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Entrevista a Laurinda Gouveia, jovem acusada de tramar rebelião contra o governo angolano (parte II)

Laurinda Gouveia em seu quarto. Foto: Eliza Capai/Publica

Laurinda Gouveia em seu quarto. Foto: Eliza Capai / Agência Pública

Esta entrevista foi publicada originalmente no site da Agência Pública, em 16 de Novembro de 2015. O Global Voices reproduz o artigo em duas partes. Leia aqui a primeira parte da entrevista.

Pública: O que você acha de tão errado nesse governo, pra sair à rua repetidamente pedindo a saída do presidente?

LG: Primeiro temos que aceitar a realidade: as coisas estão mal. Um dos fatos mais candentes é o caso dos 15 [ativistas presos]. Muitas das vezes eu penso que enquanto pessoas nós devemos ser valorizadas, né?, as nossas liberdades devem ser conservadas, e, quando isso não acontece, estão matando uma parte de nós, como humanos. O caso da luz: nós não temos luz constantemente. E nós precisamos da energia pra poder estudar. A educação é precária, nas universidades, os preços são exorbitantes, e muitas das vezes nos esforçamos para trabalhar, vamos para o serviço pra trabalhar, o salário é baixíssimo, nem dá pra pagar a universidade. Então não tenho como me desenvolver intelectualmente. Então, é a luz, é as estradas, há muita, muita coisa mais, e o que temos visto é que o presidente não olha para essas necessidades. E isso é o básico. O que a gente vê é que os filhos dele vão estudar fora. Só estamos a pedir que nos respeitem como pessoas, queremos luz, queremos comida, e acreditamos que quem tem que criar essas condições tem que ser o Estado. Por isso é que nós achamos que o presidente não está capacitado para governar, já vai 40 anos. Se nós sairmos daqui pra irmos pra as províncias, minha irmã, é algo mesmo desumano, é um sofrimento! Nós [em Luanda] ainda temos um bocadinho, eles nem isso têm. E contentam-se. Por quê? Porque o próprio Estado criou isso em nós: que é normal viver da maneira que vivemos.

Pública: Você também frequentou esses debates que levaram à prisão dos 15? O que acontecia neles?

LG: Nós criamos a ideia. Eu conversei com [o professor e ativista] Domingos da Cruz. Acredito que os outros manos que também estão presos fizeram a mesma coisa. Vimos que o Domingos da Cruz tem um pensamento coerente, as suas abordagens em relação à democracia e à cidadania, e há a dissertação que ele fez em que falava de Gene Sharp. Foi assim que nós decidimos falar com ele, de modo a ele nos passar essa experiência, e nós soubemos debatê-la.

Pública: Era um grupo de estudo, então?

LG: Exatamente. Era um grupo de estudo, de debates, em que nos reunimos semanalmente, aos sábados. E o tempo de duração era de quatro horas. Apresentávamos um manual, levávamos o manual pra casa, líamos, e aquilo que a gente entendeu é que a gente partilhava lá. E mesmo assim – apesar de ser uma coisa inofensiva, porque nós não fazíamos nada de mau e porque a nossa opção foi mesmo a luta não violenta – acredita que, ainda assim, vieram nos prender?

Pública: Tem gente que acredita que Angola é uma democracia e tem gente que acredita que é uma ditadura. Qual é a sua opinião?

LG: Nós vivemos uma ditadura, porque se fosse democracia, na verdadeira essência, os jovens não estariam presos. Há quem diga que se fosse uma ditadura nós não estaríamos mais aqui, mas nós sentimos essa dureza. É complicado, não tem como falar de democracia. Não tem como. Quando a gente organiza alguma manifestação, ou ainda, coisa mais grave, quando a gente tenta fazer alguma coisa pelo sítio em que a gente vive, criam artefatos para que a gente não desenvolva aquilo que a gente está a fazer. Então, não se fala de democracia. Não existe. O que existe é a Constituição, eles fizeram muito bem e eles privilegiam-se disso. Mesmo a Constituição eles que fizeram, até porque nós não participamos. Nem os próprios debates da Assembleia passaram na televisão. É que praticamente nós somos animais, não participamos em nada. Nós vivemos uma ditadura em todos os âmbitos: na família, nas universidades, na escola. Nas universidades os professores são autoritários. Você, quando expressa uma ideia, é exonerado. Mas acredito que cruzar os braços não é a solução. Nem que nós tenhamos que morrer por isso, pelo menos fizemos alguma coisa. E vamos fazer, e os nossos filhos, quando vierem, também vão dar continuidade disso, porque acreditamos. Por mais que nós não usufruamos de uma Angola melhor, as pessoas que virão têm que usufruir de uma Angola melhor. E o problema desse país não tá na população, tá no topo. É o presidente e o seu MPLA.

Você acha que sua família ficou com medo ou não aceitou que você pensasse diferente?

