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“Fico até ao momento em que a Rainha me permitir ficar”, as reações ao Brexit em português

Brexit. Foto: Pixabay/Domínio Público

Brexit. Foto: Pixabay/Domínio Público

Os eleitores britânicos decidiram abandonar a União Europeia (UE). O Brexit (“Reino Unido sai”) venceu o referendo de 23 de junho, com 52% dos votos sobre 48% para o Bremain (“Reino Unido fica”). O primeiro-ministro inglês, David Cameron, apresentou a demissão face a este resultado.

A Escócia e a Irlanda do Norte votaram a favor do bremain deixando no ar o risco de desagregação do próprio Reino Unido, sobretudo pelo desejo renovado dos escoceses de se tornarem independentes. O mesmo efeito se fez sentir em outros países europeus colocando a união dos 27 também em risco de desagregação. A UE quer que a saída seja rápida. Os cidadãos britânicos ficaram assustados com o resultado e já existe uma petição com mais de três milhões de assinaturas a pedir novo referendo. Sentem-se enganados pela média e pelos partidos da direita conservadora.

As reações ao resultado do referendo de 23 de junho têm sido diversas e provenientes de todo o mundo. O Global Voices procurou saber o que a esfera lusófona pensa sobre o brexit, utilizando as redes sociais.

Através do Facebook, conversamos com João Carvalho que vive perto de Londres com a filha e onde trabalha como mecânico da Jaguar há um ano. Diz ter deixado Portugal para “procurar um bom emprego” e por o considerar “um país falhado”. Na Inglaterra encontrou “qualidade de vida” e a possibilidade de “proporcionar um futuro bom para a filha”. João espera que o brexit “não tenha impacto” para si e que “sirva de exemplo para o seu país”. Questionado se pretende continuar na Inglaterra mesmo que as condições de permanência se tornem mais difíceis para os cidadãos europeus, João Carvalho responde que “fica até ao momento em que a Rainha lhe permitir ficar” e termina dizendo que “nunca sentiu”, em algum momento, “qualquer sentimento xenófobo por parte dos britânicos” em relação a si.

Patrícia Soares, que vive em Brighton desde 2014 onde está a fazer um doutoramento, adianta que o número de ataques xenófobos, desde o resultado, tem aumentado. “A maioria dos casos que tenho ouvido é dirigido a muçulmanos, polacos e paquistaneses”, disse a investigadora ao Global Voicesacrescentando que “pessoalmente não sentiu” qualquer reação xenófoba e que “no dia seguinte ao referendo, vários colegas britânicos me perguntaram como me sentia e foram unânimes em deixar-me claro que não é a posição deles e que estavam envergonhados com este resultado”.

Patrícia não pretende ficar na Inglaterra porque o seu “objetivo sempre foi fazer o doutoramento e voltar para Portugal”. A investigadora reconhece contudo que terá de alterar alguns dos seus planos, “estávamos a explorar a possibilidade de eu continuar a colaborar a partir de Portugal e deslocar-me regularmente ao Reino Unido. Tendo em conta o brexit provavelmente terei de pensar noutras opções. O direito a fundos, provavelmente, será mais difícil de alcançar e as entidades empregadores podem não estar tão abertas à possibilidade de pagar a alguém de fora”, sublinha.

Relativamente à pergunta de uma provável desagregação do Reino Unido, Patrícia Soares pensa que “o futuro do Reino Unido não está claro. No entanto, seja o que for que aconteça daqui para a frente ninguém poderá apagar estes resultados da memória dos cidadãos. Esquecendo as consequências políticas e económicas, o aumento da discriminação que o leave (“sair”) trouxe não poderá ser apagado. O país está claramente dividido e acredito que a Escócia vai fazer os possíveis para continuar na UE. Tendo em conta a história com a Irlanda, a Irlanda do Norte é mais complicado”, comenta a investigadora ao Global Voices.

Mais reações de outras partes do mundo onde se fala a Língua Portuguesa

Do Brasil, surge no Facebook, a seguinte reação por “Socialista Morena”:

Confesso que estranhei um certo desespero, por parte da esquerda, com a saída da Inglaterra da UE, como se fosse uma espécie de fim dos tempos – até porque a esquerda nunca foi uma grande defensora do bloco, pelo contrário. Nestes 23 anos de sua existência, não se pode dizer que a UE tenha sido uma maravilha para as pessoas mais necessitadas da Europa – a pobreza e a desigualdade estão crescendo, inclusive – ou mesmo para os imigrantes, que aparentemente serão o maior alvo da extrema-direita agora (como se já não fossem). Para complicar ainda mais, os pobres da Inglaterra votaram em sua ampla maioria pela saída do país da UE. Diante de tantas complexidades, prefiro esperar para ver antes de automaticamente me afirmar contra o Brexit.

