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A guerra da Síria pode ser a mais documentada da história — e ainda assim sabemos muito pouco sobre ela

Syria liveuamap of Aleppo depicting verified events on December 7, 2016, as Aleppo was falling. Liveuamap is an "opendata-driven media platform" that tracks events in conflict by time, location and type. http://syria.liveuamap.com/en/time/07.12.2016

Liveuamap de Aleppo destacando os incidentes ocorridos no dia 7 de dezembro de 2016 durante a retomada da cidade síria. Liveuamap é uma plataforma de fontes livres que monitora casos de conflitos de acordo com a hora, o local e o tipo. http://syria.liveuamap.com/en/time/07.12.2016

Nós seguimos os tweets da menina Bana Alabed de 7 anos e de sua mãe, as últimas mensagens de ativistas e de combatentes aguardando pela rendição ou pela morte, além da busca por indícios de ataques químicos ou histórias divergentes sobre bombardeios contra hospitais. Ao mesmo tempo, nós nos esforçamos para compreender se essas informações vão ao encontro ou subvertem a nossa visão de mundo.

A guerra civil síria é provavelmente a mais documentada da história. Milhões de imagens, vídeos, blogs, tweets e mensagens de áudio foram feitas sobre o conflito, sobre aqueles que tentam seguir com suas vidas apesar do conflito e a consequente crise de refugiados. Esses meios de comunicação produzidos por jornalistas, cidadãos, ativistas, combatentes e vítimas são produto da crescente cultura participativa da mídia, da cobertura da documentação digital e da reflexão que se fazem tão presentes nos dias atuais.

Antes da guerra, a Síria contava com uma tecnologia da informação razoavelmente estável e em crescimento, tendo acesso a meios de comunicação em massa, TV via satélite, internet e dados móveis.  O acesso a essas tecnologias dava aos sírios ferramentas de comunicação para que se comunicassem entre si e com o restante do mundo. O que restou desses meios existe agora para que pessoas em zonas de conflito continuem compatilhando informações. Apesar da guerra, ou talvez por causa dela, os grupos de mídia cidadã do país, com cada vez mais informação e conhecimento prático, têm sido um veículo de grande importância para a documentação do conflito.

Entretanto, o acesso a grandes bancos de dados da internet sobre a guerra não é garantia de que essas informações serão compiladas ou apresentadas de acordo com as nossas expectativas em relação a relatos de guerra. Isso ocorre uma vez que a informação sobre conflitos atuais não se resume à divulgação imparcial da notícia em cima dos fatos, mas sim como parte de uma batalha pela percepção da guerra e de seus combatentes. Consequentemente, formam-se opiniões em relação a quem são os justos e os corretos, sobre quem deve ser apoiado politicamente ou com recursos e quem deve se tornar alvo de ataques.

A informação e a manipulação dela tem sido um fator estratégico vital nesse conflito, e o controle dessa informação tornou-se uma arma. O Exército Eletrônico da Síria, uma força paraestatal que apoia o regime de Bashar al-Asad, dirigia ataques de negação de serviço (DoS Attack) contra ativistas no início do conflito, além de hackeá-los e realizar ataques malware. Nesse período, tanto o regime de Assad quanto o Estado Islâmico tinham os jornalistas como alvo.

O Estado Islâmico foi capaz de mudar o curso da guerra recorrendo à violência nua e crua, sobretudo gravando a decapitação de jornalistas de países ocidentais e divulgando esses vídeos nos canais de comunicação.

A névoa da guerra não surge do nada; os combatentes contribuem para que ela ganhe forma tentando artifícios minuciosamente planejados para enganar e desorientar seus adversários.

Na luta contra as forças de desinformação, a busca e a construção de narrativas coerentes sobre a guerra tornam-se um grande desafio. Sabemos agora dos princípios e técnicas de organização, da priorização e verficação de informações vindas da Síria. Podemos discernir fatos e estabelecer evidências com análises cuidadosas, podendo contar também com técnicas de mídia forense como pesquisa reversa de imagens, geolocalização e análise de padrão de metadados. Podemos construir e manter uma conexão confiável com amigos, colegas e fontes próximas ao conflito.

Somos capazes de descobrir muito sobre essa guerra, mas somente descobrir fatos é muito pouco se quisermos mudar o rumo das coisas. Fatos comprovados não necessariamente influenciam o desenrolar dos acontecimentos. Esta é a essência do que é a compreensão do poder e de seus limites.

Esta história foi publicada originalmente pela Public Radio International, parceira da Global Voices.