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Jornalistas de Hong Kong combatem autocensura, intimidação e violência policial para noticiar “revolução dos guarda-chuvas”

Staffs from Apple Daily News showed their determination to keep the news room operating after the mob attack on October 13. Photo from Chan Pui Man's Facebook.

Funcionários do Apple Daily News mostraram sua determinação em manter a redação em funcionamento mesmo após o ataque da multidão em 13 de outubro. Foto da página do Facebook de Chan Pui Man.

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Jornalistas de Hong Kong têm estado sob enorme pressão nas últimas semanas devido à cobertura da “revolução dos guarda-chuvas”, os protestos pró-democracia que exigem eleições livres e justas. Não só se expuseram à violência durante a cobertura dos confrontos entre a polícia e os manifestantes, como também alguns deles ao retornar aos escritórios tiveram de aguentar a pressão da auto-censura das redações ou até mesmo o assédio de criminosos pró-Pequim.

Desde que a polícia começou a remover as barricadas feitas por manifestantes nos locais da ocupação maciça denominada “Occupy Central”, os confrontos entre manifestantes e policiais passaram a ocorrer diariamente. Posicionando-se entre a polícia e os manifestantes, os jornalistas fotográficos se tornaram vulneráveis a agressões. Não é raro ver um operador de câmara sendo pulverizado com spray de pimenta ou mesmo empurrado por policiais durante o noticiário. Em alguns casos, a polícia não diferencia entre manifestantes e repórteres e os agride quando estão tirando fotos na linha de frente. 

Quatro sites independentes de notícias — inmediahk.net, SocREC, USP e Local Press — divulgaram uma declaração pública conjunta condenando a polícia pelo ataque intencional de repórteres em 15 de outubro, enquanto dispersava os manifestantes em frente à sede do governo, na avenida Lung Wo:

凌晨三點,SocREC一名攝影記者則在添馬公園採訪清場,被持防暴裝備的警察強行拉入警員堆之中,拳打腳踢接近30秒,記者的眼鏡、頭盔以及眼罩被打至飛脫。一輪暴打後,兩名警員把該名記者拖行近30秒,送上警察押送犯人的旅遊巴上。拖行期間,受傷記者不停向警察展示記者證,但警察依然没有停止毆打,更用粗口辱罵記者。記者在旅遊巴上,有負責應付傳媒的警員確認SocREC記者身份後,著令他下車。記者事後已去瑪麗醫院驗傷,證實面部、額頭、鼻、嘴角、頸部以及左手手臂都有明顯傷痕。

同一時間,獨媒其一中名攝影記者在龍和道隧道內採訪期間,一名警察突然上前用胡椒噴霧指嚇他,記者遵從警員指示後退,但警察仍然在毫無警示下多次正面對準記者面部發射胡椒噴霧;後來,該記者雖然多次重申記者身份,警察仍然把他雙手扭轉並押走。其後警察更對記者吆喝:「記者又點,記者大哂?」、「記者又點,記者唔可以行前影相架嘛!」,警察確認記者身份之後放行。而另一名獨媒記者在後退時,亦遭警員用圓盾撞傷頭部。

Às três da manhã, enquanto estava cobrindo a dispersão do parque Tamar, um repórter da SocREC foi puxado para as margens da linha da polícia de choque e espancado durante aproximadamente trinta segundos. Mais tarde, dois policiais o arrastaram pela avenida por trinta segundos e o jogaram dentro de uma van policial. O repórter ferido mostrava repetidamente a sua credencial de imprensa durante o ato, mas isso não impediu a polícia. Ao invés disso, ele foi agredido verbalmente. Apenas após a confirmação de sua identidade dentro da van por um oficial de imprensa da polícia, ele foi libertado. O repórter buscou tratamento no Hospital Queen Mary e a análise clínica revelou profundos ferimentos no rosto, testa, nariz, boca, pescoço e braço esquerdo. 

De modo similar, um repórter do inmediahk.net, que estava fazendo a cobertura dentro de um túnel na Avenida Lung Wo foi abruptamente ameaçado por um oficial da polícia com spray de pimenta. O repórter seguiu as ordens do policial e recuou, mas foi pulverizado no rosto sem nenhum aviso prévio. Muito embora tenho mostrado a credencial de imprensa repetidamente, ele foi preso e algemado. Durante o ocorrido, o policial gritou: “Repórter? E daí?” “Até mesmo repórteres não podem tirar fotos da parte da frente.” O repórter foi libertado depois de ter sua identidade verificada. Outro repórter da inmediahk.net foi atingido na cabeça pelo escudo de um oficial da polícia de choque enquanto recuava.

