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Cova da Moura: “A violência policial é a face mais visível do racismo em Portugal” diz Flávio Almada

Esta entrevista é de autoria de Carla Fernandes. Ouça na integra através da Radio AfroLis.
Protesto contra a violência policial em Lisboa. Foto: Fernanda Canofre/GlobalVoices

Protesto contra a violência policial em Lisboa. Foto: Fernanda Canofre/GlobalVoices

Quinta-feira, dia 5 de Fevereiro, foi um dia triste e chocante para muitos de nós mas, infelizmente, para os moradores da Cova da Moura foi mais um dia. Nesta última semana, temos ouvido diversos relatos sobre violência policial na Cova da Moura, porque cinco jovens daquele bairro foram detidos quando se deslocaram à esquadra de Alfragide para saber informações sobre um habitante da Cova da Moura, que tinha sido preso nessa tarde. Na altura, a polícia acusou o jovem, inicialmente preso, de ter atacado os agentes com pedras e os cinco jovens de terem tentado “invadir” a esquadra.

Flávio Almada, ou Lbc, é membro da direcção do Moinho da Juventude, um projecto comunitário que existe há 30 anos na Cova da Moura e que recebeu o prémio de Direitos Humanos da Assembleia da República. Flávio descreve em entrevista à Radio AfroLis a sua versão do sucedido.

Flávio Almada (LBC):

Lbc: Eu sou Flávio Almada, conhecido por Lbc, nome de artista, artivista. Também sou ativista social, sou formado em tradução e escrita criativa. Trabalho no Moinho da Juventude, sou membro da direcção do Moinho da juventude e técnico auxiliar de educação, e também sou técnico de intervenção comunitário no projeto Escolhas.

Flávio Almada(Ldc), vitima de violência policial na Cova da Moura. Foto: Luís F. Simões. Publicação permitida

Flávio Almada(Ldc), vitima de violência policial na Cova da Moura. Foto: Luís F. Simões. Publicação permitida

Rádio AfroLis (RA): Pela primeira vez, creio eu, tu estás muito nos media. E eu gostaria que tu explicasses porquê. O que é que aconteceu para que tu agora ficasses no foco dos media?

Lbc: No dia 5 [Fevereiro], eu fui praticamente torturado, brutalizado pela equipa de intervenção rápida da PSP. Por essa razão. Depois, acusaram-me, acusaram-nos de tentar invadir uma esquadra. Uma ideia que só passa pela cabeça de um maluco porque isso não faz sentado nenhum.

RA: Como é que vocês chegaram à esquadra, ou o que é que aconteceu para que a polícia tentasse brutalizar-vos ou vos tenha brutalizado?

Lbc: Não tentaram, brutalizaram mesmo. No dia, eu acordei de manhã, fiquei em casa, fiquei a ler, era para escrever mas fiquei a ler. Depois encontrei-me com um professor, que é do Brasil, e fiquei até ao meio dia e tal. Depois pensei que tinha uma reunião, confundi quinta-feira com sexta-feira, tenho reunião sempre à sexta-feira, à uma. Então, fui até ao local do meu trabalho. Só que depois, lembrei-me que ainda tinha uma hora e voltei para casa. De repente, estava em casa e alguém disse “aconteceu isto mais aquilo” mas eu nem levei em conta.

RA: O que é que é “isto mais aquilo”?

Lbc: Que alguém tinha sido agredido, só que eu fui para a frente (…)No entanto, dividimos o trabalho, uma pessoa vai acompanhá-la ao hospital, [Jailza] que é a minha colega de trabalho, e eu e o Celso, vamos ver o que aconteceu com a pessoa que foi detida. Porque, normalmente, nós sabemos o que acontece quando uma pessoa é detida aqui no bairro.

 

RA: O que é que acontece?

Lbc: Normalmente os jovens são brutalizados. Pode perguntar a qualquer pessoa aqui na comunidade que sabem! E também porque, sendo membro da direcção e colaborador do Moinho da Juventude, há um protocolo, que é o protocolo Polícia de Proximidade, entre o Moinho da Juventude e a PSP. Então, é normal haver uma deslocação à esquadra de Alfragide para tentar perceber o que se passa, porque faz parte do acordo. Nessa sequência de acontecimentos nós fomos.

RA: Nós quem? Quantas pessoas foram?

Lbc: Nós éramos cerca de seis. Então, nós fomos. Descemos, sem nada, sem preocupações.

