heróis, feriado nacional onde relembra-se àqueles que lutaram pela independência do país. A data do dia 3 de fevereiro marca o aniversário de morte de Eduardo Mondlane, ícone da resistência contra o domínio colonial português.

Os heróis celebrados ontem, Eduardo Mondlane, Marcelino Santos e Samora Machel, são todos fundadores da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), movimento que nos anos 1960 e 1970 engajou-se em luta armada pela independência, alcançada em 1975. A insurgência e guerra civil nos anos subsequentes, insuflada por países vizinhos que se opunham à sua inspiração socialista — como a África do Sul do Apartheid — não abalaram a hegemonia da FRELIMO, que elegeu todos os presidentes de Moçambique até a presente data.

Sem desconsiderar a importância da luta pela independência, muitos moçambicanos usaram as redes sociais para reflectir sobre o sentido do Dia dos Heróis nos tempos actuais.

Bitone Viage e Ivan Maússe, dois jovens analistas e membros do da FRELIMO, fizeram a seguinte reflexão:

Se partirmos da ideia de que muitos dos até então considerados heróis são exclusivamente os libertadores da pátria, então fica claro que do período que nos separa da independência nacional até a actualidade, o nosso país não produzira quaisquer pessoas capazes de serem apontadas como heróis nacionais. Discutível!

E porque muitos dos nossos libertadores, alguns dos quais após a independência nacional ocuparam cargos de chefia, de confiança e direcção no Estado e Governo moçambicanos, hoje se mostram protagonistas de comportamentos nocivos ao patriotismo, atitudes que ofuscam a sua heroicidade de ontem.

Por sua vez, Rui Bernardo Guimas estranha o facto de todos os considerados heróis pertencerem ao partido no poder:

Há uma tendência de monopolizar tudo neste país, distorcendo a história com ideias egocêntricas…parece que o conceito de herói parou no tempo e no espaço! Há um “cabritismo vitalício ” que depois deles tudo que vier não tem valor, que não se estenda a ponto de passar por uma condecoração de herói…. é triste mas são factos reais; Ivan foste claro na sua abordagem sem comentários!!!!

Euclides Flávio, jovem historiador e jornalista, aprofunda essa mesma questão:

As pergunta básicas que podemos fazer são estas, será que a Frelimo é o único partido que produz e reproduz Heróis? Será que essas “figuras” acima, tem capital social suficiente para serem considerados Heróis nacionais? Quais são os critérios priorizados na nossa pátria para se ser Herói e ser reconhecido na historia oficial e Historiografia nacional? Porque partidarizamos a heroicidade em Moçambique? Porque é que os nomes da oposição e Sociedade Civil não aparecem nos anais da historicidade?

Edgar Barroso, activista social, chega a considerar os heróis de outrora como aqueles que fazem sofrer o povo moçambicano hoje:

Mataram os opositores políticos (desde a luta de libertação). Ainda o fazem, dos que estão ainda vivos e no poder, de uma ou de outra forma. Alguns dos heróis que celebramos hoje (quando escrevemos ou dizemos “feliz 3 de fevereiro” ou “feliz dia dos heróis moçambicanos”) matam pessoas até hoje, com políticas públicas incompetentes. Muita gente ainda morre por desvio de aplicação de fundos e recursos.

Muitos dos que estão na cripta dos heróis mataram ou mandaram matar seres humanos. Alguns dos que, ainda vivos, provavelmente lá entrarão… idem. Mataram ou mandaram matar (com armas ou com corrupção, só para citar dois exemplos), vários homens, mulheres e crianças. Milhares deles.

Fazendo referência a actual crise de água que se abate na capital de Moçambique, há também quem ousou em ‘’brincar’’ com a data, como fez Rafael Ricardo:

Meu herói é você, sim, você que está sem água num dia quente como o de hoje.