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Polícia ataca manifestantes e impede passeata contra a tarifa em São Paulo

Manifestantes não concordaram com o percurso da passeata imposto pela PM, que passou a atacá-los

Manifestantes não concordaram com o percurso da passeata imposto pela PM, que passou a atacá-los. Foto: Jornalistas Livres, uso permitido.

O segundo protesto convocado pelo MPL contra o aumento da tarifa do transporte público em São Paulo — que passou de R$ 3,50 para R$ 3,80 no último sábado — estava marcado para o dia 12 de janeiro, mas desta vez a passeata nem chegou a sair do lugar.

Ainda durante concentração, a polícia disparou bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo, balas de borracha e golpes de cacetete contra os manifestantes, que foram dispersados em minutos. Vinte quatro pessoas ficaram feridas, algumas em estado grave. Nas redes sociais, vídeos e relatos denunciam a repressão brutal da polícia, no que alguns chamaram de ‘cenário digno de ditadura‘.

Enquanto se concentravam na Praça do Ciclista, no cruzamento entre as avenidas Paulista e Consolação, houve um desacordo entre o MPL e a Polícia Militar com relação ao trajeto da passeata. Os manifestantes queriam caminhar pela Avenida Rebouças até o Largo da Batata, na Zona Oeste, enquanto os policiais ordenavam que eles se dirigissem em direção ao Centro pela Avenida Consolação, no sentido oposto.

Enquanto isso, a região inteira estava cercada por um cordão policial, impedindo a entrada de pessoas do local e bloqueando o acesso à Avenida Rebouças. Um vídeo mostra um representante do MPL ainda negociando o trajeto com um coronel da PM quando bombas de gás começam a ser atiradas contra os manifestantes.

As bombas caíram justamente na Avenida Consolação, portanto, ao tentar fugir, os manifestantes deram de cara com cordão policial. Imagens feitas do alto de um prédio no entorno mostram o momento em que isso aconteceu:

Outro vídeo do Centro de Mídia Independente (CMI) mostra o mesmo momento:

Iniciado o ataque, os manifestantes saíram em fuga pelas ruas do centro. O gás da rua entrou na estação de metrô Consolação, para desespero de quem saia do trabalho ou apenas buscava se refugiar. Também foram relatadas invasões de prédios privados pela polícia enquanto tentavam cercar manifestantes nas imediações — uma usuária do Facebook comentou que um PM entrou de moto dentro do prédio do irmão dela.

O vídeo do ativista Caio Castor mostra cronologicamente os acontecimentos de ontem, desde a concentração até a perseguição dos manifestantes pelas ruas nas imediações da Paulista.

Em coletiva de imprensa na noite após a manifestação, o Secretário de Segurança Pública de São Paulo Alexandre de Moraes afirmou que a polícia exigiu que o protesto seguisse pela Consolação porque o MPL não informou o trajeto às autoridades previamente. Tradicionalmente, o MPL decide o percurso dos seus atos durante a concentração. Para o Secretário, todas as manifestações a partir de agora deverão ter seu trajeto informado com antecedência, caso contrário a polícia irá escolher o caminho.

Respondendo às falas do Secretário, a porta-voz do MPL Erica de Oliveira afirmou ao Estado de S. Paulo que “quem define o rumo da manifestação é quem se manifesta, e não a polícia“.

Ao todo, dezessete pessoas foram detidas e 24 ficaram feridas, inclusive dois jornalistas e um catador de latas que apenas passava pela região, atingido por uma bala de borracha na perna. Um dos feridos o metroviário Heber Veloso, que ficou com o rosto ensanguentado. Um manifestante levou tiro de bala de borracha no olho, mas não corre o risco de perder a visão, e um outro rapaz teve fratura exposta na mão.

Ativista perdeu os dentes depois de agressão policial com cacetete. Print de vídeo postado pelo coletivo Território Livre

Ativista perdeu os dentes depois de agressão policial com cacetete. Print de vídeo postado pelo coletivo Território Livre

O fotógrafo Francisco Toledo foi ferido atingido por estilhaços na perna e foi encaminhado ao Hospital das Clínicas. Em sua página do Facebook, ele explicou o que aconteceu:

Aos amigos e todos que mandaram mensagens, obrigado demais pelo apoio. Infelizmente terei que ficar um mês fora de tudo. O estilhaço da bomba entrou e não quis sair. Vou carregar isso na perna o resto da vida.

Sete pontos, vivo e em casa. Tudo porque a PM quis, talvez por pura desumanidade, jogar uma bomba de efeito moral dentro do estacionamento de um hotel.