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As páginas do Facebook por trás dos protestos anti-governo de domingo, 15/03/2015

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Manifestantes contrários à Dilma, em São Paulo, no dia 6 de dezembro de 2014. Foto: grupo do Facebook “Vem Pra Rua Brasil”.

As diferenças ideológicas no Brasil se aprofundam e, ao mesmo tempo, cresce a expectativa de que milhares de pessoas saiam às ruas em pelo menos 50 cidades Brasil afora para exigir o “impeachment” da Presidente Dilma Rousseff.

Na sexta-feira, dia 13 de março, os sindicatos que apoiam o PT conclamaram as pessoas para se unir num movimento de ‘anti-protesto’ para defender a presidente Dilma contra aquilo que eles alegam ser o início de um golpe.

Dilma Rousseff, re-eleita há apenas cinco meses depois da votação mais disputada desde o fim da ditadura militar, na década de 1980, viu seu nível de aceitação realizadas desde novembro encolher do patamar de 42% para 23%, de acordo com estudo divulgado no mês de fevereiro de 2015 pelo instituto de pesquisa Datafolha.

Na semana anterior, enquanto a presidente discursava para a nação no Dia Internacional da Mulher, manifestantes saíram às janelas de suas residências em uma dúzia de cidades brasileiras, fazendo um “panelaço”.

Mas quem são estas pessoas por trás deste panelaço? Seriam os mesmos ativistas que mobilizaram milhares de pessoas a sair às ruas de suas cidades em junho de 2013?

Em 2013, aquilo que havia se iniciado, ao final de maio, como protestos típicos da esquerda, contrários ao aumento da tarifa de ônibus, acabou se transformando numa fusão de grupos de diferentes correntes do espectro político que traziam inúmeras demandas, contabilizando um volume de manifestantes jamais visto, até então, no país.

Mas, à medida que as manifestações eram impulsionadas, os movimentos sociais de esquerda, foram sendo progressivamente marginalizados e hostilizados. Por volta do fim de junho, a esquerda havia se ausentado completamente das ruas, alegando que os protestos haviam sido sequestrados pela direita[es]

Desde a chegada do Partido dos Trabalhadores (PT) ao poder em 2002, a direita já havia sido bem sucedida em mobilizar as massas. Em 2007, o movimento denominado ‘Cansei‘ exigia que o então Presidente Lula renunciasse; mas perdeu força após uns poucos meses.

A diferença agora – graças a uma economia enfraquecida e a uma série de escândalos de corrupção – é que aquelas vozes de direita têm sido bem sucedidas em captar mais centristas para a causa.

Diferentes graus de oposição

Quatro páginas do Facebook têm se projetado, de forma prominente, na mobilização desta nova leva de sentimento anti-governo:Movimento Brasil Livre,Vem Pra Rua,Revoltados Online e SOS Forças Armadas. Duas delas exigem o “impeachment” de Dilma, enquanto uma outra vai mais além e exige a intervenção do exército brasileiro.

A banner on a anti-Dilma protest in November: "Our flag will never be red". They also demand: "the end of Marco Civil".

Uma faixa num protesto anti-Dilma de novembro: “Nossa bandeira jamais será vermelha”. Também exigiam : “o fim do projeto do Marco Civil“. Foto publicada pelos Revoltados On Line n Facebook.

O que estes grupos têm em comum é a forte confiança nas mídias sociais para a difusão de seus pensamentos e para a mobilização de seus seguidores, além de sua natureza não-partidária: todos eles declaram não ter qualquer ligação a qualquer partido político no poder, nem mesmo o PSDB, o principal partido de oposição à Dilma. Também declaram sobreviver inteiramente das doações de seus seguidores.

Estes movimentos adotam, também, um tom anti-socialista, apelando para frequentes comparações entre o governo do PT e aquele de Nicolás Maduro, na Venezuela e o de Castro, em Cuba.

Posted by Revoltados Online.

Publicado pelos Revoltados Online.

Segue abaixo uma visão geral de cada movimento, feita com base em fontes disponíveis:

Movimento Brasil Livre – MBL (mais de 60.000 “likes”):

"Neither bolivarianism nor militarism"

“Nem Bolivarianismo e nem militarismo”

Criado no ano passado, este movimento advoga, abertamente, os valores liberais no estilo de Ronald Reagan e Margaret Thatcher. Em seu manifesto, eles defendem uma imprensa livre (“sem regulações do governo que possam influenciá-la”) e liberdade econômica (“um mercado livre de regulações abusivo e impostos sufocantes”). Um dos fundadores do movimento, Kim Kataguiri, 18 anos, possui um canal bem popular no Youtube, no qual ensina seus seguidores a “como argumentar com esquerdistas” e, satiricamente, sobre a Guerra Fria e as regalias do comunismo.

