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Este também foi o ano dos Heróis Cidadãos na América Latina

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“Eu não sou uma farsa” é uma campanha artística em defesa dos direitos LGBTQ. Imagens cedidas com a devida permissão.

A América Latina é palco de diversas histórias de resistência e de heroísmo. Algumas delas acontecem em comunidades minoritárias que lutam por igualdade, enquanto que outras surgem de locais devastados por desastres naturais; mas ainda há casos de grupos que ampliam seus horizontes com a música, o diálogo, dentre outros.

Onde quer que nos deparemos com resistência na América Latina encontraremos pessoas engajadas em mudar percepções e recusar os conceitos propagados pelo medo, pela solidão e pelos tipos de manchetes resumidas que costumamos ver nos meios de comunicação.

Ao longo do ano passado, a sociedade latino-americana encontrou muitos heróis, como as mulheres que resistiram aos 12 anos da ditadura civil-militar no Uruguai.

Fernanda Canofre da Global Voices falou com a diretora do filme que assinou a obra e fez jus a essas mulheres e à forma como a história delas resistiu até os nossos dias:

About a group of about 30 former political prisoners who accused a large group of military officers of sexually abusing them systematically. The case is still resting in some court’s drawer. This group of women, who were hardly over 20 years-old, besides being tortured through traditional methods [they] were also raped by their executioners. After 30 years of silence, they decided to talk about it. Breaking the powerful taboo that precludes certain subjects and breaking this sickening silence that, somehow, blames them for being victims.

Um grupo de aproximadamente 30 ex-prisioneiras políticas haviam acusado um grupo considerável de oficiais militares de ter abusado sexualmente delas de forma sistemática. O caso continua arquivado pela justiça. Esse grupo de mulheres, que mal tinham feito 20 anos, não só foram torturadas por métodos tradicionais, mas também violentadas pelos seus algozes. Depois de 30 anos em silêncio, elas decidem falar sobre tudo, quebrando o forte tabu que impede a abordagem de certos temas pondo fim ao silêncio sufocante que, de certa forma, as torna culpadas por serem vítimas.

Actress Justina Bustos, who plays the young version of leading character Liliana | Photo:

“Migas de Pan” (“Migalhas de Pão”) conta a história de Liliana, uma uruguaia que é presa e torturada pelos militares e tem de reviver essas lembranças depois de 30 anos. No filme, depois de voltar para casa, Liliana torna-se o centro de uma discussão nacional sobre memória e justiça. A atriz Justina Bustos faz o papel da protagonista Liliana quando ela era jovem. Foto: acervo pessoal cedido pela diretora Manane Rodríguez.

Há também o trabalho de duas educadoras argentinas em busca de alternativas para a deteriorada rede pública escolar em que atuam. Elas viajaram, compartilharam diversas experiências e reuniram tudo em um filme. Pelas palavras de Romina Navarro, você também pode conferir a jornada delas pela internet:

The project is based on a journey, in the literal sense of the term. With help from family members, friends, and other collaborators, they prepared their truck and left Buenos Aires on August 11, 2015, heading out on an extensive journey throughout Latin America, in order to get an up-close look at the educational projects of these social movements inside the diverse communities of the region. Their goal is to study them, learn from them, and ultimately reveal them in a documentary that they will edit after returning. The film will be available for free distribution.

O projeto é baseado em uma jornada, na acepção literal da palavra. Com a ajuda de familiares, amigos e outros colaboradores, elas prepararam um caminhão e partiram de Buenos Aires no dia 11 de agosto de 2015 em uma longa jornada pela América Latina para verem mais de perto os projetos educacionais dos movimentos sociais de diversas comunidades da região. O objetivo delas é estudar e aprender com eles para então trazê-los à luz em um documentário que será editado após regressarem. O filme será distribuído gratuitamente.

As pessoas colocam as diferenças de lado para enfrentar juntas desastres naturais

2016 também será lembrado no continente como o ano em que o Equador foi atingido por um grande terremoto que devastou boa parte da costa do país. O país ficou em choque, com muitas regiões ficando destroçadas. Contudo, segundo Daniela Gallardo, a catástrofe também serviu para facilitar a reconciliação entre as facções de um país profundamente dividido, mobilizando esforços organizacionais grandiosos em prol das vítimas necessitadas:

This event has made people forget about their political and social differences. Personal approval or rejection of the national government's policies were put aside in order to help the most affected provinces: Esmeraldas, Manabí, Santa Elena, Guayas, Los Ríos and Santo Domingo de los Tsáchilas, all belonging to the coastal region. Hundreds of buildings were reduced to rubble in just minutes. Roads were damaged. The touristic center of Ecuador was devastated.

Esse incidente fez com que as pessoas se esquecessem das suas diferenças políticas e sociais. A aprovação ou rejeição pessoal das políticas do governo foram postas de lado em prol das provincias mais afetadas: Esmeraldas, Manabí, Santa Elena, Guayas, Los Ríos e Santo Domingo de los Tsáchilas, todas situadas no litoral. Centenas de prédios ruíram em questão de minutos. Estradas foram danificadas. O centro turístico do Equador ficou devastado.

