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Moçambicanos dizem “basta” ao clima de guerra e à crise económica que se abate sobre o país

Manifestação pela paz e fim de crise económica em Maputo. Foto: Dércio Tsandzana/Global Voices

Manifestação pela paz e fim da crise económica em Maputo. Foto: Dércio Tsandzana/Global Voices

Milhares de moçambicanos saíram no sábado (27.08) às ruas de Maputo para dizer “basta” à atual crise político-militar e económica que está a afetar o país. A manifestação foi organizada pelo Parlamento Juvenil e surgiu como recomendação da Conferência Nacional Pensar Moçambique que juntou mais de 400 pessoas. A manifestação foi organizada como sinal de indignação face ao agravamento da violação dos direitos humanos que a atual tensão político-militar está a provocar a mais de 25 milhões de vidas humanas. A marcha começou com uma concentração junto à estátua de Eduardo Mondlane e teve como destino final a Praça da Independência, no centro da cidade de Maputo tendo contado ainda com a atuação do músico Azagaia.

Desde cedo, houve quem tentasse transmitir a ideia de que esta manifestação não era oportuna e em nada iria mudar a atual situação de crise que se arrasta em Moçambique. Segundo a Rádio Pública e Televisão:

Académicos e sociedade civil não concordam com a realização da manifestação de repúdio ao custo de vida e a divida pública, projectada para o sábado na cidade de Maputo. A Rádio Moçambique colheu este sentimento partilhado em Xai-xai, Beira e Inhambane.
Os entrevistados argumentam que o custo de vida é derivado da conjuntura internacional, aliada aos ataques da Renamo e enaltecem os passos até aqui dados no esclarecimento da questão da dívida pública.
Da cidade de Maputo, religiosos e analistas políticos, também consideram de infundadas as alegações para a convocação da marcha de repúdio ao custo de vida, à dívida pública e a situação político-militar.

Manifestação pela paz e fim da crise económica em Maputo. Foto: Dércio Tsandzana/Global Voices

Manifestação pela paz e fim da crise económica em Maputo. Foto: Dércio Tsandzana/Global Voices

Na mesma notícia, a Rádio Moçambique (RM) foi acusada pelos internautas do Facebook de estar ao serviço do partido no poder (FRELIMO), Juma Mussagy Abdul Mutualibo comenta que:

A manifestação [de] sábado é pacífica e é um direito constitucional. Nada de historietas, deixem-nos salvar a nós [próprios] e às gerações vindouras. A manifestação é bem-vinda e oportuna porque o POVO já está cansado das mentiras dos políticos. Alguns dizem que não podem rasgar a constituição em nome da PAZ mas para saquear e delapidar o país, essa mesma constituição é rasgada e deitada na pia. O que é mais caro entre vidas, bens e a constituição?

Eugenio Abilio Abibo enaltece o sofrimento da população:

Serviço ao regime. Muita vergonha, quais académicos? Sociedade civil? Os tempos são outros basta o sofrimento do povo. Rasgam a constituição para roubar e endividar o país mas para satisfazer o povo aí sabem o valor da constituição. Triste.

Por sua vez, Aditos Nhambau acusa que a:

RM está ao serviço do partido que causou este caos. (…)

Sobre a atitude da Rádio Moçambiuqe, o conceituado jurista e ativista social, Ericino de Salema faz saber o seguinte:

Em sede da próxima revisão da Constituição, talvez se devesse eliminar a provisão atinente à manifestação pacífica como um direito fundamental. Assim, se evitaria expôr quadros de “reconhecido mérito” ao ridículo!…

Egídio Vaz, analista político, apelou aos seus amigos do Facebook para aderirem à marcha:

No sábado irei [à] marcha. E através desta, venho convidar a todos [os] meus amigos desta rede e seus amigos para que [venham] também. As razões são tipicamente minhas.

1-Vou à marcha porque não a considero antigovernamental. É UMA MARCHA onde os cidadãos exercem o seu direito de ação popular e principalmente uma ação cívica. Vou dizer ao envolvidos na guerra (Renamo e governo) que o povo não está a gostar do que estão a fazer, principalmente ao matar através da guerra, os cidadãos indefesos. Aqui há duas falhas: uma que não consegue manter a ordem e segurança e por esta via proteger o cidadão e outra, que de forma furtiva, destrói vidas e bens.