Em entrevista ao El País, em dezembro de 2014,os jovens membros do movimento disseram que, entre seus objetivos, está o de “renovar a marca” da direita:

A esquerda se apropriou da cultura, da arte, da música, daquilo que é considerado cool ou moderno.Hipster. Nossos amigos artistas não podem revelar sua ideologia porque sofrem uma repressão cultural se não forem de esquerda.

Em fevereiro de 2015, no meio de mais protestos contra mais um aumento no preço da tarifa de ônibus em São Paulo, o MBL organizou uma palestra na qual defendia soluções de mercado para lidar com a questão do alto custo do sistema de transporte público. Eles alegam que permitir que seja aberta licitação junto a firmas particulares iria provocar uma baixa nos custos e uma alta na qualidade dos serviços.

Revoltados Online, mais de 700.000 “likes”:

Marcelo Reis, administrator of the Facebook page "Revoltados On Line", on a protest in São Paulo in November. Photo posted by Revoltados Online.

Marcelo Reis, administrador da página do Facebook “Revoltados On-Line”, em manifestação em São Paulo de novembro de 2014. Foto publicada pelos Revoltados On-Line.

A mais antiga das quatro páginas, e também a mais popular. Fundada em 2010, é frequentemente tida como uma página de senso comum, que compartilha mensagens picantes, do tipo ‘todos os políticos são ladrões’, com outras do tipo ‘salve o meio ambiente’, mas se tornou particularmente crítica do PT depois que Dilma veio a se tornar presidente em 2011.

Ela é constantemente acusada de espalhar falsos rumoressobre políticos – tal como o boato de que o filho do ex-presidente Lula é sócio numa companhia multi-milionária e que é proprietário de um jato de luxo.A revista Forbes, acabou por rebater tal boato.

O criador da página, Marcello Reis, é conhecido por não segurar criticas feitas a movimentos sociais e sindicatos tradicionalmente ligado ao PT, como o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e a CUT (Central Única dos Trabalhadores), às quais ele se refere como sendo “terroristas”.

Em entrevista ao IG, site de notícias da web, ele afirmou que havia, anteriormente, defendido a intervenção militar, mas que “mudou de ideia” and diz que os movimentos deveriam buscar uma ferramenta mais democrática, como o “impeachment”.

Durante o “panelaço” do domingo, dia 8 de março, a página compartilhou inúmeros vídeos nos quais as pessoas apareciam xingando a presidente Dilma de “vadia” e de “vaca”. Reis diz que tratava-se somente de pessoas exercitando sua liberdade de expressão.

VemPraRua.net, mais de 320.000 “likes“:

A banner from movement "Vem Pra Rua" calling for the protests today: "No parties, no politicians, only the people".

Uma faixa do movimento “Vem Pra Rua” chamando para as manifestações de 15 de março: “Sem partidos, sem políticos, somente as pessoas “.

Vem Pra Rua é a página mais moderada, entre as quatro — é a única, na atualidade, contra o “impeachment” da presidente Dilma. Num recente comunicado de imprensa, eles disseram que são “contra qualquer tipo de violência de extremistas (separatismo, intervenção militar ou golpe de estado)”

As posições do grupo são um tanto quanto gerais e vagas. No mesmo comunicado, defenderam “liberdade econômica e suporte à empresa livre”, “mais meritocracia, menos populismo”, e, ao mesmo tempo, “igualdade de oportunidade para todos” e “educação, saúde, segurança, infraestrutura para todos”.

Their positions are somewhat general and vague.In the same press release, they defend “economic freedom and support to free enterprise”, “more meritocracy, less populism”, and, at the same time, “equality of opportunity to all” and “education, healthcare, security, infrastructure to all”.

SOS Forças Armadas, mais de 5.000 “likes

One of the posts shared by the page "SOS Forças Armadas", a quote attributed to Plínio Salgado, from the 1930's Integralist movement. "Integralism is not anti-democratic, when it condemns the parties it's because it aims to substitute them for corporations, organisms that in our days are the only ones able to express the popular will [...]".