"¿Cómo puedes ayudar si no puedes poner manos a la obra? Enviar donaciones al consulado más cercano o depositar dinero en la Cruz Roja te sabe a poco. Quieres estar ahí, y ayudar a alguien. Conversar con alguna persona en busca de desahogarse del susto que se ha llevado. Llevar a los niños a jugar al parque, para que se olviden un momento de la tristeza y sus padres puedan poner en orden la cabeza." Donaciones tras terremoto en Ecuador. Captura de pantalla tomada del video hecho en Cruz del Papa el 16 de abril.

“As mídias sociais foram de grande ajuda não só para os equatorianos que vivem fora do país, mas também para os que residem no país […] Da mesma forma, voluntários coordenaram campanhas usando a hashtag #SeNecesitaEC para receber alimentos, roupas e medicamentos. Foto: uma imagem de um vídeo feito em Quito, capital do Equador, onde pessoas se mobilizam para enviar água e comida para as vítimas do terremoto.

Comunidades fortes que crescem apesar das adversidades

Jovens músicos do México e do Paraguai também tiveram sua parcela de dificuldades. Mary Aviles acompanhou a história de duas orquestras, descrevendo como a pobreza os conduziu à música e ao crescimento:

The world generates about a billion tons of garbage a year. Those who live with it and from it are the poor – like the people of Cateura, Paraguay. And here they are transforming it into beauty.

O mundo produz aproximadamente um bilhão de toneladas de lixo ao ano. Quem tem de conviver e lidar com isso são os pobres, como os moradores de Cateura, no Paraguai. Eles estão transformando esse lixo em arte.

O News from Colombia tinha coberturas frequentes tanto da Global Voices quanto da imprensa mundial, em grande parte, graças ao complexo e turbulento processo de paz do país. Os esforços da Colômbia também geraram histórias de como as campanhas de resistência se transformaram em arte, com a popularização do hip hop para a preservação de memórias coletivas.

Como podemos ler no artigo de Dylan Tsenak:

“Seeds of the Future” unites approximately 60 youths from Comuna 13 who together practice “AgroArte”. In other words, they link agro (or sowing) with art (hip hop). In this way, they teach young women and men to sow seeds, to work the land, and cultivate gardens. At the same time, the participants write and sing their own musical hip-hop creations, and they use their lyrics to document events and feelings in their own lives. By planting seeds, moreover, they take ownership of physical spaces that have been marked by violence. The spaces then are transformed into “scenes of life” that symbolically capture the theme of resistance against violence.

O “Sementes do Futuro” une aproximadamente 60 jovens da Comuna 13 que praticam “AgroArte” juntos. Em outras palavras, eles unem agro (ou semear) com arte (hip hop). Dessa forma, eles ensinam jovens a plantar sementes, lavrar a terra e cultivar jardins. Os participantes também compõem e cantam suas próprias músicas de hip hop, usando as letras para falar dos acontecimentos e sentimentos do dia-a-dia deles. Além disso, ao plantarem sementes, eles recuperam espaços outrora deflagrados pela violência. Esses espaços são então transformados em “cenários da vida real” que captam de maneira simbólica o tema da resistência contra a violência.

Uma canção composta pelos jovens do projeto “Sementes do Futuro” pode ser vista no vídeo a seguir:

Tocando na ferida das convenções sociais: desafiando representações

Yessika Gonzalez apresentou as tradições argentinas aos leitores acostumados a questionar as formas com que a sociedade interpreta conceitos como dança, justiça e amor.

Although at its inception only men danced the tango, in the traditional milongas of today, same-sex partners have been victims of discrimination and even expulsion from the dance floor. In fact, the birth of many “queer” milongas came as a response to these attacks […] For many, the tango is a macho dance that relegates women to a passive role. Nevertheless, in recent years with the emergence of this new style of tango, the role of women has become more participatory. In fact, many women enjoy exercising the role of leading the dance. In the Queer Tango, women can lead or be led when dancing with a man or another woman.

Apesar da ideia de que só homens dançam tango, nas milongas tradicionais de hoje, parceiros do mesmo sexo são vítimas de discriminação, sendo até expulsos dos salões de dança. De fato, o surgimento de muitos dançarinos queers de milonga serviu como resposta a essas agressões […] Para muitas pessoas, o tango é uma dança para homens que relega as mulheres à passividade. Contudo, com o surgimento desse novo estilo de tango nos últimos anos, o papel das mulheres ficou mais participativo. Na verdade, muitas mulheres gostam de conduzir a dança. No Queer Tango, elas podem conduzir ou serem conduzidas quando estiverem dançando com um homem ou com outra mulher.

A história de Daniel Arzola também aborda discriminação LGBTQ, assim como um trabalho visual reconhecido internacionalmente:

The focus […] remains the defense of the dignity of people who step outside of the generic norm, who refuse to be objectified, or to be part of dehumanizing stereotypes. It is followed by those who, despite not being a part of the cause, defend it, and those who refuse to be silenced by government or private oppression.

O foco […] continua sendo em prol da dignidade das pessoas que transgridem normas preestabelecidas, que recusam ser objetificadas ou se tornarem parte de estereótipos desumanizantes. Essa causa é adotada por aqueles que, mesmo não fazendo parte dela, defendem-na, assim como aqueles que não aceitam ser silenciados pelo governo ou por outros agentes opressores.

Todas essas histórias, assim como tantas outras que ainda serão contadas, são sobre as adversidades enfrentadas por pessoas convivendo com realidades violentas. Essas histórias são contadas pelos vieses de ativistas e de artistas que são heróis, e não vítimas.