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As reacções dos internautas moçambicanos face aos atentados de Paris

frenchfacebookOs atentados terroristas de Paris, em França, foram recebidos com grande alvoroço em todo o mundo, mas a forma como alguns quadrantes se manifestaram perante o trágico acontecimento diferiu de país para país ou de continente para continente. Em Moçambique, as reacções foram díspares e conflituosas sob o ponto de vista de opinião. Houve comparações com vários casos semelhantes ou piores que acontecem em África e em Moçambique em particular. O pico do debate aconteceu em torno da opção “foto personalizada” do Facebook com a bandeira da França nas contas de perfil dos utilizadores desta rede social.

Francey Zeúte, activista social, solidariza-se com o caso mas recusa-se a mudar a sua foto do perfil:

O que ontem (13.11) aconteceu na França, é uma verdadeira e malvada estupidez! Solidarizo-me, sinto imenso pelas inocentes vidas que foram dadas fim. Como também lamento por todas outras que são todos os dias encurtadas por este mundo (incluindo no nosso país).
Mas não vou aderir à campanha de alteração da foto de perfil, aderindo com as cores da bandeira francesa. Como também não o fiz aquando do ataque à redacção do Charlie [Hebdo]. Respeito os que aderiram e vão ainda aderir. PAZ!”

Nelson Tivane comparou os ataques de Paris com o que acontece em quase toda a África:

Então, a ti que [estás] com a foto da França sobre [o] teu rosto ou corpo. Se você é africano, antes da França, pensa em Kenya, Nigéria e até em Moçambique (há mortes relacionadas com a brincadeira de cruzar fogo entre as elites políticas beligerantes). Será que vocês não [vêm]…não conseguem pensar [e] ir além do que lhes é mostrado!”

Mel Agy, artista e apresentadora de televisão, critica o que chama de “humanismo do Facebook”:

“Neprumali”! Fotos de perfis com as cores de França! Right! (certo!) Humanismo do Facebook adoptado por todos! Facebook entao eh “tribalista”! What about Beirute (então e…), Moçambique, Bagdad, Quénia, Angola, and so on ( e por aí adiante)????

‪#‎Djizass! Mapa Mundo então paah! ‪#‎PrayForTheWorld yah???? Tsc!

Tsutsi Fumo invoca vários problemas que aconteceram em Moçambique e não viu solidariedade igual:

Boa Tarde!
Nós sofremos com paiol; Nós sofremos com xenofobia; Nós sofremos com mortes em [Chitima]; Nós sofremos com mortes em Muxungue. Mas, eu não vi nenhum Francês, Português, Brasileiro, Americano… A mudar o perfil como forma de nos apoiar, não digo que não houveram; mas eu pelo menos não vi…Por isso quero dizer parabéns a todos Moçambicanos porque sabem apoiar mesmo sabendo que quando precisarem não serão apoiados…Nós realmente nos preocupamos com o resto do mundo…Obrigado”

Aaliyah Jorge Bila disse:

Alguns moçambicanos são de nada sabem…isso me deixa muito indignada! Assim que Paris sofreu um atentado estão todos a publicar fotos com as seguintes mensagens:” PRAY FOR PARIS”, “REZE POR PARIS”. Mas quando cá em Moçambique muitos estavam a morrer devido aos ataques de Muxungue ninguém publicava PRAY FOR [MUXUNGUE], muito pelo contrário, lançavam piadas em torno daqueles acontecimentos. Deixem de ser cínicos, apoiem e rezem pelo vosso país primeiro e não pelos dos outros.

Contudo, há quem condene essa forma de ver a solidariedade dos moçambicanos, com destaque para a activista e jornalista, Zenaida Machado:

O cúmulo do ridículo… Solidarizarem-se com 2000 vítimas de Boko Haram para mostrarem que estão preocupados com os assuntos africanos, e que os eventos de Paris não são mais importantes que os outros eventos que acontecem pelo resto do mundo.
O problema aqui é que se estivessem mesmo preocupados com os problemas africanos, teriam exibido essa preocupação com as vitimas do Boko Haram, em Janeiro, quando o incidente teve lugar ou [quando] os detalhes do massacre, no norte da Nigéria, chegaram ao público.

*** Minha dica: Deixem os franceses e quem se solidariza com eles, manifestarem e sentirem as suas dores. Quando chegar a vossa dor, manifestem-na voluntariamente, sem precisarem de ser solicitados ou pressionados ou aliciados por aplicativos do Facebook.

Libertem-se, meus irmãos, libertem-se!
Estavam a espera do massacre de Paris para se lembrarem que há problemas no continente africano?

No mesmo pensamento alinhou Matias Guente, jornalista do jornal Canal de Moçambique:

O sipaio* da indignação e fiscal do nacionalismo anácrono

O sipaio da indignação é um indivíduo estúpido. Ele não se comove com nada. Por cultivar a estupidez o seu papel é controlar o que indigna os outros. Ele mede essa indignação para ver se também o indigna ou não. Mas ele não se indigna com catástrofes, fica indignado por os outros estarem indignados. Assim que Paris está em chamas o sipaio da indignação porque é estúpido, está indignado porque há moçambicanos indignados.