LG: Eu acredito que as duas coisas, porque eles cresceram nesse ambiente. No entanto, tenho familiares que morreram no [massacre de] 27 de maio [de 1977, durante a guerra civil]. A minha tia conheceu muito bem, seu marido morreu. Isso tudo é fruto da experiência anterior. E, lógico, numa parte eu poderia dizer que é um excesso de zelo. Acreditas que, se tu só mesmo em falar da palavra “política”, ouves “é melhor tu não falares disso, se querer viver até muito tempo, convém comer, beber, estás a ir na escola, tens um emprego, casa e pronto!”. Os meus familiares viveram nesse ambiente. Apesar de eu ter um pensamento diferente deles, eles viveram aquilo e temem pela minha vida. Mas, como já disse, o próprio regime é que criou isso em nós. Nós vivemos amedrontados.

Pública: Como que é hoje a sua rotina?

LG: A minha rotina está na faculdade, cadeia, encontro com os familiares [dos presos]. E tenho acompanhado serenamente a situação dos meus manos, o que complica a mim mesma, bastante. Infelizmente, para complicar mesmo as coisas, o governo separou os presos, pôs cada um em uma cadeia fora da cidade, só mesmo para separá-los, porque a lógica MPLA é separar para melhor governar.

Pública: A sua geração é a primeira em Angola que não viveu nem o colonialismo português nem a guerra civil…

LG: Exato.

Pública: Você acha que essa geração tem menos medo?

LG: Olha, eu penso que cada geração é uma geração. E nós, logicamente, por não termos vivido aquela realidade colonial, após a independência, aquilo que foram os conflitos, nós vemos as coisas, digamos, com uma pureza, né? Apesar de nos transmitirem, nós não vivemos aquilo. Nós agimos consoante o nosso tempo. Queremos fazer a nossa história, nós queremos mudar o país. Não só para nós, como angolanos, mas para o mundo inteiro. Então, é preciso que deixem que nós façamos a nossa história.

Pública: As manifestações têm dado algum resultado?

LG: Precisamos de ser prudentes, porque muitas das vezes nós organizamos manifestações e quem aparece são sempre os mesmos. E a ação da polícia é sempre a mesma, né? Bater e levar pra [a cadeia de] Calomboloca, levar pras províncias. Então, eu penso que precisamos parar um bocadinho. Não quer dizer ficar indiferente com as coisas. Precisamos refletir o que a gente quer. Para mim, acho que nas eleições não vamos conseguir nada. Eu não acredito nas eleições pela máquina que é o MPLA. A exemplo disso, meu caso, eu vivo aqui em Luanda e muitas das vezes, quando é hora de votar, o meu nome sai nas províncias, onde eu nasci. Então, não tem como eu acreditar nas eleições… Eu acredito que, se há uma coisa que este governo tem medo, é das pessoas. Não tem medo dos partidos, porque brincam como se fossem bonecos. Brincam. Mas ele tem medo do povo. Tem medo da consciência do povo. Quando esse povo começar a despertar e descobrir que ele pode fazer alguma coisa por este país, então teremos um país melhor, né?

Pública: Você sente machismo em Angola por causa da sua atividade política?

LG: Numa sociedade como a nossa, em que o machismo tá acentuado, muita das vezes o homem acha que, pronto, enquanto mulher, deve estar sujeita ao homem. O que me incomoda é o fato dos rapazes acharem, enquanto menina e enquanto ativista, que há coisas que eu é que tenho que fazer. Por exemplo, eu saio da minha casa, vou pra uma reunião na casa de um dos ativistas, e, por ser a única menina, acham que, enquanto eles estão a resolver lá os problemas, eu é que tenho que cozinhar pra eles. E realmente eu não aceito isso! Porque eu não saí da minha casa pra cozinhar pra vocês! E se eu vim pra reunião, eu primeiro tenho que cumprir aquilo que é o meu objetivo!

Pública: Você reclama?

LG: Muitas das vezes eu tenho reclamado isso e tem surtido efeito. Digamos que os efeitos são paulatinos, e o estado da mulher aqui em Angola ainda está mesmo muito baixo, né?, e muitas das vezes eu, comigo, entro até em quase frustração, porque eu estou a lutar por uma Angola melhor, mas muitas das vezes vejo as minhas manas lá embaixo.

Pública: Você acha que teve um elemento de machismo pelo fato de os policiais terem selecionado você pra espancar?

LG: Eu penso que sim, porque eles viram-me, né?, tipo “não, como ela é que está sempre a se meter?”. Mesmo depois do espancamento, um dos polícias disse: “Laurinda, você tem alguma doença?”. Eu disse “Não!”. “Mas por que que você fica assim com o cabelo natural?” Eu disse: “Porque eu gosto!”. “Mas não pode ser assim. Você até nem devia estar a fazer isso. Não se mete nisso, você é mulher e, como mulher, se preocupe em casar, em ter uma casa, ter teus filhos… Até olha, depois dessa surra que nós te demos, tu já não vais fazer filhos!” Me disseram isso.

Pública: Falaram isso?

LG: Até disseram “Mas olha, Laurinda, deixa de se meter com esses jovens, olha você até não quis colaborar conosco, não quer começar a colaborar conosco…? Vamos te dar um serviço, até pode namorar com um de nós, tem pessoas aqui em condições, só que você vai se meter com aqueles miúdos, aqueles confusionistas!”. Então, houve, sim, machismo, e tem havido sempre.

Leia aqui a primeira parte da entrevista…