Ainda que os repórteres na linha de frente se arrisquem a sofrer violência física para fazer a cobertura, suas histórias podem vir a não ser publicadas por causa da autocensura praticada nas redações. Muitos órgãos de comunicação social em Hong Kong, região administrativa especial da China, já temem a perda de cotas de publicidade em seus negócios ligados ao continente e a ira do governo de Pequim. Esta tendência somente cresceu com os protestos recentes, que reivindicam um sistema de nomeação aberta de candidatos para chefe municipal do executivo, o que vai contra o desejo do governo central, que quer um comitê de nomeação maioritariamente pró-Pequim.

Em 15 de outubro, o chefe executivo de notícias da TVB, a emissora de televisão mais popular da cidade, ordenou que a equipe de notícias editasse a narração de uma reportagem de video denunciando a alegada brutalidade da polícia. As sequências da matéria mostram um manifestante algemado sendo claramente golpeado com socos e pontapés por policiais em um canto escuro durante quatro minutos.

No dia seguinte, 28 membros da agência de notícias publicaram uma declaração conjunta expressando pesar pela decisão da administração, a qual contou com a assinatura de mais de 100 funcionários da agência.

O ex-jornalista da TVB, Au Ka Lun, explicou como a agência de notícias TVB funciona, depois de ler a declaração conjunta:

這份行文平淡的聲明,一字一句,都是血與淚;我讀到了,我記起了,我們這一代記者,無止境的屈辱與掙扎,理想與現實的差距,去與留之間的徘徊。[…]
很多時,前綫記者,就只負責採訪,他們是「車衣女工」,只是新聞製作過程的一環。很多時,採訪完畢,片段送回公司,稿不是他們寫的,內容的編輯與選材,也不是前綫記者全權決定的,新聞部裡,有很多編輯,有很多採主,編輯採主之上,還有一個人;一個人之上,有強橫的勢力。記者最自由自主的時間,就是那一個人睡覺的時間,而他睡很少。

Cada palavra desta declaração foi escrita com suor e sangue. Eu a li e lembrei das incontáveis humilhações e da luta que a nossa geração de repórteres tem enfrentado. O abismo é enorme entre o ideal e a realidade e se cada um deve permanecer ou ir embora é sempre uma luta.     […]

Na maior parte do tempo, os jornalistas na linha da frente somente são responsáveis por entrevistas e gravações locais. Eles são como os trabalhadores de uma fábrica, responsáveis por uma parte da preparação das notícias. Depois de terem feito o seu trabalho, a edição volta para os escritórios da agência. Eles não são responsáveis pelo script. O conteúdo e foco das notícias não podem ser decididos pelos jornalistas. Na agência de notícias há muitas notícias e editores responsáveis e, acima deles, há mais uma pessoa responsável. Acima desta pessoa responsável, há forças ainda mais poderosas. Os jornalistas não são livres e autonômos. Eles somente são livres quando uma única pessoa está dormindo, mas esta dorme muito pouco.

As “forças poderosas” referidas por Au são as diferentes formas de pressão política vindas de Pequim, tais como calúnias ou até mesmo ameaças violentas. A maioria das agências de notícias em Hong Kong comprometeram-se a incorporar a autocensura nas redações, assim como a TVB faz. Para aqueles que se recusarem a obedecer, as ameaças são mais explícitas.

Desde 12 de outubro, que ataques pró-Pequim foram organizados para cercar a sede da agência de notícias pró-democracia Apple Daily e impedir o transporte dos jornais para os caminhões. Além disso, o site da Apple Daily sofreu ataques virtuais que causaram a desabilitação do site e as linhas de telefone do escritório foram congestionadas com chamadas abusivas.

Muito embora a distribuidora de imprensa tenha obtido rapidamente uma ordem judicial de restrição, os ataques continuam ao redor da entrada. Uma vez que a polícia de Hong Kong não toma nenhuma iniciativa para dispersá-los, os funcionários da Apple Daily foram à luta e os confrontaram nas ruas. 

Staffs from Apple Daily confronted with the mobs outside the media outlet's headquarter by holding up the newspapers. Photo from Chan Pui Man's Facebook.

Funcionários da Apple Daily confrontaram a multidão às portas sede da distribuidora levantando seus jornais. Foto da página do Facebook de Chan Pui Man.

Desde que Pequim insistiu em eliminar os candidatos “indesejáveis” na primeira votação direta de Hong Kong para eleger o seu presidente, alegando ser uma questão de segurança nacional, seus representantes na cidade recorreram a medidas extremas para abafar as vozes opositoras. Estas medidas não só dificultaram o desenvolvimento da democracia, como também limitaram a liberdade de imprensa, o que constitui a base da cidade financeira.

Tradução editada por Lú Sampaio como parte do projecto Global Voices Lingua