O sipaio da indignação exige que os moçambicanos fiquem indignados com assuntos domésticos e mais nada. Que não olhemos para o que se passa no mundo. Os My Loves nunca o indignaram. A EMATUM nunca o indignou. Porque o estúpido é selectivo em nome de um nacionalismo fraudulento. Vidas humanas são mesmas na europa, em áfrica e em todo o lado. Não nos venham dar directivas sobre o que nos deve indignar, como e quando ficar indignado. Se não dá para ficar indignado não inventem categorias de indignação e as suas pautas. Haja paciência pah!!!”

* Nas antigas colónias ultramarinas portuguesas, polícia ou militar indígena recrutado geralmente para policiamento local ou rural“sipaio”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, http://www.priberam.pt/dlpo/sipaio [consultado em 16-11-2015].

Fernanda Lobato, activista social e fundadora do Olho do Cidadão refere que para ela não existe solidariedade de uns e de outros:

Uii…o que para aqui vai…os que se solidarizam…os que não se solidarizam com os acontecimentos em Paris…ui..antes que me coloquem em um dos grupos..continuo a achar que ha cidadãos de primeira, e cidadaos de segunda! Com isto quero dizer que sou contra o terrorismo, sou contra a violência, sou contra o sofrimento humano, sou a favor da paz, sou a favor da vida,da aceitação da diferença, seja ela religiosa, política,sexual. Sou a favor do respeito pela diferença. Sou a favor das democracias, da liberdade de expressão,enfim. Paz a todas as vitimas do terrorismo, todas elas, em Africa, na Europa, Asia, etc. Como disse a amiga Patricia Bettencourt, je suis le monde

Rafael Dias, jornalista do Jornal Savana, compara a forma como a media moçambicana destaca assuntos internos em detrimento do internacional:

A RTP dedicou, só neste domingo, cerca de duas horas ou seja uma manhã inteira falando do ataque de Paris. Um país vizinho. Estou rendido a esta imprensa. Antes de apelar ao nosso nacionalismo, seria muito interessante ver quanto tempo de antena a nossa TV pública dedicou à tragédia de Chitima. Isso porque não quero falar de Garissa.

PS: Estou feliz porque o Facebook, contrariamente aos que os apóstolos da Graça diziam, conseguiu acatar as críticas da sua solidariedade selectiva. Tudo indica que nos próximos tempos haverá mais formas de solidariedade estendida para muito mais causas para todos cidadãos do mundo.

O autor do Global Voices, Tomás Queface fez alusão ao facto de se perder o cerne da questão para discutir bandeiras no Facebook:

Entretanto, até à publicação deste artigo, o Governo de Moçambique não emitiu qualquer comunicado oficial sobre os atentados de Paris.

Nota do editor: O Facebook tem sido alvo de duras críticas quando activou a opção “Facebook Safety Check – Confirmação de segurança do Facebook” nos atentados de Paris e não em outros, como Beirute. As críticas alargam-se igualmente à “foto do perfil” com a bandeira da França. Mark Zuckerberg, respondeu às críticas dizendo que a opção de segurança foi originalmente criada apenas para situações de catástrofe natural e que a sua equipa decidiu alargar esse âmbito para situações de “man-made disasters – desastre criado pelo homem” precisamente na sexta-feira, 13 de Novembro.
  • Kayenne Dakye

    É triste ouvir coisas do género, atentados nunca e jamais serão bem vindas, solidarizo-me com os nossos irmãos franceses sim, mais recuso-me também a alterar a foto do meu perfil nas redes sociais, até porque cá em Moçambique vivemos um momento de instabilidade política porém ninguém se prontificou-se a alterar a foto do perfil nas redes sociais, enfim, acabamos comentendo um erro por acharmos que somos menos importantes que eles vamos partilhar a dor com eles sim, mais até alterar a foto acho um pouco exagerado….

    • Joaquim Tomo

      Esta exagerado mesmo. Mudar a foto do perfil por uma bandeira eh exagero. Esse tipo de exagero decorre em regra da hipocrisia do luto. Uma pratica vazia, teatral e sem sentido. Dai a justa idignacao. Aou mocambicano e conheco bem os meus compatriotas. Nao sao assim solidarios. Nao foram solidarios com o professor Cistac, alias poucos o foram, por medo de conotacoes politicas.Muitos ficaram caldos. Os mesmos que agora aparecem com bandeira alheia. O exagero esta precisamente na Bandeira. A bandeira eh algo intrinseco a um povo, excludivo e intimo, tal como o hino nacionalde cada nacao. Eh algo intimo, impregnado de folclore e juramento. Nao eh, portanto, o melhor caminho para manifestar comiseracao ou solideriedade. Eh inusitado e patetico. Nao voltem a fazer isso. Esta muito errado.