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Assassinato de jornalista reacende debate sobre liberdade de expressão em Moçambique

Vigilia de homenagem a Giles Cistac. Foto: Dercio Tsandzana/GlobalVoices

Na manhã de sexta-feira, 28 de Agosto, circulava no Facebook e Whatsapp a imagem de um homem cravado de balas, estatelado num dos passeios da avenida que carrega o nome do nacionalista angolano, Agostinho Neto, em Maputo, capital de Moçambique. Tratava-se de Paulo Machava, um veterano jornalista moçambicano, editor do jornal electrónico Diário de Notícias. Machava fazia a sua caminhada matinal antes de ser silenciado para sempre.

A morte de um jornalista não é um fenómeno novo em Moçambique. Há 15 anos atrás, em circunstâncias idênticas, o jornalista Carlos Cardoso, do MediaCoop, foi brutalmente assassinado numa das artérias de Maputo por uma quadrilha que mais tarde foi julgada e condenada no famoso julgamento Carlos Cardoso. Por detrás da morte do jornalista Carlos Cardoso estava uma investigação levada a cabo pelo mesmo sobre o desfalque de cerca de 144 milhões de Meticais num dos bancos moçambicanos.

Após a morte de Cardoso, a classe jornalística em Moçambique tem vivido momentos conturbados. Em Junho deste ano, dois jornalistas do Jornal Expresso Moz, Anselmo Sengo e Nelson Mucandze foram condenados a 4 meses de prisão e ao pagamento de uma indemnização de 10 milhões de Meticais por abuso de liberdade de expressão.

Fernando Veloso (esq.), Fernando Banze (centro) e Carlos Nuno Castel-Branco (dir.). Imagem:  Vozes não silenciadas

Fernando Veloso (esq.), Fernando Banze (centro) e Carlos Nuno Castel-Branco (dir.). Imagem: Vozes não silenciadas

O assassinato de Paulo Machava acontece três dias antes do início do polémico julgamento envolvendo o economista Carlos Nuno Castel-Branco, co-réu dos jornalistas Fernando Banze, editor do Jornal MediaFax e Fernando Veloso, Director do Jornal Canal de Moçambique. O economista é acusado de ter cometido o crime contra a segurança de Estado e aos jornalistas recai sobre eles o crime de abuso de liberdade de imprensa. Estas acusações estão vinculadas a um texto de opinião publicada pelo economista em 2013, na sua página do Facebook, onde criticava a governação do antigo Presidente da República, Armando Guebuza. O referido texto foi amplamente partilhado nas redes sociais com destaque para o Facebook e o Whatsapp. Dois jornais, nomeadamente Canal de Moçambique e Mediafax publicaram o texto nos seus jornais. Fernando Banze e Fernando Veloso responderão por isso.

Várias acções de solidariedade estão sendo levadas a cabo tanto por jornalistas assim como organizações da Sociedade Civil. Páginas de apoio ao economista e ao jornalista em causa têm surgido nas redes sociais. Por exemplo: Viva a Liberdade de Expressão e de Imprensa em Moçambique e Vozes não silenciadas.

Poucas horas depois do assassinato do Jornalista Paulo Machava, estava agendada uma conferência de imprensa conduzida por um conjunto de organizações da Sociedade Civil com objectivo de anunciar uma manifestação de repúdio ao julgamento do economista e dos jornalistas para o dia 31 de Agosto, dia da realização do julgamento.

Armando Nanene falando aos jornalistas após a Conferência de Imprensa. Imagem: Irex Moçambique

Armando Nanene falando aos jornalistas após a Conferência de Imprensa. Imagem: Irex Moçambique

Este ano, é a segunda vez que um cidadão é morto barbaramente na cidade de Maputo. O constitucionalista e docente universitário franco-moçambicano Gilles Cistac foi morto a tiro, na manhã do dia 3 de Março, quando acabava de tomar o seu habitual café numa pastelaria das ruas mais movimentadas de Maputo. Até ao presente momento nada se sabe sobre as motivações que levaram ao assassinato de Gilles Cistac.

Esta onda de crimes contra jornalistas e outras figuras que se destacam na sociedade através de comentários sobre os temas de interesse público, tem gerado indignação por parte dos cidadãos. Nas redes sociais é visível o choque. Carlitos Cadangue, jornalista do grupo SOICO questiona:

PORQUE MATAR UM JORNALISTA? Estou profundamente chocado com a morte do jornalista Paulo Machava. Admiro o porque de silenciar pessoas comprometidas com a verdade. A classe jornalistica esta abalada

Posted by Carlitos Cadangue on Sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Salvador Raimundo conta no twitter o trajecto do jornalista assassinado:

Outros, como é o caso de Lucas Muaga apelam que se pare com a perseguição aos jornalistas.

PAULO MACHAVA, paz a sua alma. Que sua morte näo seja resultado da perseguiçäo aos jornalistas.

Posted by Lucas Muaga on Sexta-feira, 28 de agosto de 2015