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Museu sobre a escravatura inaugurado no Algarve “para que não se apague a memória”

Categorias: África Subsaariana, América Latina, Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Portugal, São Tomé e Príncipe, Direitos Humanos, Etnia e Raça, História, Migração e Imigração
Ossadas. Cadáver de Mãe com recém-nascido entre braços.

Ossadas de escravos do século XV e XVII encontradas em Lagos. Foto: Museu AfroDigital – Portugal [1]

Em 2009 [1], durante as escavações para a construção de um parque automóvel, no Vale da Gafaria, em Lagos, a equipa de arqueólogos que estava de serviço encontrou várias ossadas contendo uma centena e meia de esqueletos ali sepultados. O achado deu origem ao Núcleo Museológico Rota da Escravatura [2], que foi inaugurado no início do mês de junho (06.06).

Os 155 esqueletos encontrados são de dois períodos distintos. Os mais antigos do século XV e os mais recentes do século XVII. O que os arqueólogos encontraram “é tão raro [1]” que, na altura, se procedeu:

A assinatura de um protocolo de colaboração entre a Câmara Municipal de Lagos e o Comité Português do Projeto UNESCO A Rota do Escravo, com vista à criação de um Museu da Escravatura e à salvaguarda e memorialização do sítio. Nesse protocolo, previa-se que, no local hoje ajardinado, ficasse sinalizado o achamento através de um Memorial e de uma estrutura que permitisse dar a conhecer a realidade ali encontrada.

O referido protocolo acabou por não ser totalmente cumprido [3] mas isso não impediu a inauguração do Núcleo Museológico que acabou por ficar instalado no renovado Edifício da Alfândega – também conhecido por “Mercado de Escravos” – em Lagos.

Inauguração Núcleo Museológico da Rota de Mercado de Escravos

Inauguração Núcleo Museológico da Rota de Mercado de Escravos. Foto: CM-Lagos [4]

Este núcleo museológico de Lagos associou-se ao projeto internacional da UNESCO, “Rota do Escravo [5]“, que tem como objetivo “romper com o silêncio em torno do tema [6]“. Lançado em 1994, por iniciativa do Haiti e de alguns países africanos, este projeto tem provocado significativo impacto e contribuído para o reconhecimento oficial do tráfico de escravos como um crime contra a humanidade. Com comités nacionais em vários países, incluindo [7] Portugal, a organização internacional da “Rota do Escravo” conseguiu instituir o dia 23 de agosto como o Dia Internacional da Memória do Tráfico de Escravos e de sua Abolição e tem levado a cabo diversas apresentações e colóquios sobre o tema para que a memória não se apague [8].

A Rota do Escravo no mundo e em Portugal

Segundo [9] o historiador norte-americano, Davis Eltis, da Universidade de Emory, em Atlanta:

O tráfico de escravos transatlântico foi o maior deslocamento forçado de pessoas a longa distância ocorrido na história, tendo constituído, até meados do século XIX, o maior manancial demográfico para o repovoamento das Américas após o colapso da população ameríndia.

Eltis estima que entre 1500 e 1840, o período áureo do comércio negreiro transatlântico, cerca de 12 milhões de escravos partiram para as Américas. Enquanto apenas 3,4 milhões de europeus partiram para o mesmo destino, em igual período. A forte demanda por produtos e metais preciosos vindos das Américas e a falta de mão-de-obra, tanto local como de trabalhadores europeus – que não queriam atravessar o atlântico – não era suficiente para dar resposta às exigências dos consumidores na Europa. Fazendo com que o tráfico de escravos e o trabalho humano forçado aumentasse.

Comércio triangular. Fonte: Blogue "Os Descobrimentos Portugueses"

Comércio triangular. Fonte: Blogue “Os Descobrimentos Portugueses [10]

Este trabalho escravo era constituído maioritariamente por Africanos e o comércio negreiro transatlântico integrava duas grandes rotas – do chamado comércio triangular – que ligava a Europa, a África e a América Central e do Sul. Uma das rotas de escravos, a Europeia, foi dominada maioritariamente pelos ingleses e a outra, no Brasil, foi dominada em exclusivo e durante três séculos pelos portugueses:

Os ventos e as correntes também determinaram que os africanos transportados para o Brasil viessem predominantemente de Angola, enquanto o sudeste da África e o golfo do Benim desempenhavam papéis secundários; e que os africanos levados para a América do Norte, o Caribe incluído, viessem principalmente da África Ocidental, em sua maioria dos golfos de Biafra e Benim e da Costa do Ouro. Mas, assim como o Brasil cruzava a fronteira entre os sistemas traficando no golfo do Benim, ingleses, franceses e holandeses também trouxeram alguns escravos do norte de Angola para o Caribe.

Portugal assumiu um papel destacado no tráfico de escravos africanos para as colónias europeias da América e terá sido o responsável pelo início do tráfico atlântico. Embora não o reconhecesse [11] formalmente: 

Tal acusação era motivada pela demora do país em aceitar a abolição, tanto por razões económicas como culturais.

Pelo menos até ao período abolicionista que viria a contribuir para a abolição do tráfico de escravos [12]:

Há 250 anos, em 1761, Portugal foi pioneiro na abolição do tráfico de escravos na metrópole, declarando libertos e forros os escravos que entrassem em Portugal. Foi um primeiro passo para a abolição da escravatura.

Lagos na rota do comércio de escravos

Segundo a crónica de Gomes Eanes de Azurara, “O Descobrimento e conquista da Guiné [13]“:

Em 1444, Lançarote deixa o porto de Lagos e regressa em agosto do mesmo ano com o primeiro grande contingente de escravos: 235 escravos negros que se raptaram nos litorais da Senegâmbia e foram vendidos em leilão na praça pública.

Por isso mesmo, faz todo o sentido a criação deste museu dos escravos nesta cidade algarvia. Lagos não foi apenas um dos grandes centros de apoio [14] económico e militar durante a época dos Descobrimentos portugueses. Foi também a cidade que acolheu o maior mercado de escravos [13] do país. Acredita-se que foi o primeiro [15] mercado de escravos da Europa:

Lagos recebeu desde 1444 carregamentos regulares de escravos e foi aqui que se instalou o provável primeiro mercado de escravos da Europa.