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O arcebispo de Valência e sua cruzada contra o “Império Gay”

Cañizares en la misa de su toma de posesión como arzobispo de Valencia

Cardinal Cañizares em sua  missa de posse em Valência. Screenshot de um vídeo do YouTube da Arquidiocese de Valência.

Nos últimos anos, a Espanha “tem testemunhado um aumento nas posições assumidas por líderes políticos que são contrárias à família, os quais são auxiliados por outros poderes tais como o ‘Império Gay’ e certas ideologias feministas”, disse o Arcebispo de Valência, Antonio Cañizares, em sua homilia, durante uma missa que foi celebrada na sede valenciana do Pontifício Instituto João Paulo II de Estudos sobre o Matrimônio e Família.

O cardeal católico também disse que a Espanha é o país europeu “onde tem havido mais abortos, divórcios e parcerias civis”, e também denunciou a legislação que promove a “ideologia de gênero” (referindo-se à ideia de que as diferenças entre homens e mulheres são construções sociais) como sendo “a coisa mais insidiosa na história da humanidade.”

Cañizares pertence à ala linha-dura da Igreja Católica, que dominou a Espanha durante os pontificados de João Paulo II e Bento XVI, mas que parece estar entrando em decadência com o Papa Francisco I. Mesmo assim, alguns de seus líderes ainda insistem em atacar a comunidade LGBT e estiveram recentemente envolvidos em amargas controvérsias.

Como era de se esperar, suas declarações provocaram discussões acaloradas. No Twitter, as palavras do arcebispo foram recebidas com certa dose de humor, e a avalanche de tweets e memes colocou a frase “Império Gay” entre os trending topics, no dia 19 de maio.

Tome nota deste nome para uma sauna: Império Gay

Se isto não for fruto do Império Gay, então não sei o que é.

 Império Gay.

Cardeal Cañizares: O Império Gay está planejando um ataque contra as famílias.

Buenafuente, caracterizado de Darth Gayer

Buenafuente caracterizado de Darth Gayer. Foto de eldiario.es, com a licença CC BY-SA 3.0

O humorista Andreu Buenafuente, em seu programa Late Motiv, declarou ser “um grande fã de Cañi”, e dedicou seu monólogo ao cardeal:

Cañizares, los días que sale el arco iris, no sale de casa. Él cree que vendrá Elton John y se lo va a llevar al infierno a ver vídeos de George Michael hasta que los ojos le sangren.

O Cañizares, nos dias em que aparece um arco-íris no céu, não sai de casa de jeito nenhum… Ele acha que o Elton John vai aparecer de repente e arrastá-lo às profundezas do inferno para fazê-lo assistir aos vídeos de George Michael até que seus olhos sangrem.

Mas nem todo mundo vê humor na homilia do cardeal. Paco Ramírez, diretor do Observatório Espanhol contra LGBT-Fobia, emitiu uma dura “Carta aberta do Império Gay contra o Druída Panoramix Cañizares.” Nela, Paco descreve o cardeal como estando “fora de si”, e cita estudos científicos que “comprovam que a homofobia irracional e a intolerância se devem a problemas psicológicos graves e que essas pessoas são propensas a distúrbios psicóticos que, em casos extremos, podem levar à esquizofrenia.” Ramírez também acusa Cañizares de incitar a violência homofóbica:

Como Panorámix el druida de “Astérix y Obélix”, se empeña en seguir defendiendo con furia y rencor una concepción de la sociedad y de la Iglesia caduca y que ya no existe, el mundo ha cambiado y su Aldea Gala de la ortodoxia fundamentalista se ha convertido en un burbuja traslúcida que no le permite ver que sus homilías en vez de difundir el mensaje de amor y concordia del Evangelio son un altavoz para el odio, la confrontación y la incitación a la violencia.

Como Panoramix, o Druída, do [quadrinho francês] “Asterix e Obelix,” ele está determinado a continuar com a defesa furiosa e amargurada de conceitos de sociedade e de Igreja que são, além de obsoletos, inexistentes. O mundo mudou e sua aldeia gaulesa ortodoxa e fundamentalista  transformou-se numa bolha translúcida, através da qual ele não pode enxergar que em vez de estar pregando a mensagem de amor e harmonia do Evangelho, suas homilias estão, ao contrário, servindo de alto-falante difusor do ódio, da confrontação e da incitação à violência.

Numa sociedade como a espanhola, que é cada vez mais secular e tradicionalmente tolerante com as identidades sexuais minoritárias, poucas vozes têm se levantado para defender Cañizares. No periodistadigital.com, o usuário ‘Mar’ demonstrou estar de acordo com o arcebispo:

Me adhiero completamente a sus declaraciones señor Obispo. Hay q ser valiente para expresarlas. Hoy por hoy los vicios están de moda, entre ellos la homosexualidad y el feminismo. Pero qué es esto? Tan vacío está el ser humano que necesita llamar la atención de cualquier forma? El exhibicionismo y la agresividad de estos grupos lo confirman.

