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Movimento secundarista se alastra pelo Brasil: já são mais de 230 escolas ocupadas em 7 estados

Manifestação de estudantes de São Paulo

Manifestação de estudantes de São Paulo. Foto via Não Fechem Minha Escola e Jornalistas Livres, uso livre.

Após a onda de ocupações de escolas em São Paulo e Goiás no final de 2015, em que centenas de instituições de ensino foram tomadas por seus próprios alunos em protesto contra cortes de verba e abandono do poder público, o movimento ressurgiu com ainda mais vigor nas últimas semanas. São mais de 230 ocupações em sete estados brasileiros, do Nordeste ao Sul, com estudantes protestando por melhor qualidade de ensino, infraestrutura e alimentação.

Uma das características das ocupações é o zelo pelo patrimônio público mostrado pelos estudantes, que revezam-se em equipes de limpeza e manutenção dos equipamentos. O apoio da população tem permitido a realização das mais diversas atividades culturais e políticas, como shows de música e aulas dadas por professores voluntários.

O movimento começou na cidade de São Paulo, entre setembro e dezembro de 2015, quando 200 escolas públicas foram ocupadas contra um projeto, chamado de “reorganização escolar”, que fecharia 93 unidades, proposto pelo governador Geraldo Alckmin. O movimento foi vitorioso ao forçar o cancelamento do plano e terminou por inspirar uma onda de ocupações no estado de Goiás, onde um outro plano estadual previa terceirizar a gestão de escolas públicas a organizações privadas, ao Exército e à Polícia Militar. Trinta escolas chegaram a ser ocupadas em Goiás desde janeiro e a última só foi desocupada em março.

O movimento voltou com toda a força em São Paulo em maio deste ano após a revelação do escândalo da “máfia da merenda“, que envolve o presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo (ALESP), Fernando Capez, um aliado próximo do governador Geraldo Alckmin. O esquema envolvia pagamento de propina a políticos, que celebravam contratos de merenda superfaturados com fornecedores.

No início de maio, estudantes ocuparam o plenário da ALESP exigindo a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o esquema. Pressionados, deputados terminaram por protocolar um pedido de abertura, o primeiro passo do trâmite da criação de uma CPI.

A merenda escolar oferecida aos estudantes na maioria das escolas estaduais é notoriamente precária.

Estudante é agredido e imobilizado por policial militar em São Paulo. Foto: Rogério Padula/Democratize, uso livre

Estudante é agredido e imobilizado por policial militar em São Paulo. Foto: Rogério Padula/Democratize, uso livre

Como no ano passado, a mobilização dos estudantes vem sendo tratada com violência pela polícia. A agência de mídia independente Democratize acompanhou a desocupação de três escolas no dia 13 de maio. A ação da PM aconteceu sem mandado judicial:

“A Procuradoria Geral do Estado de São Paulo, que defende o governo Geraldo Alckmin (PSDB), orientou as secretarias estaduais a, daqui para a frente, fazer reintegração de posse de imóveis públicos ocupados por manifestantes sem recorrer à Justiça.

De forma autoritária e sem mandado judicial, pelo menos três ocupações foram invadidas por policiais de forma truculenta na manhã desta sexta-feira (13).

No mesmo dia, o Jornalistas Livres acompanhou a desocupação da Diretoria de Ensino da Região Centro Oeste (DECO), que ocorreu também sem mandado judicial:


No dia 19 de maio, uma passeata dos estudantes em direção à Secretaria de Educação foi reprimida pela polícia com extrema violência. Ao menos quatro estudantes foram detidos e vários ficaram feridos, segundo a agência Democratize. Neste vídeo, divulgado pela página do Facebook O Mal Educado, um estudante mostra o ferimento na cabeça após agressão policial:

Goiás

Em Goiás, mesmo após a desocupação das escolas no início do ano, os estudantes seguem mobilizados contra o plano de privatização e militarização do ensino, além de terem adotado a pauta da melhora na qualidade da merenda fornecida.

Um protesto no dia 19 de maio foi brutalmente reprimido pela Polícia Militar do estado. Em vídeo postado pelo perfil do Youtube Desneuralizador Brasil, é possível ver algumas cenas da violência:

A estudante goiana Ana Beatriz Tavares desabafou em seu perfil no Facebook:

Hoje, em um ato pacífico, contra a OS's fomos reprimidos pela PM ( aquela que tem o papel de cuidar da sua segurança, não é mesmo?)

