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Moradores da Maré vão às ruas pedir paz, mas são recepcionados com bala e gás lacrimogêneo

Manifestantes em ato pela vida no Complexo da Maré. foto de Guilherme Fernández.

Manifestantes em ato pela vida no Complexo da Maré. Foto: Guilherme Fernández, publicada com permissão.

A última segunda-feira, dia 23 de fevereiro, foi mais um dia de terror para os habitantes do Complexo da Maré. Cerca de 800 pessoas (de acordo com a ONG RioOnWatch, presente no ato) de um dos maiores complexo de favelas do Rio de Janeiro participaram do “Protesto em favor da vida no Complexo da Maré”, em repúdio à violência policial às ações da Força de Pacificação do Exército — o exército brasileiro ocupa a Maré desde abril de 2014. O protesto foi reprimido como manda o protocolo nas favelas: com bala de verdade, e não de borracha.

O evento foi marcado via Facebook. Na descrição,

No dia 12/02 cinco amigos tiveram o carro fuzilado pelos militares no Salsa e Merengue quando voltavam de uma festa. Um dos ocupantes do veículo além de ter perdido a perna, continua internado em estado grave. 

Dia 20/02 um pedreiro foi assassinado enquanto fazia o seu trabalho na Vila do João. Confundido com traficante.. 

Hoje, dia 21/02, mais cinco pessoas foram alvejadas dentro de uma Kombi que fazia lotada Maré x Bonsucesso, na Vila do Pinheiro. 

A manifestação será pacifica e não teremos uma liderança formal, nos organizaremos na hora do ato. É um levante do povo!! 

No mesmo dia marcado para a manifestação, um garoto foi atingido por uma bala perdida enquanto jogava fliperama durante uma troca de tiros entre a polícia e “elementos suspeitos”. Segundo a página do Facebook Maré Vive, o menino teria onze anos, se chama Luan, e foi alvejado por um tiro nas costas. Foi a gota d'água que faltava.

A passeata saiu da Vila do João, uma das 16 favelas do complexo. Cartazes e faixas mostravam mensagens como “paz sem voz não é paz é medo”, “os terroristas vestem fardas”. O ato seguiria da Av. Brasil até o CPOR — Centro de Preparação de Oficiais da Reserva, a base das operações militares na Maré. Carregando armas letais, a polícia acompanhou a passeata e não permitiu que os moradores fechassem a Av. Brasil inteira — uma das avenidas mais importantes do Rio de Janeiro –, o que acabou empurrando o protesto para a Linha Amarela.

Cartazes em punho contra a violência. foto de Guilherme Fernández.

Cartazes e faixas em punho contra a violência. Foto: Guilherme Fernández, publicada com permissão.

Manifestantes carregam uma faixa com com os dizeres: "os terroristas vestem fardas". Foto: Gulherme Fernández.

Manifestantes carregam uma faixa com com os dizeres: “os terroristas vestem fardas”. Foto: Gulherme Fernández, publicada com permissão.

A versão da polícia militar é que, após a interdição das pistas nos dois sentidos da Linha Amarela, houveram “arrastões” (série de assaltos praticados por várias pessoas ao mesmo tempo) e a tropa de choque foi acionada.

Chegada a choque, os manifestantes correram para dentro da comunidade. Alguns começaram a jogar pedras e disparar rojões contra a polícia.

Nesse momento, a falta de comunicação entre a polícia e as tropas do exército causaram um incidente entre as corporações. O exército, sem avisar, efetuou disparos de fuzil com balas traçantes, para o alto de dentro da favela em direção à rua, onde a estava polícia. Essa revidou também com disparos de fuzil, para o alto. Os manifestantes ficaram no fogo cruzado.

A tensão foi crescendo e a repressão das Forças de Pacificação (exército) e da polícia, contra os manifestantes, vieram em forma de gás de pimenta, cacetete, granadas, tiros com bala de borracha e munição letal e bombas de efeito moral. Pessoas relataram passar mal com o gás lacrimogêneo foi usado pela polícia, mesmo depois do fim do protesto. Uma moradora relatou ao site agrega.la

Já não havia protesto, mas a mensagem do terror policial era clara: é isso o que acontece quando vocês favelados ousam lutar contra o Estado por seus direitos – relatou de uma moradora.

Linha Amarela tomada pelos manifestantes. Foto: Guilherme Fernández

Linha Amarela tomada pelos manifestantes. Foto: Guilherme Fernández, publicada com permissão.