RA: Sem preocupações porque é uma atividade de rotina, que vocês fazem constantemente.

Lbc: Sim, de trabalho. Eu já tinha acompanhado outros jovens, não só à esquadra de Alfragide, mas a outras esquadras, como a central da Damaia, já tinha ido também com um outro jovem que foi notificado a Alfragide. Já fiz esse tipo de trabalho várias vezes. Quando nós íamos a caminho, passámos por um agente que estava ao pé de uma paragem de autocarros, estava lá uma mota estacionada. Passámos por ele, e quando chegámos, nem entrámos na esquadra. Ficámos na varanda porque não nos deixaram entrar. Dissémos “Somos do Moinho da Juventude e queremos falar com o chefe, por causa de uma pessoa que está detida aqui”. [Eles] disseram “Vocês não podem entrar!”  

RA: E isso é normal?

Lbc: É uma atitude estranha porque, logo a primeira coisa, foram logo agressivos na conversa. E daí eram três que estavam na porta. Dois foram para dentro. Chamaram-nos, disseram “Malta venham cá!”. E depois foi porrada. Foi porrada…

RA: Diretamente, sem dizer nada?

Lbc: Porrada e tiro. Porrada e tiro. Aquilo aconteceu tão rápido… Foi porrada e tiro. Durante muito tempo… Aquilo… praticamente foi… foi um inferno. Mas nós estamos aqui, de cabeça levantada. Estamos vivos, apesar de estarmos a ser acusados de uma coisa que ninguém, ninguém, principalmente quem vive neste bairro, pensa em fazer, porque sabe quais são as consequências.

RA: A questão da invasão da esquadra?

Lbc: Isso.. Quem vai invadir uma esquadra com uma agenda no bolso? E com uma pessoa (…) que sofreu um AVC, que tem uma tala na mão. E com outro jovem que estava vestido para jogar futebol. Não é a primeira vez que esse tipo de coisas acontece. Ainda hoje [10.02.15] tive o relato de uma pessoa, que disse que foi lá ver a situação da carta de condução dele e disse que ficou detido. E a irmã foi ver a situação dele e o que é que aconteceu? Ele estava algemado, tentaram sufocar a irmã, bateram na irmã (…) há vários casos de jovens que morreram e nem sequer houve uma condenação. Para nós, nós já conhecemos e isso acontece. Não sei qual é o espanto. Na sociedade portuguesa, nós também estamos dentro da sociedade portuguesa, muita gente não está acostumada a ver essas coisas, para essas pessoas, isso é um espanto. Mas isso são coisas que acontecem semanalmente, diariamente. Isso são coisas que acontecem por aqui.

“Há pessoas que quando vêm à polícia sentem medo. Sentem medo!”

Lbc: (…) Alguém tem que ser responsabilizado, as autoridades competentes têm que tomar uma atitude porque isso não pode continuar. Porque isso também afeta a nossa sanidade mental. Há pessoas que quando veem a polícia sentem medo. Sentem medo! Supostamente, se eu vejo algum agente, eu devo me sentir seguro, protegido. Mas aqui podem falar com os jovens, eles vão dizer o que sentem.  

RA: Podes dizer como foi o tratamento que vocês receberam na esquadra?

Lbc: Aquilo foi desumano e sádico. Sádico, porque no meio de tudo isso havia prazer! Eles sentiam prazer em fazer aquilo. Eu não vou descrever muitas coisas porque isso choca-me. Eu não tenho motivos para ter vergonha. A minha cara está levantada. Eu não vou a lado nenhum. Não tenho nada a temer. A verdade está do nosso lado. Que fique bem claro, nós não fizemos nada, fomos brutalizados! Agora a questão é que, a sociedade tem que perceber que há uma coisa que assusta, que é a convicção, a certeza quando alguém diz que nós africanos temos de morrer! Se pudesse exterminava-nos! E outras coisas… que nós nos íamos juntar à lista do Kuku e do Angélico.

 RA: Podes explicar quem são essas pessoas, porque muita gente pode não saber?