Um dos “posts” compartilhados pela página “SOS Forças Armadas”, uma citação atribuída a Plínio Salgado, do Movimento Integralista de 1930.

O único grupo que demanda intervenção militar. Enquanto os membros das demais três páginas tiveram bastante exposição na mídia nas semanas anteriores a 15 de março, este grupo foi amplamente ignorado. As outras páginas têm vocalizado sua tentativa de se distanciar da ideia de intervenção militar.

Regime militar é um tópico sensível no Brasil, já que o país passou 21 anos sob a ditadura de militares depois que estes depuseram, em 1964, o presidente esquerdista João Goulart, que era visto como simpatizante do bloco comunista durante a Guerra Fria.

A página, em grande parte, compartilha montagens fotográficas com citações de textos de autoria de Plínio Salgado, o líder da “Ação Integralista Nacional”, movimento dos anos 1930's que ficou conhecido popularmente como sendo “os fascistas do Brasil”. A página declarou apoio total aos protestos do dia 15 de março.

Global Voices entrou em contato com todos os quatro grupos, mas eles se recusaram a dar entrevistas.

Uma “terceira via”?

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Cartoon de autoria de Objetos InAnimados

Apesar de ter sido acusada de estar querendo implementar uma ‘nova Cuba’ no Brasil, Dilma Rousseff iniciou seu segundo termo como presidente anunciando uma série de medidas austeras, incluindo o corte nos benefícios de desemprego e de aposentadoria, ainda que tenha prometido durante a campanha do ano passado que não iria “tocar”, de jeito nenhum, nos direitos trabalhistas dos brasileiros.

Os ativistas de esquerda que, em grande número, deram suporte a sua campanha por re-eleição em 2014 sob o lema ‘voto crítico’, têm um conjunto diferente de críticas sobre o governo de Dilma. Eles ficaram indignados com a desistência dela em dar suporte a uma proposta de descriminalização do aborto nas eleições de 2010, vocalizaram sua posição contrária à construção da represa de Belo Monte na Floresta Amazônica e, mais importante de tudo, se ressentiram com a decisão do PT de fazer alianças com partidos e políticos conservadores – incluindo os evangélicos conservadores - durante sua história recente.

Estes ativistas não estavam dispostos a fazer alianças com os liberais que iriam participar dos protestos do dia 15 de março. Eles rejeitaram o “panelaço” do dia 8 de março, apelidando-o de “protesto das sacadas” [ou, panelaço gourmet], termo que insinuava que os manifestantes eram cidadãos ricos, moradores de apartamentos com fachada para as ruas. Também criticaram os insultos sexistas dirigidos à Dilma por alguns manifestantes.

Em seu texto escrito para lembrar o Dia Internacional da Mulher e referindo-se às ofensas sexistas dirigidas à Dilma, a journalista Sílvia Amélia de Araújo observou:
Uma coisa que preciso contar pros amigues de direita: o povo que votou na Dilma também está insatisfeito. Alguns até gostariam de protestar. Na rua, não dentro de casa, sei lá, questão de afinidade.Mas… quando vocês, amigues, se comportam de forma tão nojenta, ai não dá, espanta a gente, saca? Nos vemos até na obrigação de defendê-la, de defender o respeito.Se querem protestar, protestem. Até peçam o impeachment, é o direito de vocês pedirem isso.Só não dá pra lutar por nada nesse mundo lado a lado com misóginos, não dá pra pensar na hipótese de compartilhar causa nenhuma com pessoas que tratam uma mulher de forma desumanizada. Só lembrando que hoje ainda é dia 8 de março.

Ana Paula Freitas, who agreed with Sílvia's post noted:

[…] eu não conheço ninguém que votou na Dilma no segundo turno que esteja satisfeito com o que está rolando.[…] me senti enganada pelas mentiras na campanha eleitoral, pela falta de posicionamento claro e pelas medidas econômicas.[…] SÓ QUE: Eu não quero protestar do lado de imbecis. Não vou ser idiota útil, não vou emprestar minha voz pra babacas, nunca. […] Cadê a terceira via? Amigos que pensam como eu – sei que são vários – como a gente pode pensar em se posicionar de uma maneira que mostre a insatisfação […] mas não peça golpe, não peça cabeça de ninguém […] em uma democracia, não grite palavras de ordem preconceituosas, essas coisas que são importantes pra gente (e que parecem pequenas, mas não são não, porque refletem visões de mundo muito opostas)? […]