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Brasil: estudantes protestam contra o fechamento de escolas públicas

Estudantes protestam em São Paulo. Foto da Mídia Ninja.

Estudantes protestam em São Paulo. Foto da Mídia Ninja.

Milhares de estudantes tomaram nesta sexta-feira, 9 de outubro, a Avenida Paulista, em São Paulo, para protestar contra o possível fechamento de centenas de escolas estaduais e o remanejamento dos estudantes para outras unidades. Segundo os organizadores do protesto, eram pelo menos cinco mil estudantes nas ruas. A polícia respondeu com violência e quatro pessoas foram detidas — entre elas, um professor e um fotógrafo.

A proposta divulgada pelo governador do estado, Geraldo Alckmin, desagradou a alunos, pais e professores, que foram às ruas protestar diante da recusa do governo em negociar alternativas. Os estudantes protestaram também em outras partes da cidade de São Paulo e em outras cidades do estado, como Osasco, Ribeirão Preto e São Bernardo, mas nestas não houve a a mesma repressão policial que houve na capital.

Com a “reestruturação” proposta pelo governo, escolas passarão a atender a apenas um dos três ciclos do ensino secundário. No Brasil, o ensino secundário é dividido em três ciclos: 1º ao 5º ano, 6º ao 9º ano (ambos chamados de ensino fundamental) e o último, que reúne os três anos finais (chamado de ensino médio).

Atualmente, muitas escolas públicas em São Paulo oferecem vagas em mais de um ciclo. Segundo a Secretaria da Educação, até mil estabelecimentos, e cerca de dois milhões de alunos, podem ser atingidos pela medida.

A razão para a reestruturação, de acordo com o governo, é a queda da população em idade escolar no estado de São Paulo nos últimos anos — a rede estadual de ensino perdeu dois milhões de alunos desde 1998, segundo a Secretaria. Mas especialistas dizem que esta justificativa está sendo usada para disfarçar cortes de verbas da educação.

Caio Castor é preso pela PM. Foto de Rafael Vilela / Mídia Ninja.

Caio Castor é preso pela PM. Foto de Rafael Vilela / Mídia Ninja.

O jornalista Antônio Martins explicou as consequências da proposta:

A “reorganização” pretende eliminar a possibilidade de uma escola oferecer, ao mesmo tempo, vagas no ensino fundamental e médio. Nenhuma justificativa pedagógica é apresentada para esta cisão. As implicações, porém, tem caráter claramente discriminatório.

Os alunos das unidades que deixarem de atender ao grau de ensino em que estão serão transferidos. Só terão vagas asseguradas em escolas localizadas a até 1,5 km de suas residências. Isso obrigará centenas de milhares de jovens da periferia a deixarem escolas centrais — normalmente melhor estruturadas e equipadas. Estas, em muitos casos, fecharão por falta de procura, já que nas regiões próximas aos centros, a população têm idade média mais alta e tende a procurar o ensino privado. Ao invés de melhorar a qualidade do ensino em toda a rede estadual, para atrair este público, o governo Alckmin parece interessado em descartar suas melhores unidades.

Por exemplo: um aluno morador da periferia, que esteja iniciando o 6º ano em 2016 em uma escola da região central, que com a reestruturação deixará de oferecer o segundo ciclo, terá que ser transferido — e só terá sua vaga garantida em uma escola na periferia.

No Brasil, a maior parte dos alunos de escolas públicas no ensino secundário vêm de famílias de baixa renda (por consequência, muitas delas moradoras das periferias das grandes cidades), enquanto os filhos da classe média alta costumam matricular seus filhos em escolas privadas.

Montagem feita pela página Iconoclastia Incendiária, no Facebook, em protesto contra o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin.

Montagem feita pela página Iconoclastia Incendiária, no Facebook, em protesto contra o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin.

A página do Facebook “Não fechem minha escola”, criada no início deste mês após o anúncio da “reorganização” pelo governo Alckimin, postou diversas fotos da manifestação desta semana na Avenida Paulista.

