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Ativistas brasileiros relembram escândalos da Copa de 2014 em meio à prisão de chefões da FIFA

Ato no Rio de Janeiro contra a Copa. Foto: Mídia Ninja/Flickr, CC-BY-NC-SA

Ato no Rio de Janeiro contra a Copa, em 2014. Foto: Mídia Ninja/Flickr, CC-BY-NC-SA

Em meio ao escândalo de corrupção envolvendo a FIFA, ativistas brasileiros lembraram no Facebook e no Twitter a aliança entre a entidade máxima do futebol mundial e o governo do Partido dos Trabalhadores (PT) para a realização da Copa do Mundo de 2014 e os seus efeitos nefastos para a população — desde remoções forçadas à repressão de manifestações, prisões arbitrárias e desvio de dinheiro público.

Na ação comandada pelo FBI, sob supervisão da Procuradora-Geral dos EUA Loretta Lynch, diversas lideranças da FIFA foram presas na Suíça e nos EUA, entre eles o ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) José María Marín.

Marín foi deputado estadual por São Paulo durante a Ditadura Militar brasileira pela Aliança Renovadora Nacional (ARENA), partido de sustentação da ditadura militar que governou o Brasil entre 1964 e 1985, quando fazia discursos inflamados contra a esquerda. Um desses discursos é apontado como uma das causas da prisão, seguida de tortura e morte, do jornalista Vladimir Herzog em 1975. Ele também ganhou notoriedade após roubar diante de câmeras de TV a medalha de um atleta após a final da Taça São Paulo de Juniores.

O professor e ativista Marcelo Castañeda comentou no Facebook:

Não dá para comemorar a prisão do Marin/CBF sem fazer referência ao Igor Mendes, jovem lutador que continua preso em Gericinó por conta da fraudulenta Copa do Mundo; aos 23 ativistas que estão respondendo a processos por conta de serem considerados uma ameaça a este megaevento corrupto; e a todos os “pessimistas” que ousamos manter o grito ‪#‎NãoVaiTerCopa‬. Justiça que tarda sempre não é justiça.

Castañeda se refere aos 23 ativistas presos na véspera da final da Copa do Mundo, no ano passado, acusados de promoverem protestos violentos em 2013 e 2014. Alguns deles foram presos antes mesmo de protestar, para que, segundo a polícia, não pudessem promover atos violentos durante a final do mundial.

Grito de protesto mais usado durante as manifestações por ativistas de todo o país

Mote das manifestações anti-Copa em 2013 e 2014

Diversas entidades defensoras de direitos humanos apontam as diversas lacunas do processo e a total ausência de provas contra os 23 acusados.

O processo foi temporariamente suspenso na semana passada pelo desembargador Siro Darlan, mas a decisão não revoga a ordem de prisão de três dos ativistas — Eliza Quadros, conhecida como Sininho, Karlayne Moraes Pinheiro, conhecida como Moa, e Igor Mendes da Silva. Este último é o único dos 23 atualmente preso, enquanto Sininho e Moa estão foragidas.

 

Cenas de violência contra manifestantes contrários à realização da Copa do Mundo em São Paulo:

Sobre a prisão de Igor Mendes, a Agência Pública relatou em reportagem republicada pelo Global Voices:

Contra Igor Mendes, existe apenas o testemunho de Felipe Braz: quando os policiais foram à sua casa para detê-lo no dia 12 de julho, não encontraram nada que o comprometesse. Levaram um livro, um boné e um celular velho. Ficaram quatro horas com a mãe dele, que estava sozinha em casa (Igor tinha saído), interrogando-a de forma totalmente ilegal.

A ativista Helena Palmquist também lembrou dos oito trabalhadores que morreram durante a construção dos estádios da copa — alguns dos quais se transformaram em elefantes brancos, sem utilidade. Um deles, construído ao custo de mais 1.6 bilhão de reais, atualmente é usado como estacionamento de ônibus.

E o Rafael Braga Vieira, preso por porte de Pinho Sol num protesto contra a Copa, será solto? E o processo sem pé nem cabeça, pura perseguição política, contra 23 ativistas por protestarem contra a Copa, será extinto? E os direitos dos trabalhadores brasileiros violados durante a construção dos elefantes brancos da Copa, serão indenizados?

Rafael Braga Vieira, a quem Palmquist também se refere, é um ex-morador de rua acusado de fabricar artefato explosivo durante os protestos de junho de 2013, quando foi detido portando uma garrafa de desinfetante. Julgado de maneira sumária, hoje ele cumpre sentença de quatro anos e oito meses de prisão. Ativistas alegam que Rafael não tinha qualquer ligação com os manifestantes.

Os estádios da Copa foram pagos quase que integralmente com dinheiro público, com direito à pagamento de propinas. Também foram gastos R$ 30 milhões para compra de armas para a repressão dos protestos.

A ativista Juçara Viana desabafou:

Os legados da Copa das Copas…
Quando lembro o quanto fui criticada, ironizada e classificada por vários adjetivos por aqueles que defendiam, com muito amor e emoção, o grande evento que traria m
uitos benefícios aos país…e agora o silêncio ensurdecedor.
Quando lembro dos ativistas presos por protestarem os descalabros ocorridos para a criação desse famigerado evento…
Quando lembro das milhares de famílias que perderam suas casas, arbitrariamente e desumanamente desapropriadas…

PRotsto contra a COpa em São Paulo. Foto de Raphael Tsavkko Garcia, uso livre.

Protesto contra a Copa em São Paulo. Foto: Raphael Tsavkko Garcia, uso livre.

E a professora Esther Solano arrematou:

Uma perguntinha inocente e sem querer provocar. As pessoas que desprezaram os protestos contra a Copa e o “FIFA go home” como se os ativistas fossem um bando de loucos que dizem agora? Que tal um “vocês tinham toda razão”?

O ex-presidente da CBF, Ricardo Teixeira, que atualmente vive nos EUA, retornou ao Brasil para evitar uma possível prisão, assim como o atual presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, que estava na Suíça. Eles ainda correm risco de serem presos, no entanto, já que a Polícia Federal brasileira iniciou investigação própria contra a FIFA.