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“Charlie é Ahmed” e “Ahmed é Charlie”: hashtags da tragédia francesa

Photo uploaded by Twitter user @Hevallo Kurds in Paris tonight in solidarity with #CharlieHebdo #JeSuisCharlie #TwitterKurds

Foto adicionada pelo usuário de Twitter @Hevallo Kurds em Paris em solidariedade à #CharlieHebdo #JeSuisCharlie #TwitterKurds o

Logo após dois homens armados terem invadido com violência os escritórios do jornal satírico francês Charlie Hebdo em Paris, no dia 7 de janeiro de 2015, matando 10 pessoas, incluindo cinco proeminente cartunistas, a frase Je suis Charlie (Eu sou Charlie) apareceu em cartazes improvisados em vigílias e manifestações ao redor do mundo. A hashtag #JeSuisCharlie foi tuitada mais de 3.4 milhões de vezes no período de 24 horas.

Na mesma época, uma outra hashtag #JesuisAhmed (Eu sou Ahmed) sobre o policial francês muçulmano de nome Ahmed Merabet que foi executado pelos assassinos quando fugiam do Charlie Hebdo, começou a chamar a atenção. Foi Dyab Abou Jahjah, um colunista cuja base se encontra no eixo Bruxelas-Beirute quem criou a hashtag com o seguinte tuíte:

Jahjah ganhou 6 mil seguidores, mas seu tweet já foi retuitado mais de 31 mil vezes.

Depois de testemunhas terem dito que os assassinos haviam gritado “vingamos o profeta” enquanto fugiam da cena, os disparos tenebrosos foram imediatamente vinculados ao extremismo islâmico. Nos últimos anos, o debate a respeito de muçulmanos e extremismo islâmico na Europa tem sido aquecido com o aumento do sentimento anti-imigração e do número de partidos xenofóbicos, na França e pela Europa. Somente nos últimos três dias, ocorreram vários assaltos a alvos muçulmanos, na França, com granada e arma de fogo.

Imagens feitas com um celular e amplamente compartilhadas nas redes sociais mostra cenas dos últimos momentos do ataque ao Charlie Hebdo, quando um policial é morto a tiros pelos agressores ao fugirem do prédio. Mais tarde, o policial foi identificado como sendo Ahmed Merabet, de 42 anos. Este policial franco-muçulmano de origem tunisiana foi designado para patrulhar a 11ª divisão administrativa de Paris, onde se localiza os escritórios do Charlie Hebdo. Enquanto em serviço, Merabat atendeu a comunicado de tiros que estariam ocorrendo no jornal, e para lá se dirigiu. O vídeo mostra Ahmed sendo morto à queima roupa com tiros na cabeça, enquanto o atirador berra, em idioma árabe, “Deus é Grande”. Mais tarde, uma declaração do sindicado policial do qual Ahmed fazia parte, expressou sentimento de choque ao assistir ao vídeo no qual Ahmed é “morto como se fosse um cachorro”.

Numa entrevista para o canal de TV canadense Global News, Dyab Abou Jahjah, o criador da hashtag #JeSuisAhmed disse:

We saw there was a trend going on to show solidarity with Charlie Hebdo, which is natural and we all should, but we also [saw a trend] to point a finger at a whole population, the Muslim population. It was provoking for me to see that the religion of the terrorist counted in that debate, but the religion of the cop that was assassinated or killed by the terrorists did not count, while both had the same religion, so [I thought] it is not about religion. For me, it is about democracy and about citizenship and I wanted to express that. And I used the old Voltaire logic to formulate it differently.

Percebemos que havia uma tendência a mostrar solidariedade por Charlie Hebdo, o que é natural e todos deveríamos mostrar esta solidariedade, mas vimos também [uma tendência] a acusar uma população inteira, a população muçulmana. Tornou-se algo provocativo, para mim, ver que a religião do terrorista contava naquele debate, mas a religião do policial que foi assassinado ou morto pelos terroristas, não contava, e no entanto ambos tinham a mesma religião, então [eu pensei] isto não é sobre religião. Para mim, é sobre democracia e sobre cidadania e eu queria expressar isto. E usei a velha lógica de Voltaire para formular a questão de uma maneira diferente.

Alguns famosos usuários da Internet logo adotaram para si a hashtag #JesuisAhmed.

Haroon Moghul, com residência nos EUA, tuitou para seus 11 mil seguidores:

Internet Users Remember French Slain Cop in Paris Terror Attack With #JeSuisAhmed

Compartilhado pelo usuário do Twitter @samkalidi. O gráfico foi criado a partir de um vídeo de celular que capturou a execução de Ahmed.

Numa homenagem a Ahmed feita em vídeo pelo canal francês Itele, o policial é descrito por seus amigos e colegas como sendo “generoso, objetivo, modesto, super bondoso e adorável.” Um dia após o massacre, o público francês depositou rosas e mensagens no local onde Ahmed, o policial, foi brutalmente morto. Muçulmanos no Reino Unido expressaram solidariedade a Ahmed.

A última imagem diz

لا إكره في الدين

Sem compulsões religiosas (Islã).

Além da hashtag #jesuischarlie, também cresceram no Twitter as hashtags #jesuisahmed, #jenesuispascharlie, adotadas por pessoas que não aprovam a linha editorial deste jornal satírico.  Charlie Hebdo tem ridicularizado várias minorias, incluindo pessoas de pele preta, Judeus e Católicos, na França. Por causa disto, foram muitas vezes acusados de racismo. Passaram por um processo legal e foram absolvidos por uma corte francesa, em 2009, depois de terem retratado Sarkozy se convertendo ao Judaísmo por razões financeiras.