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Angola : Telenovela suspensa por causa de beijo gay volta a ser exibida

Mensagem de apoio ao regresso da telenovela. Captura de tela

Mensagem de apoio ao regresso da telenovela. Captura de tela

Pela primeira vez na história da televisão Angolana, foi protagonizado um beijo gay, entre os actores Pedro Hossi – que assume o papel de  Carlos Nambe – e Lialzio Almedia – que interpreta Gerson Cange Gonçalves na telenovela ”Jikulumessu – Abre o Olho” transmitida em horário nobre da Televisão Pública de Angola (TPA). A cena desencadeou polémica dando origem à suspensão da telenovela.

O tema de homossexualidade já tinha passado pelos ecrãs angolanos, quando a telenovela Windeck, abordou sobre a história de um casal de lésbicas, mas a questão não levantou tanta polémica como o beijo entre dois homens perpetrado na “Jikulumessu”:

A realidade de Angola não se distingue de outros países africanos. A homossexualidade ainda é um tema tabu no país e em África. A discussão do assunto continua a suscitar  opiniões divergentes e que muitas vezes não são pacíficas no seio da sociedade civil e entre os partidos políticos.

Em 2013, a Associação Internacional de Gays e Lésbicas (IGLA), apresentou um relatório do qual consta que Angola embora não tenha “uma legislação especifica que proíba o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo, o Código Penal prevê punição para quem pratique actos contra a ordem da natureza” e afirma “que essas pessoas devem ser enviadas para campos de trabalho”. 

No facebook foi criada uma carta aberta presumivelmente da autoria de Walter Cristóvão, tendo como destinatário José Paulino dos Santos “Coréon Dú“, responsável pela produtora Semba Comunicação. A carta condena a exibição do referido “beijo gay”:

 Ilustre Sr, quero nesta minha humilde carta dizer que foi com repugnância que vi a imagem de dois homem se beijarem, emitida pelo canal nacional de televisão. Assim, com o devido respeito,pergunto: Quer ensinar isso às nossas crianças? Quer solidarizar-se com as pessoas de sexualidade alternativa? O que é que o Sr pretende de concreto? O Sr. ouviu a sociedade angolana? Fez algum estudo sobre o impacto desta acção? Reuniu-se com especialistas do Ministério da Família; o Ministério da Cultura, da Educação ou mesmo da Comunicação Social? O Sr conversou com o seu pai? Que conselhos obteve dele? O Sr. ouviu o parecer do PCA da TPA 1? Houve concordância? As pessoas que lhe são próximas, enviaram mensagens de elevada emoção depois de terem visto ou beijo gay!?

Alguns reforçam a critica argumentando que a produtora está a transportar hábitos alheios à cultura angolana e africana, como é o caso de Francisco Matumona num comentário à mesma carta:

De facto, o Coreon Du, como homem de cultura tem contribuído bastante para a nossa cultura e no emprego de muitos jovens talentoso, nisso, não há duvidas, alias, estas de Parabéns! Porem, é necessário muita cautela no memento de expor certas coisas! A nossa sociedade (a maioria de nós) e como africanos que somos, não nos sentimos confortável em ver dois homens ou mulheres a se beijarem ou se unirem, porque, isso não faz parte da nossa cultura! 

Francisco Santos defende que foi um passo importante para a televisão publica angolana:

É um pulo enorme que a TPA deu em termos de produção e realização estão todos de parabéns. E isto serve para abrir a mente das pessoas em relação ao preconceito .devemos aceitar as pessoas como elas são.

 O anúncio de suspensão imediata da telenovela surgiu 24 horas depois da transmissão do episódio que continha o beijo gay, alegadamente “por problemas técnicos”.

O responsável (‪@CoreonDuacusou a Televisão Pública de Angola (TPA) “de censurar a exibição da telenovela Jikulumessu”: 

(…) evidentemente que fiquei entristecido pela forma como foi cometido o acto de censura que o projecto sofreu pelo órgão que emite a telenovela, independentemente da sua eventual motivação. (…)

 No Twitter também surgiram reacções em relação à suspensão da telenovela:

Uma banda desenhada de Sérgio Piçarra partilhada no twitter:

A Direcção responsável pela novela apresentou publicamente um pedido de desculpas através de um comunicado:

Reconhecemos, todavia, que algumas imagens emitidas possam ter ferido susceptibilidades e algumas pessoas as podem ter considerado impróprias. Desrespeitar e ofender nunca foi o nosso propósito. Por isso, pedimos sinceras desculpas a todos que se tenham sentido ofendidos.

No mesmo comunicado ficou patente a intenção de se proceder à alteração do guião:

Tomamos, assim, a decisão de fazer algumas correcções na representação de alguns conteúdos mais sensíveis para assegurar que a abordagem dos mesmos em Jikulumessu mantém o valor pedagógico inicialmente pretendido.

 As reacções não tardaram: 

 Mariana Faria considera que a sociedade angolana não aceita a homossexualidade:

Circularam também mensagens de campanha incentivando o retorno da telenovela aos ecrãs de televisão:

Aline Frazão, cantora e cronista do Rede Angola numa crónica intitulada “De Olhos Bem Fechado” comenta:

(…) A homofobia é um preconceito injusto. Ninguém merece ser ofendido, discriminado ou prejudicado por causa da sua orientação sexual. Muita da rejeição social em relação à homossexualidade provém de uma crença cega e acrítica nas escrituras sagradas e de uma forma retrógrada de viver a religião. Independentemente das religiões que pratiquemos, o Estado é laico e deve proteger os direitos de todos os cidadãos. (…)

Paulo Pascoal, actor angolano radicado em Portugal, activista LGBT ou “gaynimista” como gosta de se designar, teceu considerações sobre esta circunstância peculiar:

 (…)  Há que realçar o valor pedagógico da produção da Semba Comunicação sobre as diferentes vertentes da sociedade angolana e não esquecer que o que para uns foi um acto abominável para muitos outros é um reconhecimento de igualdade, de esperança, de não ter que viver com medo de ser o que é, sempre foi e sempre será. (…)

O Rede Angola foi à rua saber o que os luandenses pensam a respeito do assunto referente ao beijo gay da novela “Jikulumessu”:

 

Aproximadamente 48 horas depois de cancelada, a televisão pública angolana anunciou o retorno da transmissão da telenovela, alegadamente suprimida devido à cena do primeiro beijo gay na história da televisão estatal angolana.