Concordo plenamente com as declarações do Bispo. A pessoa tem que ser corajosa para expressar esse tipo de opinião. Hoje em dia, os vícios estão em voga, incluindo o homossexualismo e o feminismo. Mas, o que é isso? Os seres humanos estão tão vazios assim que precisam chamar para si a atenção a qualquer custo? O exibicionismo e a agressividade desses grupos confirma isso.

Em Infocatolica.com, Edith afirmou que ela está ciente do “problema”:

Todos ya nos estamos dando cuenta de la furibunda dictadura gay.

Todos nós estamos nos conscientizando da furiosa ditadura gay.

El cardenal Cañizares con la «capa magna» en 2007, durante una ordenación de sacerdotes en Toledo

O cardeal Cañizares com a “capa magna” em 2007, durante uma ordenação de sacerdotes em Toledo. Foto de laicismo.org

Mas a maioria dos usuários da Internet condenou as palavras de Cañizares, classificando seu discurso como rançoso e obsoleto:

Androcentritis (en eldiario.com): A ver si se enteran estos hombres célibes y castos de que la única autoridad que tienen es con respecto a sus subalternos y que no pretendan meterse en las camas ni en las braguetas de los miembros de la sociedad civil del siglo XXI (no XI ni XII).

Androcentritis (em eldiario.com): Vamos ver se esses homens celibatários e castos estão cientes de que a única autoridade que eles possuem é com relação aos seus subordinados, e que não têm o direito de se intrometer na vida pessoal dos membros da sociedade civil no século 21 (não século 11 ou 12) ou de julgar o que os mesmos fazem entre quarto paredes.

Roberto (en infocatolica.com): El Cardenal Cañizares cumple su misión, como pastor de la Iglesia defender el modelo de familia católica; el problema que es que gran parte de la población ha dejado de ser católica (si es que alguna vez lo fue) y entonces la forma de entender la familia, la sexualidad, las relaciones, etc para mucha gente ya no está centrada en la fe y en la moral que se deriva de ella.

Es un problema que se va a dar cada vez más, lo obispos y sacerdotes en cuestiones de moral (aunque su mensaje vaya dirigido a todos), tendrán que considerar que solamente la comunidad católica va a ser la receptora de sus mensajes, y esta comunidad va a ser menos numerosa y mas envejecida.

Roberto (em infocatolica.com): o Cardeal Cañizares cumpre sua missão como pastor da Igreja ao defender o modelo de família católica; o problema é que grande parte da população deixou de ser católica (se é que foi, algum dia), então, a forma como muitas pessoas percebem família, sexualidade, relacionamentos, etc., não se centra mais na fé e na ética que dela derivam.

É um problema que vamos ver com mais frequência: bispos e padres envolvidos em questões morais (embora a sua mensagem seja dirigida a todos) terão que considerar que só a comunidade católica receberá suas mensagens, e que esta comunidade será composta por pessoas idosas e em número reduzido.

Quanto às implicações legais que os comentários do arcebispo possam gerar, Lambda, um grupo de defesa dos direitos LGBT, entrou com uma queixa formal junto à promotoria pública contra crimes de ódio “por seus comentários homofóbicos e sexistas, que só servem para incitar o ódio contra aqueles que não se encaixam nos padrões arcaicos defendidos pela hierarquia Católica.”

Em meio à controvérsia, o Papa Francisco exigiu a presença do arcebispo no Vaticano para uma audiência inesperada em que, de acordo com eldiario.es, “as palavras do cardeal foram o assunto principal da conversa.”

(…) el Papa Francisco no quiere que los obispos españoles sigan boicoteando el cambio de mensaje que pretende hacer llegar desde la Iglesia. Y menos, en un momento en el que “España está viviendo un momento electoral y político muy complicado” en el que la Iglesia “debe ser instrumento constructivo, y no elemento desestabilizador”, apuntan fuentes eclesiásticas.

(…) Así, mientras desde el Vaticano se han abandonado las palabras gruesas contra los homosexuales, los divorciados o cualquier cuestión relativa a la moral sexual, algunos obispos (…) siguen empeñados en hacer del sexo un caballo de batalla.

[…] O Papa Francisco quer que os bispos espanhóis parem de boicotar a mudança no tom da mensagem que ele quer pregar através da Igreja. O que é pior – e as fontes eclesiásticas já perceberam – é que isso está acontecendo num momento em que “a Espanha passa por uma fase eleitoral e política muito complicada”, onde a Igreja “deve ser uma ferramenta construtiva; não um elemento desestabilizador.”

[…] Assim, enquanto o Vaticano abandonou o uso de palavras pesadas contra os homossexuais, pessoas divorciadas ou qualquer outro assunto em matéria de moralismo sexual, alguns bispos […] insistem no compromisso de se utilizar do tema sexualidade como um motivo para gerar discórdia.