No mesmo diapasão Matias Guente, do Canal de Moçambique, reage da seguinte forma:

Cartaz da Marcha

Depois de ver toda a campanha de contrainformação e todas as tentativas de dissuadir os cidadãos através de um linguajar esdrúxulo e faminto de quem quer alimentar a sua família com base na má-fé, decidi ir à marcha [de] amanhã. Vou protestar duplamente pela situação do país e contra a existência de seres miseráveis como os que andam nas [Tevês] a pregar miséria intelectual no seu mais desprezível nível. Estes senhores são a personificação do cadelismo público-humano. Até amanhã, [junto] à estátua Eduardo Mondlane.

No decorrer da marcha, as pessoas fizeram questão de partilhar o decurso da mesma nas redes sociais, através de fotos e mensagens de força, usando a hashtag #MarchaMZ. Benilde Firmino disse:

Jovens acordem e saiam da sombra da bananeira…Chega de conformismo…Vamos a lutar em prol dos nossos direitos…FAM – Força, Atitude, Mudança…

Feyson Felizardo também presente na marcha, disse:

Somos todos humanos e na nossa humanidade falta o mais importante, lutar juntos pela paz. No entanto amiga/as, irmã/os, tia/os, que hoje e sempre a paz lhes envolva e faça de [cada um de vocês] uma pessoa feliz porque é tão triste ver a dor se espalhar no coração de quem amamos. Porque é pela paz que conseguiremos ultrapassar a fome que nós temos.

Stela Palé, ativista e membro do Parlamento Juvenil reforçou a ideia de que a luta não deve parar somente com esta marcha:

E lá fomos nós exigir a Paz. Cientes de que os Direitos não são conquistados na cama. Levantamos da cama e fomos lá exigir os nossos direitos e que a dívida pública seja paga por quem a contraiu. Não murmuramos nos quintais, fizemos com que a nossa voz fosse ouvida. Cidadania é isso, fazer e acontecer. A todos os jovens a luta contínua. A luta não deve morrer e que a [Vitória] cresça devagar.

No Twitter, Zenaida Machado, da Human Rights Watch, elogiou a atitude da polícia durante a marcha:

Muito bem para a Polícia Moçambicana ao permitir que este protesto se desenrolasse de forma ordeira e pacífica. Mantenham esse espírito.

Joanna Kuenssberg, alta comissária do Reino Unido disse:

A liberdade de expressão e de associação deve ser protegida. Aguardo pelas imagens de uma #marchaMZ completa e sem interferências.

Após a marcha, Gustavo Mavie, analista e defensor acérrimo do Governo disse:

MAPUTENSES VOLTARAM A BOICOTAR A MANIFESTAÇÃO DA QUINTA -COLUNA

Os residentes da cidade de Maputo voltaram a não se deixar manipular pelos membros da Quinta Coluna que, a todo o custo, tem estado a tentar leva-los a aderir a manifestações claramente concebida à imagem e semelhança da Primavera Árabe, tudo no quadro da já velha agenda de provocar tumultos na nossa capital, para ver se com isso cai o Governo de Nyusi e, como corolário, o próprio regime da Frelimo que, como sabemos, está no poder contra a vontade dos seus patrões.

Hassan Ossman, ativista social retorquiu contra todos aqueles que tentaram diabolizar as intenções da marcha:

AINDA A MARCHA!

No Jornal Notícias de Hoje Lí o que Nem Dá para Ler.
E como sempre este Senhor (não sei se Senhor Mesmo) e, como uma praga das iniciais GM, “Diaboliza” toda e qualquer Iniciativa ou Pensar fora do Seu Diapasão e Só ele e outro também GM é que estão CERTOS e todos o que pensam diferente estão ERRADOS. E, no seu pensar, as DÍVIDAS OCULTAS é um assunto já em desgaste, isto é deveria estar no “Arquivo Morto”, não devia ser levantado mais, para ele o ideal seria mesmo estar no esquecimento dos moçambicanos e a nossa Desgraça mesmo é só e só a Guerra, que sem dúvidas é mas as DÍVIDAS OCULTAS também!
Estes Discursos não ajudam em NADA nestes momentos Difíceis do Nosso País em que deveríamos VEICULAR mensagens de RECONCILIAÇÃO, APROXIMAÇÃO E PAZ e não o ÓDIO contido nesta Carta.
Mas, enfim, o que fazer CADA CABEÇA É MESMO UMA SENTENÇA!