Repressão policial

O coletivo Território Livre, que cobria a manifestação, divulgou no Facebook um vídeo em que mostra o início das agressões policiais.

como tudo começou?COMO COMEÇOU O CONFLITO NO ATO SECUNDARISTA?O vídeo prova que a PM começou o conflito de forma totalmente gratuita, arrancando uma máscara laranja de um jovem (máscara que nem cobria o rosto dele de verdade). Desde quando é crime colocar uma máscara na cara? O intuito da PM era provocar e dividir o ato em dois, para ter maior controle. Provocar para acabar com o ato, essa era a tática de hoje. Foi assim que o governador mandou seus homens agirem. No vídeo é possível ver também a agressão fortuita ao fotógrafo Caio Castor, que estava cobrindo o ato a trabalho e acabou preso (em outro video mostramos o momento da sua prisão).Fora Alckmin, inimigo da juventude!Não ao fechamento das escolas! Ocupar, se quiserem fechar!Viva a luta dos secundaristas!————–COMO LUTAR? Quais as medidas para ampliar a luta e mostrar a nossa força? A juventude do Chile já ensinou um caminho:1. Não sair das ruas: chamar novos e novos atos juntando todas as escolas;2. Articular todas as escolas num “comando estadual” de luta, com representantes eleitos democraticamente em cada escola. Esse comando decidirá democraticamente as ações conjuntas de toda a juventude do estado;3. Se preciso (caso realmente tentem fechar as escolas): ocupar. Entrar e não sair das escolas até o governo recuar.Não estamos lutando só por nós! Estamos lutando pelos empregos de todos os professores e funcionários das escolas. E estamos lutando pelo futuro da juventude; para que não passe essa ideia de que as escolas têm de ser cada vez mais prisões. Queremos que o futuro da juventude seja vivo, e não a morbidez das prisões.RESISTIR, ARTICULAR E OCUPAR!LUTE COM O TERRITÓRIO LIVRE!

Posted by território livre on Friday, October 9, 2015

E também explicaram:

O vídeo prova que a PM começou o conflito de forma totalmente gratuita, arrancando uma máscara laranja de um jovem (máscara que nem cobria o rosto dele de verdade). Desde quando é crime colocar uma máscara na cara? O intuito da PM era provocar e dividir o ato em dois, para ter maior controle. Provocar para acabar com o ato, essa era a tática de hoje. Foi assim que o governador mandou seus homens agirem.

No vídeo é possível ver também a agressão fortuita ao fotógrafo Caio Castor, que estava cobrindo o ato a trabalho e acabou preso (em outro video mostramos o momento da sua prisão). Fora Alckmin, inimigo da juventude!Não ao fechamento das escolas! Ocupar, se quiserem fechar! Viva a luta dos secundaristas!

O ativista Igor Carvalho denunciou a prisão do jornalista Caio Castor, que posteriormente acabou sendo liberado pela polícia:

O companheiro Caio foi preso agora pela manhã quando exercia o livre direito de registrar a, sempre violenta, ação policial, durante os protestos contra o fechamento das escolas estaduais em SP. Mais uma arbitrariedade da polícia do Alckmin.

E o coletivo Território Livre postou o momento da prisão de Castor e a agressão que sofreu enquanto era agarrado no chão:

O fotógrafo estava a trabalho, cobrindo o ato dos estudantes secundaristas contra o fechamento das escolas por Alckmin. Por que a PM optou por prender apenas um professor e um fotógrafo? Isso foi deliberado. Prender menor de idade dá muita dor de cabeça e pega muito mal. Por isso a PM optou por causar para prender de forma totalmente gratuita alguns maiores de idade. Assim ela tenta botar medo nos menores de idade. O fotógrafo Caio já havia sido esganado por um policial momentos antes (veja video do início do conflito). Abaixo a ditadura! Viva a luta da juventude! Não ao fechamento das escolas!

Castor gravou ainda o início da agressão policial contra os estudantes por outro ângulo e sua câmera registrou o momento em que foi preso e agredido.


O professor de sociologia Luis Carlos de Melo também foi preso durante a manifestação como mostra vídeo do mesmo coletivo. No total, quatro pessoas foram presas.

Racismo explícito

O Coletivo DAR - Desentorpecer a Razão questionou a ação policial contra os estudantes.

O Coletivo DAR – Desentorpecer a Razão questionou a ação policial contra os estudantes.

A estudante de Jornalismo Amanda Gomes Lemos, que também cobria o protesto, questionou a polícia sobre as razões das prisões e agressões sofridas por um dos manifestantes:

Em certo momento, resolveram atacar um garoto em específico. Resolvi perguntar aos policiais o motivo da agressão e a resposta foi: “ele está cobrindo o rosto com uma bandana”.

Eu, que também estava de bandana vermelha para evitar efeitos de possíveis bombas de gás lacrimogênio, respondi: “Por quê? Eu também estou do mesmo jeito e vocês não estão me agredindo”.

O policial, sorrindo, explicitou: “porque ele é negro”.

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Estudantes protestam em São Paulo. Foto da Mídia Ninja.

Novas manifestações já foram convocadas com a intenção de impedir o fechamento das escolas e, também, contra a repressão policial e pelo direito de protestar.