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Jornalista é agredido pela Polícia Militar após jogo de futebol no Brasil

Polícia no entorno da Vila Belmiro, em Santos. (Foto: Mídia Informal/Twitter)

Polícia no entorno da Vila Belmiro, em Santos. (Foto: Mídia Informal/Twitter)

Com seu iPhone, um jornalista tenta registrar uma briga entre torcedores de dois times de futebol na rua. Entre o gás das bombas de efeito moral atiradas pela Polícia Militar e o barulho de garrafas quebrando no chão, era difícil entender o que estava acontecendo. Sem nenhuma razão aparente, policiais militares o abordam. A violência é imediata: apontam armas, revistam sua mochila, apagam as fotos do seu celular e colocam uma bomba de efeito moral dentro da sua calça. A cena lembra aquelas dos protestos que aconteceram no Brasil em 2013, mas se passou depois de uma partida de futebol entre Santos e Botafogo, no domingo (30), na cidade de Santos (SP).

Trata-se do repórter do site esportivo LanceNet! Bruno Cassucci de Almeida, que usou sua página pessoal no Facebook para relatar o que viveu depois da partida que cobria no estádio Vila Belmiro. Cassucci conta que estava no vestiário do Botafogo, time que acabou sendo rebaixado para a segunda divisão no Campeonato Brasileiro, quando “ouviu barulhos de bombas na rua” e foi para fora do estádio ver o que estava acontecendo. “Não era possível ter certeza, mas tudo indicava que vândalos que se dizem torcedores das duas equipes estavam brigando”.

Ele segue o relato:

Decidi não ir ao encontro da confusão, como já fiz em outras ocasiões, mas fiquei ali esperando. Passado um tempo, a polícia se concentrou e foi para o lado esquerdo, próximo à entrada principal da Vila e na rua onde fica a sede da organizada Sangue Jovem. Fui atrás, mas mantendo distância. Ali bombas de efeito moral foram arremessadas, e alguns santistas revidaram atirando garrafas e paus. A polícia invadiu a sede da organizada e era possível ouvir explosões e barulho de vidro estilhaçado. (…) Uma policial, então, me mandou sair “vazado”. Argumentei que eu estava trabalhando e ela retrucou: “Eu também. Dá linha, curioso!”

Imagem da sede da torcida organizada, depois de ação da polícia. (Foto: Facebook)

Imagem da sede da torcida organizada, depois de ação da polícia. (Foto: Facebook/Sangue Jovem Santos)

Depois que o “campo de batalha” formado nas ruas em torno de estádio se acalmou, Cassucci decidiu voltar para a sede da torcida organizada para apurar o que tinha causado o conflito. Segundo ele, “foi então que tudo começou”.

Um dos policiais percebeu que ele estava tirando fotos e, apontando a arma, mandou-o virar-se contra a parede para ser revistado. Cassuci se apresentou como jornalista, o que não surtiu efeito. Após pedir para que o repórter desbloqueasse seu telefone, os policiais apagaram uma a uma as fotos que ele havia tirado. Enquanto revistavam sua mochila, avisaram que ele não olhasse para trás. Mas, de maneira instintiva, Cassuci olhou levemente por cima do ombro e foi imediatamente agredido no rosto.

Foi então que ocorreu a cena mais aterrorizante de toda a abordagem. Um PM aparentando muito nervosismo se colocou entre mim e a parede, pegou uma bomba de efeito moral, puxou minha calça e a colocou dentro. “Você não é macho? Quero ver ser macho agora”. Como fiz durante todo o episódio, expliquei que era jornalista, pedi desculpas, o chamei de “senhor”. Ele falou mais algumas coisas que não me lembro agora e saiu.

Em seu texto, Cassucci conta que os policiais reclamaram que ele só estava ali para “defender torcedor” e que a mídia só mostrava quando a “a polícia bate ‘nesses caras’”. O jornalista respondeu que só estava apurando a história.

No dia seguinte ao episódio, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo anunciou abertura de inquérito para investigar as denúncias feitas pelo repórter. Segundo nota do órgão, os policiais envolvidos podem responder por abuso de poder. O Sindicato de Jornalistas de Santos também encaminhou um ofício de repúdio pela agressão à Polícia Militar. Uma pessoa ficou ferida e 40 foram detidos após o confronto das torcidas.

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) se manifestou em nota

O episódio deste domingo é característico de contextos autoritários, em que revelar qualquer fato diverso do que o Estado pretende mostrar é considerado crime. O papel da Polícia Militar é proteger cidadãos e garantir à sociedade o direito de acesso a informações de interesse público.

Quando futebol é praça de guerra

Não há números oficiais sobre a violência entre torcidas no futebol brasileiro. Um levantamento feito pelo mesmo site onde trabalha Bruno Cassucci apontou que, entre 1988 e 2013, a violência nos estádios matou 234 pessoas no Brasil. Só em 2013, o pior ano em termos de violência envolvendo torcidas, o saldo foi de 30 mortos. Em outro levantamento independente, realizado por um jornal do Rio Grande do Norte – estado com maior número de mortes –, a conta aumenta para 35.

Polícia dispara contra torcedores do Corinthians que comemoravam a Libertadores da América, em julho de 2012. (Foto: Outras Palavras)

Polícia dispara contra torcedores do Corinthians que comemoravam a Libertadores da América, em julho de 2012. (Foto: Outras Palavras)

Já a violência policial é melhor documentada. Em novembro, um estudo realizado pelo órgão não governamental Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontou que em média 6 pessoas são mortas por dia por policiais no Brasil. Um levantamento feito pela BBC Brasil junto aos governos estaduais mostrou que, para cada policial assassinado, quatro pessoas são mortas pela polícia, o que para alguns analistas é prova de que há uma guerra entre policiais e civis.

Disse à BBC Ignacio Cano, sociólogo e coordenador do Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro:

Quanto mais mortes causadas pela polícia, mais policiais vão ser mortos quando estão trabalhando na segurança privada ou quando são surpreendidos nas áreas onde eles moram. Isso, por consequência, significa que a polícia vai matar mais depois, entrando num círculo vicioso. Uma lógica de guerra que nunca desapareceu no Brasil, mas algo que temos que combater e tentar manter sob controle.

Segundo o Mapa da Violência 2014, relatório elaborado pelo Instituto Sangari, morreram 56 mil pessoas no Brasil apenas no ano de 2012. A pesquisa também levantou dados de taxas de homicídio de 100 países diferentes — o Brasil ocupa a 7a posição no ranking, com 27,5 assassinatos para cada 100 mil habitantes, atrás apenas de Guadalupe, Venezuela, Colômbia, Trinidade e Tobago, Guatemala e El Salvador.

A desmilitarização das polícias militares já é uma reivindicação antiga dos movimentos sociais do Brasil. Outra pesquisa realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que 73% dos policiais são a favor a desmilitarização.