Lbc: O Angélico, pelo que eu sei, morreu num acidente de viação. O Kuku foi um jovem que foi morto, a catorze ou vinte centímetros de distância, pela polícia. Um miúdo de catorze anos… Ninguém foi punido. Passou-se normalmente, mas não é o único. Há o caso do Tony de Bela Vista, há o caso do Snake. Há vários casos, é só ir ver os processos nos tribunais. Quem não tiver preguiça vai lá ver… basicamente é isso. (…)

“Às vezes há notícias que são fabricadas”

Lbc: (…) Às vezes há notícias que são fabricadas, há coisas que nem acontecem cá que aparecem nos meios de comunicação social que nós: “Como? Como é que isso aconteceu cá e ninguém sabe disso?”. Então, é um trabalho de sensibilização, de tentar descriminalizar a comunidade, de também passar a mensagem do que, realmente, o bairro é. (…)

“A violência policial é a face mais visível do racismo em Portugal”

Lbc: (…)Toda a gente vai dizer… a comunicação social vai dizer “Mais um jovem delinquente da Cova da Moura”, o que já tem um estigma, e a sociedade portuguesa vai dizer “Se calhar atacou a polícia.” Não é isso que acontece. Há um incentivo para que se continue a praticar esse tipo de atitudes. Porque quando há impunidade, é um incentivo. Há um incentivo e isso tem que acabar. Nós somos pessoas.

Para quem acha que nós não somos pessoas: Nós somos pessoas. Nós somos contribuintes. Nós contribuímos tanto economicamente, como culturalmente, como intelectualmente nós contribuímos para a sociedade portuguesa e temos estado sempre a contribuir. Os nossos pais, assim como os outros… nunca gosto de usar a palavra os outros, para mim tudo é “nós”… [os nossos pais] trabalharam neste país, construíram este país, ainda trabalham neste país e automaticamente recebem esse tipo de tratamento…

Aqui a questão do racismo é profunda. Não é uma coisa do racismo moral, de mentalidades ignorantes, não. O racismo aqui é institucional, é estrutural. Toda a gente sabe disso. Quem está atento sabe. Por que é que quando a polícia violenta os jovens, vais falar com os jovens e dizes para apresentarem queixa, o que é que os jovens dizem? “Os tribunais nunca vão condenar ninguém. Não vai resolver nada.” Há uma descrença. Por que é que há essa descrença? Porque nunca se fez nada.

E outro problema é que a violência policial é a face mais visível do racismo em Portugal. Vamos ver a questão do desemprego em massa, a questão das prisões, vamos ver as pessoas que estão com problemas mentais. Vamos ver a questão dos bairros que são demolidos e as pessoas são empurradas para sítios, onde a partir das oito e tal não há transportes. Vamos ver o perfil racial quando cinco jovens negros vão para Lisboa à noite o que é que sofrem. Vamos ver a questão das leis de imigração. Portugal tem continuidade colonial. Portugal nunca foi rever a sua história, porque não quer. Há uma memória seletiva neste país, há muita coisa fictícia aqui.

E não é agora que vêm com essa conversa do lusotropicalismo, “não há racismo em Portugal” (…) Esse é o maior problema, há a negação. A negação do racismo. Um dia li uma frase no facebook, que o novo racismo é a negação do racismo.  E o racismo não tem só a ver com chamar-me “preto”, é uma questão de poder. Eu posso ser um preconceituoso e ter muito preconceito e ter até raiva de uma pessoa branca, mas nunca vou ter o poder de fazer essa pessoa perder o emprego. Nunca vou ter o poder, vou dar um exemplo, de meter uma pessoa numa esquadra, torturar essa pessoa e ainda sair ilibado, nunca! O racismo tem a ver com a questão do poder. Não é a questão do “pretinho”, isso não é nada. O racismo mata! É uma violência organizada, é uma violência de Estado. É só ver as comunidades como estão. A periferização da nossa comunidade, o que aconteceu em santa Filomena, mulheres idosas, mulheres com filhos, crianças sem casa, sem nada. Pessoas com nacionalidade a quem foi sugerido o abandono do país… Eles vão para onde? Eles nasceram cá, cresceram cá.  Por isso, é que às vezes há jovens que dizem sou afro-português ou luso-africano, ou qualquer coisa parecida,  isso é complicado… é muito complicado. Aqui há um problema que eu não sei como se vai resolver. (…)

Na passada quinta-feira realizou-se uma concentração em frente à Assembleia da República contra a violência policial. O protesto foi convocado pelos moradores do bairro mas não se restringiu apenas ao que aconteceu na Cova da Moura. “Foi uma concentração de toda a gente que se preocupa com a questão dos direitos humanos” disse Lbc na entrevista.  

Nota do editor: Estes são excertos da entrevista que pode ser ouvida na integra aqui: Radio AfroLis