Estudante é carregado por colegas durante repressão em Goiás. Foto: Desneuralizador, uso livre

Estudante é carregado por colegas durante repressão em Goiás. Foto: Desneuralizador, uso livre

Pedimos para o Secretário de Ciências e Desenvolvimento descer e receber nosso documento, com todas a nossas pautas. Ele não desceu, mas mandou a mão do estado pra cima de estudantes que lutam por uma educação melhor. Prenderam, jogaram bombas de efeito moral, atiraram e bateram em estudantes. Enquanto isso, acontecia um ato contra a legalização do aborto organizado pela SEDUCE, que levou ônibus com estudantes de colégios militares para essa “passeata”, mas a polícia não reprimiu esses estudantes, será por quê?

Essa é a “democracia” em que vivemos!

O Desneuralizador postou uma série de fotos com imagens da repressão, de feridos e agredidos pela polícia militar e um vídeo com cenas de violência.

Rio de Janeiro

No Rio de Janeiro, passam de 73 as escolas ocupadas por estudantes. Um mapa colaborativo foi montado para que qualquer um possa identificar as escolas e prestar apoio. O objetivo dos estudantes é denunciar o sucateamento das escolas e o abandono que sentem diante do poder público.

Cada colégio também reinvidica pautas específicas: no Colégio de Aplicação, que é ligado à UERJ, estudantes exigem o fornecimento de alimentação pelo governo, já que a cantina da escola é terceirizada e os alunos são obrigados a pagar pela própria comida.

Estudante é carregado enquanto a Polícia Militar desocupa dcom violência a SEDUC do Rio. Foto via Desneuralizador

Estudante é carregado enquanto a Polícia Militar desocupa dcom violência a SEEDUC do Rio. Foto via Desneuralizador

Um dos episódios mais marcantes do movimento no Rio foi a desocupação do colégio Prefeito Mendes de Moraes, no dia 16 de maio. Este foi o primeiro colégio a ser ocupado pelos estudantes, ainda em março, e vinha sofrendo constantes invasões e ameaças de um movimento contrário às ocupações, conhecido como Desocupa. Um aluno relatou que integrantes do Desocupa invadiram e depredaram a escola no dia 10 de maio e os ocupantes precisaram se retirar temporariamente para se proteger.

A desocupação final aconteceu de maneira pacífica após a polícia receber ordem judicial de liberar o prédio. Os estudantes do Mendes de Morais convenceram a Secretaria Estadual de Educação a estabelecer uma comissão de visitas em cada escola que foi ocupada para analisar o que cada unidade precisa, além de um documento expedido pelo órgão garantindo reformas emergenciais no valor de até R$ 15 mil. Ao jornal Folha de S. Paulo, o aluno João Victor relatou:

Estamos desocupando com muita alegria porque podemos passar o nosso poder de organizar, agir. Foram 56 dias de muita resistência, mesmo debaixo de ataques de todos os lados. Grande parte das nossas pautas foi atendida e isso é uma grande vitória. O Mendes foi a chave que abriu a porta para o restante da luta e seria injusto abandonarmos essa causa. Saímos daqui, mas continuamos com os nossos irmãos nas outras escolas.

Outro episódio de violência foi quando estudantes ocuparam a SEEDUC, a Secretaria Estadual de Educação do Rio no dia 20 de maio e foram removidos à força e com violência pela Polícia Militar no dia seguinte, como mostra o vídeo do usuário do Youtube Victor Ribeiro:

Rio Grande do Sul, Ceará e outros estados

O movimento parece ganhar proporções nacionais com novos estados aderindo aos protestos. No Rio Grande do Sul, no extremo sul do Brasil, já são mais de 150 escolas ocupadas — um número impressionante para um movimento que começou no dia 16 de maio. No Ceará, na região Nordeste, são 56 escolas. Em ambos estados os secundaristas se uniram aos professores da rede estadual, que decretaram greve, de acordo com a Democratize.

Como em outros estados, eles cobram melhorias nas escolas públicas, da qualidade do ensino à merenda.

Ao menos uma escola foi ocupada em Maringá, no estado do Paraná, e uma em Várzea Verde, no estado do Mato Grosso até o dia 23 de maio.