A análise aos resultados revela o quão dividido está o Reino da Rainha Isabel II. A divisão económica assinala que o bremain (“ficar”) ganhou de forma clara nas regiões com maior poder económico, enquanto que o brexit (“sair”) ganhou nas regiões com maiores problemas económicos, ou seja, os mais ricos votaram “ficar” enquanto que os mais pobres optaram por “sair” da UE. Outro dado retirado deste referendo foi o confronto de gerações. Os jovens querem permanecer na UE mas os mais velhos votaram “sair”. Estará o futuro do projeto europeu comum em risco de se dissolver? De Portugal, Francisco Fortunato, escreve o seguinte comentário:

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Pixabay/Domínio público

Não acredito que a União Europeia tenha aprendido nada com o terramoto britânico. Nem compreendido as angústias dos mais desfavorecidos, nem os problemas que a construção do projeto europeu às escondidas dos cidadãos provocaram. Cedo ou tarde, um acontecimento como o inglês ia acontecer. Para nosso mal, o nosso futuro europeu comum é cada vez mais uma miragem, um sonho bom que se está a tornar um pesadelo. A Inglaterra não será um contraponto – por pequeno que tenha sido – ao poder alemão, a França está tão frágil que a sua voz pouco conta. A reação dura – pedindo um processo rápido – dos decisores europeus à saída da Inglaterra da União Europeia não passa de uma ameaça aos outros países. Nada faz prever uma inflexão de rumo, uma aprendizagem com os profundos erros cometidos.
Provavelmente, teremos uma União Europeia cada vez mais germanizada, mais fechada sobre o seu pequeno círculo de satélites e os outros condenados a viver ligados ao soro alemão, que lhes vai permitindo pouco mais do que se manterem à tona, ou a uma rutura que os vai atirar para uma crise social e política de proporções dantescas. É o fim de um sonho lindo.

No continente africano, os moçambicanos também reagiram à possível saída do Reino Unido da UE. Isalcio Mahanjane chama-lhe o “sarilho do Brexit”:

(…) Vale a pena dizer que estamos em face de um verdadeiro “sarilho”, para os British themselves (para os próprios britânicos), para o resto da UE e para o mundo, donde não escaparão a minha África e o meu Moçambique! (…)

Eduardo Matine responde que:

(…) Nos moldes em que Bruxelas vinha gerindo esta união, tarde ou cedo, de algum lado se ia desintegrar! A crise da Grécia fortaleceu a Alemanha com conivência de Bruxelas, só para citar alguns imbróglios que o Reino Unido e outros tiveram que engolir porque devem respeitar diretivas lá da união! Essa união, que supõe-se que devia servir aos países membros, deixa-se guiar por agendas milionárias de grupos económicos financeiros ditando regras de jogo e sendo jogador e fiscal ao mesmo tempo! (…)

De Angola, Márcio Cabral, que viveu no Reino Unido, teme pelo aumento da xenofobia:

(…) Não acho que o “Brexit” tenha sido uma decisão acertada do ponto de vista económico. Quanto ao ponto de vista social, este sim é o que me preocupa profundamente. Como frisou o meu colega britânico Gerson Emanuel, a motivação deste voto foi puramente xenófoba…e por isso temo bastante que o sentimento anti-emigrante venha a crescer de forma voraz nos próximos tempos naquele país. Quando lá vivi, ouvi bastantes vezes a frase “Go back to your Country = Volta para o teu País” e temo que os meus, que ainda lá vivem, venham a passar por situações de racismo e xenofobia. Por mais “britânicos” que eles se possam sentir…

O cabo-verdiano, Herminio Silves, acredita que a saída do Reino Unido vai afetar o seu país:

BREXIT GANHA. E CABO VERDE COM ISSO?

Flag_of_Cape_Verde_(2-3_ratio).svgPelos visto nos vai afetar e muito. A saída do Reino Unido da União Europeia prejudica – sim prejudicar, porque é o nacionalismo exacerbado e a xenofobia que venceram – o principal bloco do planeta, pelos seus efeitos de contágio. A Holanda, a França, a Itália e a Turquia (esta quer entrar na UE) já cogitam avançar também com um referendo se permanecem na União ou se ficam para a manter firme.
Com os sinais vindos do Reino Unido, é crível que esses países se deixem levar pela mesma onda e preferir sair da UE. Com isso, pode estar por um fio a moeda única europeia, o Euro, como aliás, se defende na Itália. Roma vai começar a referendar primeiro a sua saída da zona Euro, antes de avançar com uma consulta pública sobre a sua permanência na UE.
A desintegração começa a sentir-se e é o cenário mais preocupante. Cabo Verde é um dos que perde com o desmembramento da UE. O país, que por via do acordo cambial mantém o Escudo preso ao Euro, poderá não aguentar as oscilações do mercado se a moeda única europeia for para o brejo.
Além disso, há acordos bilaterais (pesca, circulação), financiamentos e o protecionismo que nos foge, ainda por cima, nesta época difícil.
Curioso é que ainda esta semana o presidente da AN (Assembleia Nacional), Jorge Santos, esteve nas Canárias onde, juntamente com os Açores e a Madeira, Cabo Verde reivindicou uma participação ativa nas instituições da UE, no quadro da Macaronésia. Bem, se os tubarões estão em debandada, que será dos peixinhos?

O referendo de 23 de junho não é juridicamente vinculativo. A saída do Reino Unido pode até não se concretizar embora seja muito pouco provável porque desrespeitar a vontade democrática do eleitorado britânico pode ser um suicídio político para qualquer partido que assuma o poder. David Cameron assegurou, antes de se demitir, que a decisão do povo seria soberana e respeitada e os restantes líderes partidários partilharam da mesma opinião. Compete ao Parlamento britânico aprovar o referendo e pedir ao primeiro-ministro para invocar formalmente o artigo 50 do Tratado de Lisboa que prevê a possibilidade de qualquer Estado sair de forma voluntária e unilateral da União Europeia. Uma vez ativado o referido artigo 50, inicia-se um processo de desvinculação que pode durar até dois anos.

Entretanto, o secretário de Estado das Comunidades português, José Luís Carneiro, disse aos jornalistas em Lisboa que:

Os portugueses com mais de cinco anos de trabalho no Reino Unido devem acautelar os seus direitos e requisitar a residência permanente naquele país, independente da saída ou não dos britânicos da União Europeia.