O vídeo do veículo de mídia independente A Nova Democracia ilustra bem o cenário de tensão e violência:

Vídeo de um morador em tempo real durante a manifestação, postado na página do grupo Maré Vive:

 

O balanço final da manifestação, como seria de se esperar, até agora, foram dois civis mortos e três militares feridos. 

O clima é de tensão, violência e medo. foto de Guilherme Fernández.

Uma das faixas da manifestação. foto de Guilherme Fernández, publicada com permissão.

O repórter Matias Maxx, que cobriu a manifestação para a Vice, criticou a atuação de outros jornalistas da grande mídia do Brasil, que deram destaque à versão do Exército de que o protesto teria sido ‘orquestrado’ por traficantes:

Este é o momento em que um jornalista coxinha pau mandado escreveria uma baboseira sem sentido do tipo “tráfico incita população à atacar a policia” ou como disse o hipócrita do Rodrigo Pimentel no RJTV, “houve traficantes na organização do protesto”. Mas o que eu vi ali foi uma população revoltada, que leva tapa na cara e vê parentes e amigos serem assassinados pela polícia desde que nasceram, e que pouco a pouco está se cansando de ter seu jantar temperado por gás lacrimogêneo e spray de pimenta.

Ficou muito claro que o que aconteceu nessa noite foi pura e simples lei de ação e reação, a Choque fez chuva de bomba e tomou uma chuva de morteiros de volta. O contingente da Policia Militar em todo estado é de 48 mil pessoas, e a população da Maré uns 150 mil…

Ah, sem contar que traficantes odeiam confrontos de qualquer tipo, pois eles atrapalham os negócios, e em tempo de ocupação, eles andam em baixa. Então, afirmar que o tráfico tem algum interesse em incitar esses protestos é assinar um atestado de burrice e cabacismo de quem realmente não entende como se organizam as comunidades — ou é hipocrisia mesmo.

Maré ocupada

O Exército Brasileiro ocupa com aproximadamente 2.700 homens o Complexo da Maré desde abril de 2014. Em reportagem especial para a revista Retrato do Brasil, Lia Imishi relata o que levou o governo federal ao autorizar essa ação:

Em meados de fevereiro, policiais militares e unidades da chamada Polícia Pacificadora do estado começaram a ser atacados com granadas e outros armamentos. As forças de segurança consideraram que o ataque fora comandado por bandidos da facção Comando Vermelho, ligada ao tráfico de drogas e baseada, entre outros locais, em duas comunidades da Maré. Em nome da segurança no período da Copa do Mundo, o então governador Sérgio Cabral pediu formalmente – e a presidente Dilma Rousseff autorizou – a ocupação da Maré pelas Forças Armadas até o final de julho, após o término da Copa quando, supostamente, já estarão implantadas Unidades de Polícia Pacificadora na região.

A instalação da UPP até hoje não aconteceu. Em oito meses, o instrumento Garantia da Lei e da Ordem foi renovado por decreto presidencial três vezes — ele dá ao Exército o poder de efetuar prisões em flagrante, patrulhamento e vistorias. Em nota publicada no início de janeiro, o Ministério da Defesa afirmou que a desocupação começará no dia 1o de abril. A previsão é que no início de maio, a Maré já esteja “sob o controle da polícia militar”.

Armamento pesado. Soldado com fuzil e spray de pimenta. Foto: Gulherme Fernández.

Armamento pesado. Soldado portando fuzil, uma carabina 12 e spray de pimenta. Foto: Guilherme Fernández.

Soldado da Força Pacificador. foto: Guilherme Fernández.

Soldado da Força de Pacificação. foto: Guilherme Fernández.

Eliana Souza e Silva, diretora da ONG Redes da Maré, escreveu um artigo para o jornal O Globo sobre a atuação desastrosa do exército no Complexo da Maré:

É incompreensível que o governo justifique o investimento astronômico do dinheiro público nesta ocupação por forças militares, desconsiderando o que esse tipo de estratégia, de fato, contribui para a garantia do direito dos moradores de favelas à segurança pública. Quem exerce controle sobre a ação desses militares? A quem devemos recorrer quando se constata a prática corriqueira de violação junto aos moradores?

O que dizer de jovens soldados, vindos de variados estados do Brasil, sem qualquer relação anterior com a realidade que encontram na Maré, perambulando, fortemente armados, com medo e prontos para reagir atirando, como sempre fez a Polícia Militar, para se defender de um contexto que seus superiores afirmam estar sob controle? Quem controla ou é controlado por quem, nessa realidade de total perda de respeito a algo básico como a garantia inegociável da vida?